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Homem negro é torturado em supermercado após suspeita de furto no Maranhão

Local onde homem negro foi algemado e mantido sob cárcere privado em supermercado do Grupo Mateus, no Maranhão - Divulgação
Local onde homem negro foi algemado e mantido sob cárcere privado em supermercado do Grupo Mateus, no Maranhão Imagem: Divulgação

Rafael Souza

Colaboração para o UOL, de São Luís

28/12/2021 12h31Atualizada em 29/12/2021 11h23

A Polícia Civil do Maranhão prendeu na segunda-feira (27) quatro funcionários que prestam serviço ao Grupo Mateus por manter um homem negro sob ameaças, tortura psicológica e cárcere privado por quatro horas dentro de um almoxarifado de um supermercado da rede, em Santa Inês, no interior do Maranhão.

Foram presos os fiscais de prevenção de perdas do supermercado Lucas Rocha e Levi Araújo, o vigilante Willamy Antonio e e o subgerente do supermercado, Wellington Rodrigues. O UOL entrou em contato com a defesa dos funcionários, mas ainda não houve retorno dos advogados até a última atualização desta reportagem.

A empresa é uma das maiores redes varejista de alimentos do Brasil, com mais de 50 estabelecimentos nos estados do Pará, Maranhão e Piauí. O dono, Ilson Mateus, é considerado um dos homens mais ricos do Brasil, segundo a Forbes, com fortuna estimada em R$ 20 bilhões.

A vítima, de 35 anos, havia comprado dois quilos de frango, às 8h de domingo (26), e saía com a sacola com o produto e a nota fiscal, depois de pagar pelos itens no caixa. As imagens da câmera de segurança do supermercado flagram a abordagem de um segurança no momento em que o homem deixava o supermercado.

Ele foi conduzido por uma escada até o setor de gerência do supermercado. Lá, foi fotografado e levado ao almoxarifado, nos fundos da loja. Segundo o relato prestado na delegacia da cidade, ele foi algemado e amarrado com um pedaço de fio metálico a uma barra de ferro por ao menos quatro horas. Nesse período, ele foi ameaçado por seguranças, inclusive com arma de fogo, para que confessasse um suposto furto.

"Os funcionários, em vez de realizarem o procedimento legal de acionamento da Polícia Militar ou da Polícia Civil, para que ele fosse conduzido e autuado pelo crime de furto, o que eles fizeram foi amarrá-lo, praticar tortura psicológica e ainda tortura física, porque ele foi mantido amarrado em uma barra de ferro, em pé, por quatro horas", disse o delegado Allan Santos, de Santa Inês.

Segundo o delegado, pelas imagens, é possível ver que a vítima carregava duas sacolas, uma delas com o frango e outra com itens diversos -não é possível constatar, no entanto, que esses objetos tenham sido furtados do supermercado ou se já estavam com o homem.

"Na versão oficial dele [a vítima], ele informa que não praticou nenhum tipo de furto. Ele diz que se dirigiu ao açougue, pediu dois quilos de frango, saiu e pagou os frangos. Há até a nota fiscal que foi fornecida por um dos presos, e estava no bolso dele. Mas, pelas imagens, dá para ver que ele realmente estava tentando sair com um carrinho que tinha duas sacolas, uma na parte de cima e outra na parte de baixo. Com essas sacolas, ele foi convidado a subir algumas escadas e, ao abrir uma das sacolas, tinha outros gêneros alimentícios", afirmou o delegado.

Somente por volta das 14h, Raimundo foi solto pelos funcionários levando apenas o frango. Ele foi para casa e, em seguida, registrou um boletim de ocorrência. Policiais civis foram até o supermercado e levaram os envolvidos à delegacia.

"Chegamos ao supermercado e encontramos as pessoas que ele [Raimundo] apontou como autores dos crimes. Havia mesmo um almoxarifado, que era usado para depósito de eletrônicos. Também encontramos, na sala de monitoramento de vídeo, a algema utilizada, e, no local onde ele apontou, encontramos o fio elétrico cortado utilizado para amarrar a algema na estrutura metálica onde ele ficou", completou.

Segundo a polícia, diante dos elementos encontrados e do pouco tempo entre a denúncia e o horário do fato, houve a caracterização de flagrante e os funcionários foram autuados por tortura e cárcere privado, e depois encaminhados à Unidade Prisional de Ressocialização de Santa Inês.

Em relação ao suposto crime de furto direcionado à vítima, a polícia diz que ainda precisa de investigação. "Mesmo que tivéssemos a informação que ele praticou efetivamente o furto, não poderíamos dar a voz de prisão porque não havia mais a situação de flagrante devido o lapso de tempo entre o suposto fato e a denúncia."

Sobre o caso, o Grupo Mateus afirmou que houve um grande furto de alimentos no supermercado e que o cliente foi mantido preso até que familiares chegassem para pagar os produtos a mais.

"Relatamos que a equipe de segurança interna abortou um caso de furto de inúmeras mercadorias. Foi concedido ao autor um prazo para que a sua família efetuasse o pagamento das mercadorias, evitando assim o registro formal da ocorrência. Sem o comparecimento de familiares, o autor foi embora, tendo a empresa recuperado os mais de 30 produtos furtados. Em represália à apreensão, o mesmo registrou boletim de ocorrência, deturpando os fatos e levando informações distorcidas ao delegado de plantão que apurou preliminarmente o caso. Continuaremos à disposição das autoridades para esclarecer o ocorrido", diz a nota da empresa.

Em relação à justificativa do Grupo Mateus, a polícia afirmou que não há prerrogativa legal para manter uma pessoa presa até que possa pagar por produtos furtados e que o correto seria a empresa chamar a polícia para conduzir o suspeito à delegacia.

Ainda ontem, o juiz de plantão decidiu conceder a liberdade provisória dos funcionários do Mateus por não terem antecedentes criminais.

Não é a primeira vez que um caso de truculência de seguranças do Mateus é registrado na polícia. Em julho, Jacqueline Debora Costa de Oliveira, de 42 anos, denunciou que foi torturada dentro do Mix Mateus do Araçagy, em São Luís. A cliente relatou que apanhou porque foi confundida com uma integrante de uma quadrilha de roubo de produtos, mas nada foi encontrado em sua bolsa. O caso ainda é investigado.

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