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3 meses

Chuvas na Bahia: Cidades afetadas brigam por água e cascalho

Registro da tubulação usada para captar água do Rio Aliança foi fechado pela Prefeitura de Arataca - Orleans Mascarenhas/Prefeitura de Jussari
Registro da tubulação usada para captar água do Rio Aliança foi fechado pela Prefeitura de Arataca Imagem: Orleans Mascarenhas/Prefeitura de Jussari

Aurelio Nunes

Colaboração para o UOL, em Palmeiras (BA)

25/01/2022 15h45

A Prefeitura de Arataca, no sul da Bahia, interditou ontem a única fonte de abastecimento de água para a cidade de Jussari. A medida teria sido uma retaliação contra uma suposta proibição de extração de cascalho na única cascalheira da região, localizada no município vizinho.

O registro da tubulação usada para captar água na nascente do Rio Aliança foi fechado e um aviso com os dizeres "Interditado, não abra. Procure a Prefeitura de Arataca. Em caso de abertura sem autorização os canos serão removidos" foi colocado no local.

Ainda na noite de ontem, a Prefeitura de Arataca emitiu uma nota oficial sobre o assunto.

"O Município de Arataca vem informar à comunidade arataquense e regional, especialmente os Jussarienses, que sempre manteve bom relacionamento com os gestores de Jussari, os quais sempre forneceram cascalho, tendo em vista a ausência de tal material em nossa cidade. No entanto, recentemente, prepostos de Jussari impediram que fossem retirado material da cascalheira pelo município de Arataca. Tal proibição resultou em graves prejuízos, visto que a recuperação das estradas vicinais que beneficiam a população regional ficou sem manutenção. Desse modo, o município de Arataca está aberto a dialogar com os gestores de Jussari, objetivando encontrar uma saída consensual que não prejudique o município de Arataca e Jussari".

Na manhã de hoje, no entanto, o prefeito de Arataca desmentiu a nota divulgada por sua gestão. Segundo Fernando Mansur (PSD), houve "um esclarecimento mal dado, um erro de interpretação".

Ele afirma que o real motivo da interdição foi a preocupação da sua administração com a nascente do Rio Aliança.

"Ali foram instalados dois tubos de 200 mm usados pela prefeitura de Jussari para captar água sem nenhum tipo de controle. A água é um bem escasso, precisamos nos preocupar com o futuro", argumentou.

Depois da entrevista ao UOL, o gestor encaminhou uma segunda nota de esclarecimento, em que se refere exclusivamente à suspensão do abastecimento de água para Jussari e omite a questão do cascalho.

O novo documento diz que a decisão "se deu em virtude da ausência de convênio entre os municípios", que a captação por parte da SAAE de Jussari " se dá sem nenhum controle, em volumes que excedem a necessidade dos munícipes da cidade vizinha" e que o município "cobra pelo uso dos recursos hídricos aos seus munícipes, contudo não incentiva a racionalização do uso da água, bem como não aplica os valores arrecadados com a cobrança pelo uso da água na bacia hidrográfica em que foram gerados, em desacordo com a Lei 9.433/97."

Mansur alega que a suspensão foi temporária, que os registros já foram abertos e que a sua única motivação era pressionar a administração de Jussari a assinar um termo de cooperação pelo uso da água de Arataca.

O prefeito de Jussari, Antonio Carlos Bandeira Valete (PSD), desmente o colega. Disse que jamais foi chamado a conversar sobre o assunto para celebrar um acordo, e garantiu que mesmo depois do corte não tem a intenção de fazê-lo.

"Eu não reconheço a autoridade do prefeito de Arataca sobre o assunto, ele não é dono de água, nem ele, nem eu, a água é um bem da humanidade", alegou.

"Imagine só se o município onde fica a barragem de Pedra do Cavalo decidisse interditar a água que é usada para abastecer Salvador. Eu nunca imaginei que poderia acontecer uma coisa dessas, isso vai entrar por anedotário político da nossa região", ironizou.

Segundo Valete, o ponto de captação de água para Jussari foi instalado em 1979, cinco anos antes de Arataca e Jussari se emanciparem. Na época, ambas as localidades pertenciam ao município de Itabuna.

Valete nega ainda ter havido qualquer tipo de proibição de extração de cascalho em sua cidade.

"O que houve foi uma publicação que um vereador fez nas redes sociais mostrando as máquinas de Arataca trabalhando na cascalheira e reclamando que a gente tinha de cuidar de nossas estradas antes de fornecer material para os outros", disse.

Castigados pela chuva

Jussari e Arataca ficam na confluência de uma das áreas mais castigadas pelas chuvas de dezembro na Bahia.

Segundo levantamento divulgado em 16 de janeiro pela Defesa Civil estadual, foram 27 mortes, 965.643 pessoas atingidas pelas inundações, 523 feridos, 30.306 desabrigados e 62.156 desalojados.

Até o momento, os dois municípios alegam que a única ajuda que receberam foi um crédito de R$ 80 mil do governo do estado da Bahia para utilizar na compra de combustível para os veículos usados na recuperação da estrada.

As cidades integram ainda o Consórcio Intermunicipal da Mata Atlântica (Cima), que recebeu do governo estadual um trator, uma roçadeira hidráulica, uma motoniveladora, uma escavadeira hidráulica e uma retroescavadeira, que serão compartilhados com outros 10 municípios.

Segundo o secretário de administração de Arataca, Vitor Mansur, o município possui mais de mil quilômetros de estradas vicinais, que ficaram devastadas após as chuvas. E assim como Jussari depende da água de Arataca, Arataca depende do cascalho de Jussari.

A previsão é que o trabalho de recuperação dure pelo menos um ano.

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