Guia de cemitério histórico de SP prepara filho como sucessor após 21 anos

O Cemitério da Consolação, no centro de São Paulo, é uma grande galeria de arte a céu aberto. Em meio às sepulturas, repousam centenas de esculturas, que revelam um pouco da história da cidade e de seus moradores.

Francivaldo Almeida Gomes, o Popó, de 56 anos, conhece o espaço de cabeça.

Das personalidades sepultadas ali, como Monteiro Lobato e Tarsila do Amaral, Popó sabe contar a história de cada um. Afinal, é o responsável pelas visitas guiadas à necrópole há duas décadas —um ofício que deseja transmitir ao filho, Patrick Gomes, de 28 anos, agora que sua aposentadoria está próxima.

O jovem cresceu assistindo aos tours do pai pelos 8.500 túmulos e 300 obras de arte do cemitério construído no século 19.

Quando você faz com amor, se dedica, as coisas acontecem. Tenho certo conhecimento e facilidade, e estou passando isso para meu filho.
Popó, guia do Cemitério da Consolação

'Ele me ensinou como amar São Paulo'

Popó não nasceu em São Paulo. Cearense de Crateús, ele só chegou à capital paulista em 1986. De cara, foi trabalhar na construção civil e depois foi porteiro. Em 1989, prestou um concurso da prefeitura para ser sepultador no Cemitério da Consolação, uma das principais referências de arte tumular do Brasil.

"Aqui tive a oportunidade de conhecer meu chefe, Délio Freire dos Santos, que era administrador do cemitério há mais de 30 anos, além de escritor e historiador. Ele me passou uma forma bem agradável de amar a cidade de São Paulo."

Délio foi o primeiro guia do Cemitério da Consolação, responsável por conduzir grandes grupos de visitantes que queriam saber mais sobre os túmulos e as obras de arte espalhadas pela necrópole. Enquanto trabalhava como sepultador, Popó apenas observava.

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De longe, captava o que ele falava e fazia anotações no verso das mãos para, quando tivesse oportunidade, chegar nele e perguntar do que ele tanto falava para os alunos.
Popó, guia do Cemitério da Consolação

Convite inesperado

Popó guardava as informações como podia e, depois do expediente, ia para a biblioteca Mário de Andrade, no centro, pesquisar. Foi assim que ele aprendeu mais sobre a família Alcantara Machado, por exemplo, e o escultor italiano Luigi Brizzolara.

"Isso foi criando em mim entusiasmo e amor pela arte e pela história."

Popó explicando sobre a sua escultura favorita da necrópole
Popó explicando sobre a sua escultura favorita da necrópole Imagem: Camila Corsini/UOL

Durante os anos 1990, nem passava pela cabeça de Popó que ele pudesse ser o sucessor de Délio. Mas, no início de 2002, quando o professor adoeceu, ele foi convidado a ser o novo condutor dos tours.

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"Eu, um simples sepultador, conduzir a visita guiada de um cara que tem formação acadêmica, é historiador. Eu abracei [a oportunidade] até porque eu sabia que ali eu iria representar meu professor e a cidade de São Paulo", diz Popó.

Hoje, as visitas guiadas ocorrem uma vez por semana e são gratuitas. Muita gente vem até de longe para ouvir as explicações e conhecer a arte tumular. O limite de público é de 65 pessoas por visita.

Do medo ao ofício

Foi também em São Paulo que Popó construiu família —ele é pai de três filhos. Seu sucessor será o caçula, Patrick, que cresceu entre as alamedas da necrópole.

No começo, o pequeno tinha medo. O pai, então, falava das pessoas famosas que estavam enterradas ali. "Era 'filho, lembra do Sítio do Picapau Amarelo? Aqui é o túmulo do Monteiro Lobato'. Isso foi criando um baú de histórias na cabeça dele", conta Popó.

Patrick, que volta e meia acompanhava as visitas, via o pai como uma celebridade.

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Não entendia por que estava todo mundo escutando. Pensava: 'o que o meu pai está falando que é tão interessante e tem um monte de gente ouvindo?'. Era como se eu chegasse e meu pai estivesse dando autógrafo.
Patrick, filho de Popó

Patrick trabalhava em um estacionamento antes de ser contratado pela Consolare, a empresa responsável pela gestão do cemitério da Consolação desde março. E, agora, ele busca encontrar seu próprio jeito de dar continuidade ao trabalho do pai.

"Quando estou dando uma volta no cemitério e encontro alguém perdido, exerço meu conhecimento. Acabo falando e sai automaticamente. Daqui a pouco, estarei fazendo uma visita com o pessoal. Hoje, me sinto um pouquinho mais seguro."

Meu pai tem uma característica muito boa. Quando ele sabe, ele sabe. Quando não sabe, vai atrás. Não tem o não saber para ele. Isso é confiança.
Patrick, filho de Popó

Por enquanto, ele acompanha os tours conduzidos pelo pai e estuda muito, com a ajuda da internet ou com livros herdados de Délio Freire dos Santos. No futuro, quer expandir as visitas para além do português, já que o cemitério recebe gente de todos os lugares do mundo.

Meu pai me dá dicas boas, a gente sempre dá uma volta, em tempos livres eu sempre estou dando uma olhadinha em alguma coisa. Mas a melhor forma de aprender é mesmo com ele. Eu estou com o melhor professor, né?
Patrick Gomes, filho de Popó

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Imagem favorita

Em meio às esculturas da necrópole, pai e filho também têm uma mesma obra favorita: "Vencedores", de Luigi Brizzolara, que fica no túmulo da família Alcantara Machado, no corredor central, passando a capela.

A escultura representa um homem, já desfalecendo, passando uma tocha a outro rapaz, com mais energia. "Tem tudo a ver comigo, resumo minha história naquela figura. Uma pessoa de mais idade 'passando o bastão' para um atleta mais jovem", explica Popó.

Para o guia, a imagem representa o que ele viveu com Délio no passado e vive com Patrick no presente. "Representa muito a nossa relação, o nosso pacto. É a história se repetindo", diz o filho.

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