Análise: Com novas sanções, Obama dá sinais de que tratará o Irã com desconfiança

Christopher Condon e Angela Greiling Keane

Da Bloomberg

  • Saul Loeb/AFP

Ao impor novas sanções ao Irã um dia depois de cancelar as anteriores, e ao fazer um grande esforço para acabar com qualquer comparação com a restauração dos laços com Cuba, o governo de Obama está tentando mostrar que vai tratar seu antigo inimigo do Oriente Médio com uma dose certa de desconfiança.

Menos de 24 horas após a implementação de um acordo histórico para restringir o programa de armas nucleares do Irã, o presidente Barack Obama disse no domingo que cinco americanos detidos pelo Irã foram libertados em uma troca de prisioneiros. O Departamento do Estado, por sua vez, anunciou um acordo para liberar dinheiro iraniano que esteve congelado durante mais de 35 anos.

No entanto, enquanto a Casa Branca alardeava os benefícios da diplomacia, o Departamento do Tesouro impôs novas sanções a 11 pessoas jurídicas e físicas por conspiração para adquirir materiais para o programa de mísseis balísticos do Irã.

"Vamos continuar sendo cautelosos", disse Obama em um discurso no gabinete presidencial da Casa Branca. "Não vamos vacilar na defesa de nossa segurança nem da segurança de nossos aliados e parceiros".

Essas contracorrentes na política ilustram como é tênue a linha que Obama está demarcando a fim de melhorar as relações com o Irã sem parecer brando demais. Os EUA cortaram os vínculos oficiais com o Irã em 1980, em um momento em que a República Islâmica mantinha dezenas de diplomatas e civis americanos como reféns na Embaixada dos EUA em Teerã. O drama dos reféns terminou em janeiro de 1981, mas as relações não foram totalmente reestabelecidas.

'Excepcionalmente complicado'

"O relacionamento dos EUA com o Irã continuará excepcionalmente complicado", disse Brett Bruen, ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional de Obama e atual presidente da empresa de consultoria Global Situation Room, com sede em Alexandria, Virgínia, nos EUA. "Radicais de ambos os lados vão continuar tentando desviar o rumo desse barco".

Representantes do governo disseram que a troca de prisioneiros não estava diretamente ligada às negociações nucleares, mas foi possibilitada por elas. O ritmo das negociações se intensificou depois que os EUA e outros cinco países fecharam o acordo nuclear com o Irã em julho. Do mesmo modo, o abrandamento diplomático também possibilitou que um conflito potencial fosse resolvido rapidamente na semana passada, quando o Irã reteve marinheiros da Marinha dos EUA em dois navios-patrulha que entraram em águas territoriais iranianas. Os marinheiros foram libertados 24 horas depois.

Descongelamento de bilhões

Conforme as condições do acordo ratificado no sábado, o Irã reduzirá suas instalações nucleares e exportará quase a totalidade de seu urânio pouco enriquecido em troca da suspensão das sanções econômicas e financeiras. O Irã obterá acesso imediato a cerca de US$ 50 bilhões em contas congeladas no exterior, fundos que, segundo o governo, serão usados para reerguer indústrias e infraestrutura. A medida também abre as portas para investidores estrangeiros que desejam entrar em um mercado relativamente inexplorado de 77 milhões de pessoas.

Obama disse que os EUA e seus parceiros internacionais se manterão "firmes" ao confrontar o Irã por ações que visem a desestabilizar a região, assim como por ameaças a Israel, que se opôs abertamente ao acordo nuclear.

A tendência ao abrandamento de modo geral, e especificamente o acordo para suspender as sanções em troca do recuo do Irã no programa nuclear, foi motivo de duras críticas dos republicanos no Congresso, e mais críticas foram disparadas no domingo.

Fragilidade dos esforços

Uma alta autoridade do governo, durante uma teleconferência com repórteres, disse que as negociações com as potências estrangeiras para libertar os americanos retidos no exterior não foi uma estratégia nova do governo de Obama. Se os detratores quiserem dizer que estavam a favor de deixar os americanos na prisão, eles deveriam dizer isso, disse o representante.

Embora os representantes do governo tenham salientado os benefícios de melhorar as relações com o Irã, eles também reconheceram que os esforços de Obama poderiam ser facilmente revertidos depois que ele sair do cargo - algo que diversos republicanos candidatos à Casa Branca insinuaram que iriam fazer.

 

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