Sem Gaddafi há 4,5 anos, Líbia sucumbe a disputa de rivais no poder

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

  • Abdullah Doma/AFP

    Membro de força pró-governo líbio descansa em zona rural perto de Benghazi, na Líbia

    Membro de força pró-governo líbio descansa em zona rural perto de Benghazi, na Líbia

Um homem ensanguentado, com o olhar perdido, aparecia ainda vivo naquelas imagens tão fortes que rodaram o mundo. Era outubro de 2011, e o ditador líbio Muammar Gaddafi acabara de ser capturado por rebeldes em Sirte, sua cidade natal.

O general que passou mais de 40 anos no poder teve seus últimos momentos de vida ao lado de seus algozes. Estes, de armas em punho, festejavam seu maior feito, tudo registrado em vídeo pelas câmeras de seus celulares.

O que a Líbia poderia querer e esperar do futuro depois dos meses de intensa guerra que levaram àquele momento?

Quase cinco anos se passaram, foi possível eleger um novo governo, mas a população de 6,5 milhões continua vítima da instabilidade social e da violência.

A guerra civil até a queda de Gaddafi e também após sua morte provocou milhares de mortos, pôs em desequilíbrio a segurança e a confiança da sociedade, e se hoje os conflitos armados entre grupos rivais ocorrem com menor impacto, menos generalizados e mais concentrados em algumas cidades, a disputa política pelo comando do país riquíssimo em petróleo não dá sinais de que vai se estancar.

Situada no norte da África, na região do Magrebe, a Líbia foi declarada independente pela ONU (Organização das Nações Unidas) nos anos 1950. Já teve uma monarquia, uma república socialista e um ditador excêntrico; é hoje uma república parlamentarista.

Nesses anos todos, comprou briga com Israel e os Estados Unidos, foi próxima da União Soviética, apoiou os palestinos e depois brigou também com eles e foi acusada até de terrorismo. Agora, são as rixas entre milícias fortalecidas com a queda de Gaddafi --algumas combatentes dos jihadistas do Estado Islâmico-- e o governo oficial que impedem a volta aos trilhos.

Abdullah Doma/AFP
Forças pró-governo comemoram retomada de Benghazi de grupo armado

"O país não está em meio a um banho de sangue. O conflito político é que é muito difícil. São dois governos em disputa: um em Tobruk, no leste, e outro em Trípoli, no oeste, e a ONU acaba de estabelecer um terceiro, que não tem poder sobre os outros dois", diz o médico Mego Terzian, que esteve recentemente na Líbia e faz parte da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que realiza ações assistenciais no país.

Em 2011, a comunidade internacional reconheceu os esforços dos opositores de Muammar Gaddafi e o conselho criado por eles para conduzir um processo de transição, que resultou na entrega do controle do país ao Congresso Geral Nacional, sediado no leste. O mandato deste congresso interino teve seu fim oficial em dezembro de 2014, mas seus integrantes continuaram insistindo em sua legitimidade.

Apenas em março de 2015 foi possível eleger um Parlamento, a Câmara dos Representantes, que substituiu o Congresso Geral Nacional.

Após uma série de negociações, em dezembro de 2015 foi assinado o Acordo Político Líbio, apoiado pela ONU, que elegeu um 'governo de unidade'. Fayez Sarraj foi designado o primeiro-ministro do país. O trato teve a participação de lados rivais representando Trípoli (a capital), Tobruk e algumas outras cidades, mas enfrenta resistência do general Khalifa Haftar.

Haftar, um dos homens fortes à frente das forças rebeldes no leste quando foi iniciada a revolução que derrubou Gaddafi, foi nomeado, em 2015, comandante do Exército Nacional da Líbia pela Câmara dos Representantes.

Não se sabe exatamente qual será a reação dos milicianos que comandam a região onde instalou-se o novo governo, há poucas semanas, mas espera-se que ela não seja das mais pacíficas. Assim como há dúvidas sobre o tipo de colaboração que Haftar irá topar oferecer. 

AFP
Khalifa Haftar, comandante do Exército Nacional da Líbia

Saúde em frangalhos

A MSF tem equipes em ação, desde 2011, em algumas das cidades mais atingidas pelos conflitos. Sua estimativa é que cerca de 100 mil pessoas estejam atualmente deslocadas de seus lares em Benghazi (no leste), onde um exército leal ao comando de Tobruk tem combatido grupos jihadistas.

A organização distribui alimentos para 2.000 famílias, fornece medicamentos a três hospitais e, em parceria com uma entidade local, faz atendimentos pediátricos e ginecológicos em uma clínica aberta em fevereiro.

Nesses últimos anos, profissionais da área de saúde abandonaram seus postos de trabalho, especialmente os estrangeiros, e muitos hospitais e unidades de atendimento foram fechados ou funcionam de maneira reduzida por falta de condições de manter-se em operação.

"O país inteiro encara uma crise de liquidez, e o sistema bancário está falindo. É um desafio hoje convencer médicos e enfermeiros a trabalhar ou retornar ao trabalho na Líbia", diz o médico Terzian.

Ele afirma que, segundo autoridades líbias de saúde, todos os hospitais no leste estão severamente afetados pela falta de fundos para comprar remédios e suprimentos, e ainda pela ausência de funcionários. No oeste do país, os problemas são os mesmos.

Na avaliação de Terzian, "a coexistência de três governos complica a entrega de remédios e suprimentos médicos e o envio de equipes a campo".

Imigrantes africanos são novo grupo vulnerável

Algumas das mais importantes cidades na Líbia estão localizadas à beira do Mar Mediterrâneo, como é o caso de Trípoli (a capital), Misrata, Sirte e Benghazi. O país faz fronteira com outros seis: Egito, Sudão, Chade, Níger, Argélia e Tunísia, e se tornou rota para cidadãos africanos que tentam chegar à Europa de forma clandestina.

A cidade de Zuwara tem hospedado aqueles que não conseguem ou desistem da travessia pelo mar.

"Eles oferecem uma mão de obra muito necessária. Desde o começo do ano, nenhuma embarcação partiu de Zuwara para atravessar o Mediterrâneo", de acordo com o médico Terzian.

"De forma geral, é difícil ter acesso aos imigrantes africanos. Eles são muito discretos assim que chegam à Líbia porque se arriscam a serem presos. Nossas equipes estão tentando ganhar acesso a eles para poder fornecer assistência, mas ainda não conseguiram."

(com informações de agências internacionais, NYT, Le Monde e BBC)

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