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Abrigo para Lula em greve e escolha de papa: quem foi dom Cláudio Hummes

Dom Cláudio Hummes morreu hoje, aos 87 anos - Lalo de Almeida/Folha Imagem
Dom Cláudio Hummes morreu hoje, aos 87 anos Imagem: Lalo de Almeida/Folha Imagem

Anna Satie

Do UOL, em São Paulo

04/07/2022 13h07Atualizada em 04/07/2022 18h06

Morreu hoje dom Cláudio Hummes, aos 87 anos, vítima de um câncer de pulmão.

Arcebispo emérito de São Paulo e de Fortaleza, o religioso abriu as portas da igreja para os metalúrgicos grevistas na década de 1970, liderados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e inspirou o nome do papa Francisco. Ele também trabalhou no Vaticano, ao lado do papa Bento 16, e era ligado a causas ambientais.

Atuação política

Gaúcho de nascença, Hummes foi nomeado bispo em 1975 e assumiu a diocese de Santo André, na região metropolitana de São Paulo. Foi nessa época que aconteceu a greve geral dos metalúrgicos do ABC, que, em busca de melhores condições de trabalho, desafiou a ditadura militar que vigorava no país.

Lula era o presidente o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo durante o movimento, que durou 41 dias e mobilizou mais de 200 mil trabalhadores, segundo estimativas.

Dom Cláudio Hummes, o então bispo da diocese de Santo André (1975-96), discursa ao lado de Lula   durante reunião da greve dos metalúrgicos em São Bernardo dos Campos (SP) - Claudomiro Teodoro/Folhapress - Claudomiro Teodoro/Folhapress
Mar.1979 - Dom Cláudio Hummes, o então bispo da diocese de Santo André (1975-96), discursa ao lado de Lula durante reunião da greve dos metalúrgicos em São Bernardo dos Campos (SP)
Imagem: Claudomiro Teodoro/Folhapress

Dom Cláudio se posicionou contra a demissão dos grevistas e ofereceu a igreja para abrigar as reuniões deles depois da intervenção federal sobre os sindicatos.

Oferecia-se num primeiro momento as dependências das paróquias, exceto templos. Só quando essas dependências não serviam, como último recurso ofereciam-se também os templos. Esse último recurso foi usado sobretudo em São Bernardo do Campo, onde também por sua vez os trabalhadores respeitaram com muita dignidade o interior do templo, sem qualquer abuso. Quem não respeitou foi a repressão, que invadiu a nave da igreja e acabou prendendo um sindicalista dentro da sacristia dom Cláudio Hummes em "Relatório aos bispos - Presença da Igreja na greve dos metalúrgicos do ABC em 1980", publicado no livro "Catolicismo e sociedade contemporânea" (2013)

Dom Cláudio afirmou à época que a igreja não incitava a greve, e que sua presença nas assembleias era parte de sua obrigação religiosa. "Estava ali como pastor, pois o pastor deve estar presente onde está seu povo, sobretudo nos momentos de conflitos e tensões", parafraseou o professor da PUC-SP Ney de Souza, em artigo publicado sobre a atuação de dom Cláudio na greve.

Amizade com o papa Francisco

Em 2013, o papa Francisco afirmou a jornalistas que escolheu o nome de São Francisco de Assis após ser lembrado por Dom Cláudio, que estava a seu lado no momento da eleição, de que era preciso se lembrar dos pobres.

"Tinha ao meu lado o Cardeal Cláudio Hummes, o arcebispo emérito de São Paulo e também prefeito emérito da Congregação para o Clero: um grande amigo, um grande amigo! Quando o caso começava a tornar-se um pouco 'perigoso', ele animava-me", disse Francisco.

Quando os votos atingiram dois terços, surgiu o habitual aplauso, porque foi eleito o Papa. Ele [dom Cláudio] abraçou-me, beijou-me e disse-me: 'Não te esqueças dos pobres!' E aquela palavra se gravou em minha cabeça: os pobres, os pobres. Logo depois, associando com os pobres, pensei em Francisco de Assis papa Francisco, em 2013

São Francisco de Assis (1182-1226) é o padroeiro dos humildes e um dos santos mais populares da Igreja Católica.

Em junho do ano passado, depois que dom Cláudio recebeu um doutorado honoris causa da Universidade de Rosário, na Argentina, o papa Francisco escreveu a ele. O pontífice agradeceu pelo "exemplo que me deu durante a sua vida", e descreveu o amigo como um dos "líderes que têm a coragem de abrir trilhas, caminhos e de provocar sonhos; a coragem de continuar sempre olhando o horizonte sobre os problemas e dificuldades do caminho".

Luta pelo meio ambiente e causas indígenas

Dom Cláudio também foi presidente de entidades da igreja pela defesa do meio ambiente, tema ao qual era muito afeito.

Em participação na COP21 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), em 2015, ele defendeu os povos indígenas do Brasil. "É preciso defendê-los, defender seus direitos, dar-lhes de novo a possibilidade de serem os protagonistas de sua história, os sujeitos de sua história. Deles foi tirado tudo: a identidade, a terra, as línguas, sua cultura, sua história, tudo", afirmou.

Em 2019, durante o Sínodo da Amazônia, encontro de bispos no Vaticano para discutir a floresta, dom Cláudio defendeu a demarcação de terras indígenas. "Nós sabemos que, para os indígenas, isso é fundamental. Também as reservas geograficamente delimitadas são importantíssimas para a preservação da Amazônia", disse ele em entrevista coletiva.

Ele também presidiu a Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a Conferência Eclesial da Amazônia. Ele renunciou a essa última em março deste ano, diante do agravamento do câncer no pulmão.

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