PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Em meio a apuração, Capitólio vê boato sobre causa de desastre se espalhar

Entrada do Parque Mirante dos Canyons, em Capitólio (MG), bloqueada desde sábado após o acidente - Lucas Borges Teixeira/UOL
Entrada do Parque Mirante dos Canyons, em Capitólio (MG), bloqueada desde sábado após o acidente Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

Lucas Borges Teixeira

Enviado especial a Capitólio (MG)

12/01/2022 04h00Atualizada em 12/01/2022 08h47

Acidente natural ou intervenção humana? Sem provas e com a investigação da polícia ainda em estágio inicial, diferentes boatos sobre a causa do desmoronamento de rocha que matou dez pessoas no lago de Furnas, em Capitólio (MG), a cerca de 300 km de Belo Horizonte, no último sábado (8), se espalham pela pequena cidade turística.

Em áudios compartilhados por aplicativo de mensagem, moradores difundem teorias sobre o que teria causado o acidente com a lancha na região de cânions, incluindo um mirante construído acima da rocha há um ano e meio. Ainda sem indícios, a Polícia Civil diz que recorrerá a geólogos e refuta o que chama de "palpiteiros".

Ao UOL, a administradora do mirante afirmou que a construção fica "em outro bloco rochoso" e que as intervenções foram feitas de forma profissional e "em respeito ao relevo natural" (leia mais abaixo).

Poucas evidências, muitos boatos

"Não era para ter construído nada ali, todo mundo sabe disso", reclamava, alto, o aposentado Agenor Machado, no balcão de um restaurante na área central de Capitólio no fim da tarde de ontem (11). "Isso não tem nada a ver, já faz tempo que está ali", retruca um homem que não quis se identificar e deixou o local chamando a teoria de "papo de doido".

Cenas espontâneas como essa se tornaram comuns na cidade desde o fim de semana. O debate sobre uma possível responsabilidade humana pelo acidente tem crescido na região, em especial após a circulação de um áudio em que um suposto engenheiro ambiental atribui a queda à construção do Parque Mirante dos Canyons, na área superior.

Inaugurado no ano passado, o parque tem uma estrutura de lazer, que inclui uma tirolesa, construída entre 2020 e "meados de 2021", segundo a administradora. A rocha que desmoronou fica cerca de 140 metros abaixo.

O parque foi interditado na tarde de sábado, logo após o acidente, a ainda não tem previsão de reabertura. O ponto foi vistoriado pela Polícia Civil, pelos bombeiros, pela Marinha do Brasil e pela Defesa Civil estadual.

Desde ontem, com o fim das buscas pelos bombeiros, só a Marinha se manteve no local, segundo funcionários que guardavam a entrada bloqueada.

O UOL não conseguiu averiguar a veracidade do áudio tampouco se o homem que fala é de fato um engenheiro ambiental, se é de Capitólio ou região, nem se um dia chegou a visitar o local. Mas o boato tem ganhado força e ganhou repercussão após uma entrevista de Jesus Santos, o Zuza, dono da embarcação atingida, à TV Globo.

Além de proprietário da lancha "Jesus", que levava seu nome, Zuza era também parente de grande parte das dez vítimas, que faziam um passeio privado no lago de Furnas. A reportagem do UOL tentou contatá-lo por telefone e pessoalmente, em São José da Barra, cidade vizinha onde fica sua empresa, mas não teve sucesso.

O aposentado Alberto Teófilo, 71, que nos períodos de alta temporada trabalha como ambulante no mirante da represa de Furnas, a cerca de 10 km do acidente, conta que o boato também se espalhou pela Barra, como é conhecida a cidade.

"Já falavam, tem tempo, que construir por cima dos cânions poderia dar problema. Mas todos diziam que tinham permissão. Eu não sei. A gente não tem como saber, né? Mas é uma coisa de uns anos para cá. Eu não duvidaria", conta Teófilo —que, com o tempo chuvoso, tem o dia movimentado por funcionários da represa à procura de picolé, não por turistas.

O empresário Renato Gavião, 59, dono de uma cervejaria no centro de Capitólio, chama a hipótese de "teoria da conspiração", mas confirma que o boato tem crescido.

"As pessoas falam porque gostam de falar. Ainda não tem prova de nada, é só ver na imprensa. Tem muito sensacionalismo, também. Já querem ter culpados, é natural, foi muito triste, mas é preciso ter uma investigação. A construção tem tempo e não é nada muito grande", afirma o empresário.

Fase inicial

Segundo a Polícia Civil de Passos (MG), responsável pela investigação, a averiguação está "em estágio inicial" e ainda é cedo para tirar qualquer conclusão. O delegado Marcos Pimenta diz estar à procura de um geólogo especialista neste tipo de rocha e contesta os boatos.

Somente um expert com 'know how' da ciência poderá ajudar. Estamos atrás de atores que dominam a ciência, e não de palpiteiros."
Marcos Pimenta, delegado responsável pela investigação em Passos

A perícia já começou um trabalho de filmagem por drone para estabelecer um "antes e depois". O delegado afirma estar em contato com a Ufop (Universidade Federal de Ouro Preto), a SBG (Sociedade Brasileira de Geologia) e outras instituições que possam fornecer um profissional da área.

Ele pede à população que tenha paciência, "pois não é uma investigação típica". "É [uma análise] complicada, carece de análise de ambiente, da pedra, do clima, da embarcação", justificou.

"Não é questão de buscar culpados, mas de averiguar. O que posso garantir é que vamos exaurir todas as possibilidades. Se houver fator humano, será indiciado", concluiu Pimenta.

'Construção está em outro bloco'

A administradora do Parque Mirante dos Canyons afirmou ao UOL que as construções estão a 140 metros do local do deslizamento e "localizadas em degrau superior ao nível do topo da rocha deslocada e em outro bloco rochoso".

"Tais instalações —finalizadas entre o ano de 2020 e meados de 2021— foram desenvolvidas e acompanhadas por empresas e profissionais especializados de grande reputação, seguindo rigorosamente métodos construtivos de baixo impacto", informou a empresa, por meio de nota.

"Frisa-se que não foram utilizadas técnicas invasivas, a exemplo de bate-estaca, muito menos explosivos", completa a administradora.

Ainda segundo o parque, as construções "foram realizadas em respeito ao relevo natural, preservando a sua drenagem original". "Não houve alterações no escoamento superficial de águas para os cânions."

O UOL tentou visitar o mirante na tarde última terça, mas teve a entrada negada. A reportagem procurou ainda a Marinha do Brasil, que permanece no local e faz uma investigação à parte, e a Prefeitura de Capitólio, mas não teve resposta até a publicação deste texto.

Cotidiano