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1 mês

Pastor é denunciado por abuso após menina perguntar: 'Vô, o que é estupro?'

Pastor Antônio Carlos de Jesus Silva, de 51 anos, foi denunciado por abuso sexual - Reprodução/Facebook
Pastor Antônio Carlos de Jesus Silva, de 51 anos, foi denunciado por abuso sexual Imagem: Reprodução/Facebook

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

22/10/2021 15h07Atualizada em 22/10/2021 15h07

Um psicólogo e pastor da Primeira Igreja Batista da Vila Kennedy, localizada na zona oeste do Rio de Janeiro, foi denunciado pelo Ministério Público por estupro de vulnerável contra uma menina, na época com 11 anos, e com transtornos mentais. Os abusos teriam ocorrido entre novembro de 2020 e abril de 2021. O caso veio à tona após ela perguntar ao avô: "O que é estupro?".

A Polícia Civil do Rio investiga ainda se Antônio Carlos de Jesus da Silva, de 53 anos, cometeu o mesmo crime contra outra criança, na época com oito anos de idade. Segundo denúncia da vítima, hoje com 22 anos, o caso ocorreu em 2007 e em 2008. Nos dois casos, os crimes teriam sido cometidos dentro da igreja. Em depoimento, Antônio Carlos negou as acusações.

O inquérito sobre o estupro contra a menina de 11 anos foi denunciado em maio pelo Ministério Público do Rio e aguarda ainda a decisão da Justiça - um impasse para definir a vara responsável pelo processo atrasa o andamento do caso.

O UOL conversou com a mãe da menina que sofre com transtornos mentais. Segundo ela, os crimes teriam se estendido da igreja para o consultório do pastor, que ofereceu atendimento à família para tratar os problemas da criança, que hoje tem 12 anos. De acordo com ela, que não terá o nome divulgado para proteger a menor, a vítima teve seu estado de saúde mental agravado após ser submetida aos atendimentos com o pastor e foi necessário redobrar as medicações das quais a criança faz uso.

Eu tenho vivido à base de calmantes. Não imaginava que o pastor da minha igreja seria capaz de fazer isso. Os dois conviviam na igreja e no consultório dele. Ele ofereceu tratamento para cuidar dela. A gente só queria que ela melhorasse, mas só vimos a crises aumentarem, ela ficar abatida e precisando de mais remédios.

A mãe da garota contou ainda que tomou conhecimento dos abusos quando a filha perguntou ao avô o que era estupro.

Indo para um encontro da igreja num dia, ela perguntou: 'Vô, o que é estupro?'. Meu pai respondeu e imediatamente ela contou que o pastor agarrou ela por trás e se esfregou nela. A gente ficou em choque, sem acreditar e acreditando ao mesmo tempo, pois era uma pessoa que a gente confiava e conhecia há muito tempo.

A menina relaatou outro caso, dentro do consultório onde o pastor atendia como psicólogo. Ela contou que foi colocada no colo dele, teve o pescoço beijado e o corpo acariciado.

Após relatar o caso à família, a criança conseguiu ainda gravar uma conversa entre ela e o pastor. A gravação foi entregue à Polícia Civil em 27 de abril - data da denúncia.

Impasse na Justiça

Ao concluir o inquérito, a delegacia de Atendimento à Mulher de Campo Grande representou pela prisão preventiva do pastor. O caso foi denunciado à Justiça em maio pelo Ministério Público, mas o pedido de prisão foi substituído por medidas cautelares como comparecimento mensal ao juízo, proibição de se aproximar da vítima e de manter contato com ela e com os familiares e a suspensão das atividades de pastor e psicólogo.

A decisão da promotora Elisa Fraga de Rego Monteiro levou em consideração que o suspeito compareceu em sede policial para prestar depoimento e não possuía antecedentes criminais.

Antônio foi denunciado pelo artigo 217 - que prevê pena de 8 a 15 anos de prisão a pessoa que manteve conjunção carnal ou praticou ato libidinoso com menores de 14 anos.

A Justiça ainda não se manifestou sobre a denúncia devido ao impasse para a definição da vara competente - o que no Direito chama-se "conflito negativo de competência". Um desembargador de segunda instância terá que decidir se o caso ficará em uma vara especializada em violência doméstica ou em uma vara comum, atrasando o andamento do processo.

"O MP ofereceu a denúncia, o juiz receberia essa denúncia e deflagaria o processo criminal. Acontece que dois juízes estão brigando entre si, o que atrasa o andamento do processo. Por isso até agora não há medida aplicada em relação à prisão do acusado, produção de provas, oitivas de testemunhas. Isso gera um prejuízo e revitimização dos envolvidos", disse o advogado da família, Carlos Nicodemos.

Polícia recebe outra denúncia contra o pastor

Foi após a repercussão do caso da criança, que outra vítima registrou a segunda denúncia envolvendo o pastor. Uma mulher, com 22 anos, relatou também ter sofrido abusos quando tinha oito anos de idade.

"Existem dois procedimentos instaurados, com duas vítimas distintas e o mesmo modus operandi foi observado nesses dois casos praticados pelo mesmo autor. No primeiro deles, a vítima de 11 anos contou para os seus avós que procuraram a polícia para denunciar o caso. Já o segundo se trata de fatos pretéritos ocorridos entre os anos de 2007 e 2008 e o procedimento foi instaurado agora momento em que a vítima teve coragem de denunciar", explicou a delegada Viviane da Costa.

O segundo caso ainda está em fase de investigação.

O outro lado

A Primeira Igreja Batista em Vila Kennedy publicou uma nota nas redes sociais onde declarou que " A Igreja repudia qualquer tipo de crime e aguarda que a Justiça apure o ocorrido, analisando os fatos e provas apresentadas".

De acordo com o comunicado, o pastor Antônio Carlos foi afastado do cargo de liderança e do pastorado.

O UOL fez contato com a igreja por telefone para requisitar contatos de Antônio Carlos, mas ninguém atendeu às ligações. As denúncias do MP não apresentam advogados de defesa do pastor, que apagou suas redes sociais.

À Polícia Civil, o pastor negou todas as acusações e justificou os atendimentos para tratar surtos psicóticos da criança. Ele afirmou ser inocente.

Já o Tribunal de Justiça do Rio informou que o caso tramita em segredo de justiça e que ontem os autos foram encaminhados para o gabinete do desembargador-relator.

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