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PM parou jovem negro mais de 10 vezes na mesma via em SP: 'Coração gela'

Jovem de 16 anos relata ter sido abordado pela polícia mais de 10 vezes em avenida da zona oeste de SP - Arquivo pessoal
Jovem de 16 anos relata ter sido abordado pela polícia mais de 10 vezes em avenida da zona oeste de SP Imagem: Arquivo pessoal

Do UOL, em São Paulo

22/03/2023 04h00

Heitor (nome fictício), um jovem negro de 16 anos, foi parado pela décima vez em quatro anos pela Polícia Militar na mesma via, a avenida Escola Politécnica, na comunidade Ponta da Praia, no Butantã (zona oeste de São Paulo).

Por que isso importa

  • O STF (Supremo Tribunal Federal) julga se provas obtidas em ações deste tipo serão proibidas em processos criminais.
  • A análise está suspensa desde 8 de março e ainda sem data para ser retomada.
  • Oito em cada 10 pessoas negras já foram abordadas pela polícia, segundo o relatório "Por que eu?" do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa) em São Paulo e no Rio em 2022.
  • Entre brancos, somente dois em cada 10 tomaram geral.
  • Casos como o de Heitor são citados em discussões sobre abordagens racistas feitas pela polícia.
  • A PM nunca encontrou provas que incriminassem Heitor.

Eu estava trabalhando, não estou fazendo nada de errado"
Heitor, que voltava da borracharia onde trabalha com o tio no Butantã, aos policiais

Não tô te perguntando nada, seu maloqueiro. A gente sabe que você tá fazendo desmanche de moto"
Resposta que teria ouvido dos policiais, segundo Heitor

A mãe do rapaz se preocupa com a rotina do filho. "Ele vê um carro de polícia e fica receoso. Ele diz: 'mãe, quando vejo uma viatura meu coração gela'."

As paradas ocorrem desde 2019 e sempre na mesma região. Mas, desde novembro, a mãe de Heitor diz que passou a acompanhá-lo no trajeto para evitar ver o filho voltar machucado para casa.

Os policiais viam ele com a roupa suja de graxa e achavam que ele fazia desmanche de moto. Ele voltava do trabalho às 18h, mas um dia demorou, e eu fiquei preocupada. Quando chegou, estava com a bicicleta quebrada, entrou em casa mancando e com manchas roxas pelo corpo."
Mãe do jovem abordado pela polícia em São Paulo

Plenário do STF discute possibilidade de fixar tese contra perfilamento racial - Nelson Jr./SCO/STF - Nelson Jr./SCO/STF
Plenário do STF discute possibilidade de fixar tese contra o "perfilamento racial"
Imagem: Nelson Jr./SCO/STF

Das dez vezes em que foi abordado, em ao menos cinco Heitor chegou em casa com hematomas na cabeça, nas costas e nos órgãos genitais. "É racismo pela cor da pele e pelo lugar em que moramos. Me conscientizei com o tempo", diz a mãe do adolescente.

Ele é sempre parado pela polícia, enquanto meus outros dois filhos mais velhos, com a pele mais clara, nunca foram parados."

Policial pisa em pescoço de mulher durante abordagem em Parelheiros, zona sul de São Paulo - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Policial pisa em pescoço de mulher durante abordagem em Parelheiros, zona sul de São Paulo
Imagem: Reprodução/TV Globo

O que dizem a SSP e a PM

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que a Corregedoria da PM "está à disposição da população para receber as denúncias e apurar as condutas dos agentes".

A PM disse que casos denunciados serão investigados e respeita a legislação.

Segundo a SSP-SP, "os protocolos operacionais da Polícia Militar não levam em consideração estereótipos raciais, de gênero, classe social, idade ou religião".

Errata: este conteúdo foi atualizado
Diferentemente do informado, STF é a sigla para Supremo Tribunal Federal, e não Superior Tribunal Federal. O texto foi corrigido.