Topo

O que se sabe de Eva e qual o nome de Deus? 5 pontos revistos da Bíblia

Réplica de manuscrito de 2.000 anos contendo os "Dez Mandamentos" em exibição no Museu de Israel, em Jerusalém - Menahem Kahana/AFP
Réplica de manuscrito de 2.000 anos contendo os "Dez Mandamentos" em exibição no Museu de Israel, em Jerusalém Imagem: Menahem Kahana/AFP

Franceli Stefani

Colaboração para o UOL

17/06/2022 04h00

Escrita há cerca de 4.000 anos, a Bíblia continua sendo um livro que gera fascínio e debates independentemente do seu caráter religioso. Existem muitas interpretações para o texto, que foi elaborado ao longo de mil anos e reuniu diferentes obras. Calcula-se que o livro sagrado de muitos começou a ser escrito pelos hebreus entre os séculos 10 e 9 a.C., após o reinado de Davi.

Ao longo dos anos, pesquisadores e historiadores se debruçaram para entender os escritos e o que se percebe é que a interpretação pode mudar conforme a cultura, a crença ou a bagagem cultural de cada pessoa. Por isso, os especialistas costumam dizer que não há erros no livro original, apenas divergências na transmissão dos dados de um manuscrito para outro. Copistas e escribas podem não ter entendido o que estava detalhado ou, ainda, traduzindo o hebraico de forma equivocada.

Mas existem cinco pontos especialmente polêmicos. Confira:

Bíblia não fala sobre Deus

O escritor Mauro Biglino, que traduziu durante anos os escritos originais da Bíblia, diz que o livro não fala sobre Deus. Ele foi responsável pela versão em italiano feita pela Sociedade de São Paulo, congregação fundada em 1914 pelo beato Giacomo Alberione.

Trinta anos depois de ter começado o seu trabalho, ele publicou "A Bíblia não é um Livro Sagrado" (Livros Horizonte), no qual defende que a "Bíblia não é aquilo que habitualmente se diz. Conta uma outra história, não se ocupa de Deus". Segundo ele, a questão é apontada por outros profissionais, que não têm coragem para falar oficialmente sobre isso.

Ele foi desligado após a publicação, mas passou a divulgar traduções literais de vários textos bíblicos, que foram usados por historiadores para identificar imprecisões. Mas Biblino não nega a existência de Deus, só enfatiza que não há nada de concreto escrito no livro sagrado e critica a forma como a Bíblia foi traduzida oficialmente.

Tábua amaldiçoada

Tabuleta com antigo texto em hebraico que pode indicar o nome de Deus e a origem da Bíblia.  - Michael C. Luddeni/Associates for Biblical Research - Michael C. Luddeni/Associates for Biblical Research
Tabuleta com antigo texto em hebraico que pode indicar o nome de Deus e a origem da Bíblia.
Imagem: Michael C. Luddeni/Associates for Biblical Research

Uma tábua de chumbo foi encontrada por um grupo de arqueólogos em Monte Ebal, uma das duas montanhas do norte da Cisjordânia, próxima da cidade bíblica de Siquém, atualmente Nablus.

Ela está sendo chamada de "amaldiçoada" e pode dar pistas sobre o verdadeiro nome de Deus, quando a Bíblia foi escrita e quem foram os responsáveis pela criação do livro mais famoso do mundo.

O arqueólogo Scott Stripling anunciou em uma coletiva de imprensa, em março deste ano, que descobriu no interior da tábua um texto hebraico proto-alfabético, na forma de um quiástico (palavras ou frases organizados de forma cruzada) indicando o que acredita ser o nome de Deus (YHWH) e um aviso de que o leitor dos escritos morrerá devido a uma maldição.

Se a datação estiver correta, o objeto pode ser o primeiro registro do nome de Deus, assim como também pode indicar que os israelitas eram alfabetizados quando entraram na Terra Santa e foram capazes de documentar os eventos ocorridos nos tempos bíblicos, mas ainda é preciso avançar nessas investigações.

Para o arqueólogo, a descoberta pode dar um grande passo no limitado conhecimento que temos das histórias bíblicas e trazer diferentes pontos de vista sobre essas narrativas. Até agora, muitos estudiosos acreditavam que a Bíblia foi escrita centenas de anos após a datação estimada para o texto recém-descoberto.

A divisão do Mar Vermelho

Um trecho famoso da Bíblia é quando Moisés brada seu cajado e estende sua mão sobre o mar Vermelho, vendo seu povo hebreu sitiado pelo exército de Ramsés 2º. O vento oriental conduzido por Deus divide as águas e abre-se uma passagem em terra seca.

O milagre já foi contestado pelo professor Carl Drews, do Departamento de Ciência Atmosférica e Oceânica da Universidade do Colorado, no livro "Between Migdol and the Sea" (na tradução livre: Entre Migdol e o Mar: cruzando o mar Vermelho com fé e ciência) e na revista científica Plos One, em artigo de 2010, em parceria com Weiqing Han.

Segundo ele, o movimento descrito pela Bíblia não é um milagre, mas um efeito atmosférico. Ventos fortes vindos do leste, soprando durante toda a madrugada, teriam empurrado a água e feito surgir uma passagem, que permitiu que as pessoas atravessassem o local com segurança.

Ele trouxe uma série de evidências históricas e científicas sobre aquilo que está descrito no Êxodo.

Livros apócrifos questionam Eva

O estudo dos evangelhos apócrifos (que não se tornaram oficiais) é uma disciplina popular. O Novo Testamento já dizia que o Antigo Testamento não era um produto acabado na época do Segundo Templo (500 a.C. - 70 d.C.). Haveria outros livros, segundo a literatura apócrifa judaica.

O apóstolo Paulo cita duas vezes um livro conhecido como "A Vida de Adão e Eva" em sua segunda carta aos Coríntios, por exemplo, e o Evangelho de Mateus fala de uma profecia escrita, desconhecida até hoje, de que o messias seria chamado de Nazareno.

O livro do escritor mexicano Gustavo Vazquez-Lozano, intitulado "Os Apócrifos Da Bíblia", revela documentos que falam sobre a vida ou as declarações de Jesus que não se tornaram parte do livro sagrado.

Uma das histórias mais enigmáticas e populares derivadas dos apócrifos judaicos é que Eva não foi a primeira mulher criada por Deus. Seu nome é mencionado apenas uma vez no livro de Isaías, mas o profeta cobre a lenda com um véu de silêncio.

Mesmo hoje em dia, nem todos os ramos da igreja cristã concordam sobre quais escritos devem ser considerados "canônicos" e quais são "apócrifos'', embora alguns textos apócrifos frequentemente tenham vínculos notáveis com livros considerados "canônicos".

As contradições do "escrito à mão"

Não é de hoje que contradições são apontadas por estudiosos da Bíblia. Desde o Iluminismo, no século 17, há apontamentos de que o livro sagrado tenha equívocos doutrinários, desde discrepâncias com relação a nomes, até erros científicos — em grande parte decorrentes de textos copiados à mão.

Os manuscritos que falam, por exemplo, que Davi tomou 700 cavaleiros de Hadadeze, mas há versões que falam de um número significativamente maior, de 1.700 (2Sm 8:4) ou 7.000 (1Cr 18:3, 4).

O som entre esses dados, conforme especialistas, é muito semelhante em hebraico, o que pode ter auxiliado na confusão.

Enquanto um escriba ditava o texto para outro, o erro acontecia, sem haver checagem do que era repassado. São detalhes periféricos que dão margem para que outros surjam.