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Suspeito de envolvimento em sumiço na Amazônia é preso

O indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, que desapareceram na Amazônia - Reprodução/TV Globo
O indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, que desapareceram na Amazônia Imagem: Reprodução/TV Globo

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

08/06/2022 13h06

A Polícia Militar do Amazonas prendeu ontem um homem suspeito de envolvimento no desaparecimento de Bruno Araújo Pereira, servidor licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio), e do jornalista Dom Phillips, correspondente do jornal britânico The Guardian, vistos pela última vez há três dias no Vale do Javari, no Amazonas.

Preso em flagrante por posse de drogas e munição de uso restrito, Amarildo da Costa de Oliveira, 41, conhecido como "Pelado", foi apontado por testemunhas como o dono de uma lancha verde com a logomarca da Nike. A embarcação foi vista por essas testemunhas navegando logo atrás do barco que transportava o indigenista e do jornalista, no trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte, segundo a polícia.

Após identificar o possível proprietário da lancha, a equipe de patrulhamento fluvial da Polícia Militar o localizou na comunidade de São Gabriel, no Rio Itacoaí.

Com ele, os agentes encontraram a lancha citada pelas testemunhas, uma porção de substância entorpecente semelhante à cocaína, um cartucho calibre 16 deflagrado e munição intacta calibre 762, de uso restrito das Forças Armadas. Em seguida, o suspeito foi conduzido à delegacia de Atalaia do Norte.

A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Oliveira.

'Quero ver se ele atira bem'

Segundo reportagem do jornal O Globo, ele seria o pescador que ironizou o fato de Bruno Pereira andar armado pelo Vale do Javari, onde prestava consultoria voluntária aos indígenas. "Quero ver se ele atira bem", teria dito.

Ainda de acordo com o Globo, esse relato teria sido feito aos policiais militares que vasculharam ontem a região, despertando suspeitas do possível envolvimento dele com o sumiço.

Alvo de ameaças de morte de garimpeiros, pescadores e madeireiros pelo seu trabalho de proteção às comunidades indígenas na Amazônia, Bruno Pereira tinha porte de arma.

'Os moradores falam que foi ele'

Em áudio enviado ao UOL, Paulo Barbosa da Silva, coordenador-geral da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), disse que ouviu testemunhas que relacionam Amarildo com o desaparecimento.

"Os próprios moradores estão falando para a gente que foi o Pelado [como Amarildo é conhecido na região]. Não foi só uma pessoa que organizou [a ação envolvendo o desaparecimento]. Estão envolvidas várias pessoas de várias comunidades".

O líder indígena vê ligação entre o desaparecimento e o assassinato de Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da Funai (Fundação Nacional do Índio) morto em 2019 em Tabatinga (AM), a apenas 32 km de Atalaia do Norte, local de destino do jornalista inglês e do indigenista antes do sumiço. O homicídio do colaborador da Funai nunca foi esclarecido.

"Não tenham dúvida: esses caras são os mesmos que assassinaram o Maxciel. Todo mundo sabe quem é o mandante. Todo mundo sabe quem manda fazer esse tipo de ato [na região]. A gente sabe quem são esses caras", acusou, sem revelar a identidade do mandante.

Repórter tirou foto de invasores armados ligados a suspeito preso, diz indígena

Segundo o coordenador-geral da Univaja, Dom Phillips fotografou invasores armados ligados a Amarildo na divisa de um território indígena dois dias antes do desaparecimento.

"O Bruno e o Dom Phillips foram visitar a equipe da Univaja quando um grupo de invasores esteve lá, no limite da terra indígena. Eles chegaram lá e ficaram mostrando arma de fogo, para ameaçar. O jornalista tirou a foto, e os invasores voltaram para a comunidade deles, que fica na área do Pelado, que é um dos suspeitos", relata Paulo Barbosa da Silva.

Onde o indigenista e o jornalista desapareceram - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

O que se sabe sobre as investigações e as buscas

Um suspeito e quatro testemunhas foram ouvidos, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas. O MPF (Ministério Público Federal), que abriu investigação do caso, acionou Polícia Federal, Polícia Civil, Força Nacional e Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari.

A equipe de busca e salvamento vasculha os rios Javari, Itaquaí e Ituí desde segunda-feira. Sete militares da Capitania Fluvial de Tabatinga (AM), duas lanchas, uma moto aquática e um helicóptero estão sendo usados nos trabalhos, segundo a Marinha.

Mergulhadores estão no local, mas não chegaram a atuar nos rios, porque não foram encontrados vestígios da embarcação ou sinais de conflitos. "Eles mergulham quando a gente identifica um local e suspeita que possa ter algo lá", disse o subcomandante da Polícia Militar do Amazonas, coronel Agenor Teixeira Filho.

Por onde eles passaram

Bruno e Dom foram vistos pela última vez por volta das 7h de domingo a bordo de um barco e sumiram no trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte (AM), onde eram aguardados por duas pessoas ligadas à Univaja.

Segundo a Univaja, a dupla foi visitar uma equipe de vigilância indígena perto do lago do Jaburu, nas imediações da base da Funai no rio Ituí, para que o jornalista pudesse conversar com indígenas que vivem no local.

As entrevistas foram feitas na última sexta-feira (3). Na volta, eles pararam em São Rafael, onde Bruno teria uma reunião com o líder comunitário "Churrasco", que não estava no local. Bruno, então, conversou com a esposa dele antes de deixar o local.

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