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Lesbianismo, RPG e horóscopo: afinal, o que as igrejas consideram pecado?

A lista de pecados foi até para nos trending topics do Twitter - Reprodução/Redes Sociais
A lista de pecados foi até para nos trending topics do Twitter Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Ranieri Costa e Thiago Varella

Colaboração com o UOL

11/05/2023 04h00Atualizada em 11/05/2023 16h11

Uma lista de pecados entregue a jovens que participaram de um retiro de uma igreja evangélica de Brasília viralizou nas redes sociais recentemente. Com 108 itens, a checklist incluía pecados como aborto, ciúme doentio, vício em cigarro, homossexualismo, lesbianismo, racionalismo, primeira comunhão, crisma, entre outros.

Depois da repercussão da lista, a jovem que fez a publicação nas redes sociais apagou o post que já havia alcançado 11 milhões de visualizações. A relação de pecados foi para nos trending topics do Twitter. Mas, será que é mesmo possível fazer uma listagem de todos os pecados, como a tal igreja de Brasília tentou fazer?

Até é possível fazer, já que listas de pecados fazem parte da tradição cristã. A Bíblia mesmo traz uma lista assim, nos Dez Mandamentos.

O conceito cristão de pecado começa a ser desenvolvido a partir do não cumprimento dos mandamentos. A noção objetiva de pecado que a igreja cristã desenvolveu está baseada nos princípios da moral natural que estão colocados ali, a partir dos Dez Mandamentos", explicou o teólogo Felipe Zangari, mestre em Ciências da Religião.

Segundo ele, o desenvolvimento do cristianismo e da moral cristã foi trabalhando ao longo dos séculos a questão do pecado de diversas formas. A partir da Idade Média surgiram livros que listavam o que era pecado ou não, e ofereciam ao sacerdote a penitência correspondente a cada tipo de pecado.

Igrejas Evangélicas

Mas, se historicamente é possível listar pecados, na prática, o número de listas pode ser imenso e variando o que é pecado ou não conforme a igreja cristã. Vale lembrar que não existe uma única "igreja evangélica", mas incontáveis denominações diferentes. Para o teólogo Milton Paulo, pastor da Igreja Vineyard, em Mogi das Cruzes (SP), como a Bíblia é o que guia a fé e a prática religiosa dentro das igrejas evangélicas, a interpretação literal do livro sagrado dos cristãos pode levar a incontáveis listas de "pode ou não pode".

"Essas listas são tão infinitas quanto o número de pessoas que se propõem a tal tarefa, porque cada um fará sua lista de acordo com sua interpretação do texto bíblico", afirmou.

Segundo Milton Paulo, a lista de pecados apresentará diferenças dependendo da linha da igreja, como, por exemplo, se ela for mais fundamentalista ou mais progressista. Isso significa que não existe uma uniformidade no cenário evangélico, nem quando o assunto é o pecado.

É importante ressaltar que tais listas são formadas a partir da interpretação de cada grupo. Não se trata pura e simplesmente do texto, mas da interpretação do texto", Milton Paulo, pastor da Igreja Vineyard.

Para Helen Teixeira, mestra em Ciências da Religião pela PUC-Campinas, o movimento evangélico brasileiro tem suas raízes teológicas e ideológicas vindas dos EUA.

"Essas ideias teológicas caminham em paralelo com uma ideologia do chamado 'American Way of Life' - modo de vida americano, em tradução livre - marcado pelo individualismo e pela meritocracia. E isso consiste em um controle rigoroso do comportamento individual como sinal da salvação e da espiritualidade", explicou.

Segundo Teixeira, a ideia de uma lista de pecados é relacionada com uma leitura mais literal da Bíblia, como se o livro fosse um manual de prática, com regras e lições de moral que devem ser aplicadas na vida dos fiéis em qualquer época.

Além disso, Teixeira ressalta que a identidade evangélica sempre esteve associada a um determinado conjunto de práticas, vestimentas e abstenções, algo que seria uma resposta contra a cultura.

Em relação à lista que viralizou na internet, a pesquisadora aponta que há um grande aspecto anticatólico, com a menção à primeira comunhão e ao crisma como pecados.

O anticatolicismo é uma característica presente desde o início do protestantismo do Brasil, que vê os católicos como pagãos que precisam ser convertidos ao verdadeiro cristianismo, que, na visão desses cristãos, seria o de vertente evangélica", Helen Teixeira, mestra em Ciências da Religião pela PUC-Campinas.

Igreja Católica

Já a Igreja Católica conseguiu, de certo modo, listar o que é ou não pecado. O catecismo da Igreja Católica, que está em vigor desde a reforma promulgada na década de 1980, apresenta pecados objetivos, que são aqueles contra a própria consciência, contra a pessoa de Deus e contra o próximo. Segundo o teólogo Felipe Zangari, esses são os três eixos fundamentais que a teologia moral aborda para analisar situações de pecado.

"Agora, a análise é fria porque estamos falando de gente. E, tanto no catecismo da Igreja Católica quanto no direito canônico estão previstos as agravantes e as atenuantes de cada situação objetiva que enseja ali uma ideia preliminar de pecado. Em suma, a depender das condições contextuais, psicossociais e afetivas que cada pessoa enfrenta, uma situação pode ser pecado leve para uma pessoa e gravíssimo para outra", explicou.

Essa análise pode ser feita no momento da confissão do fiel com o padre católico.

A confissão auricular cumpre o preceito deixado por Jesus de dar aos apóstolos o poder de perdoar os pecados. O foco da confissão está no reconhecimento das faltas, no arrependimento sincero do coração, no desejo de mudança de atitude e, sobretudo, na confiança de que Deus sempre acolhe e sempre perdoa um coração arrependido, chamado de sacramento da reconciliação. Mais importante do que o grau do pecado, é o desejo de mudar de vida e a confiança na Divina Misericórdia", Felipe Zangari.

Na Bíblia, consta que o apóstolo Paulo, em sua carta à Igreja de Roma, simplificou toda essa história, e isso há quase dois mil anos, ao afirmar que "todos pecaram", conforme está no livro de Romanos.

Para Milton Paulo, talvez a intenção do apóstolo tenha sido também a de evitar o constrangimento e o sentimento de vergonha alheia ao ver uma lista como a apresentada pela igreja de Brasília.

"Como Igreja, em algum momento do caminho pegamos uma rota diferente da proposta oferecida por Jesus nos Evangelhos. Por isso, não consigo ver nada de útil ou saudável em uma lista assim. A sensação de que a medida que a obediência à lista for 'furando', o sentimento de débito com o Divino vai aumentando não é nada boa", concluiu.