Campanha leva refugiados para passar Natal com famílias brasileiras em SP e RJ

Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

  • Migraflix/NBS

    Muna Darweesh, refugiada síria que vive em São Paulo, levará o marido e os quatro filhos para passar a ceia com uma família brasileira

    Muna Darweesh, refugiada síria que vive em São Paulo, levará o marido e os quatro filhos para passar a ceia com uma família brasileira

Pelo menos uma família de São Paulo terá pratos diferentes em sua ceia de Natal, como babaganoush e homus, preparados por uma especialista em culinária árabe. O privilégio será daqueles que receberem Muna Darweesh, 36, refugiada da Síria que participará da ação "Meu Amigo Refugiado", da ONG Migraflix, dedicada à integração entre brasileiros e imigrantes.

O projeto levará um refugiado e seus familiares para passar a ceia de Natal com uma família brasileira, encontros que, segundo o planejamento da ONG, se tornarão mensais no próximo ano, efetuando um rodízio entre as famílias e os refugiados.

Dezesseis imigrantes --13 moradores de São Paulo e três do Rio de Janeiro-- se inscreveram para participar do projeto, que foi anunciado há pouco mais de uma semana. Segundo o Migraflix, mais de 500 famílias, do Brasil inteiro, se cadastraram com o intuito de recebê-los. O custo será das famílias, e os imigrantes levarão um prato típico de seu país.

"A campanha começou a bombar e tivemos de convidar mais refugiados", conta o argentino Jonathan Berezovsky, diretor do Migraflix, que trabalha desde o ano passado com ações que visem a integração e o empoderamento econômico dos imigrantes --como, por exemplo, a realização de workshops onde os refugiados são pagos para dar palestras e ensinar técnicas de seus ofícios aos brasileiros.

Veja o vídeo da campanha "Meu Amigo Refugiado"

Os 16 imigrantes que estarão na ação são oriundos de 11 países que tiveram diferentes problemas econômicos e sociais: Síria, Colômbia, Gâmbia, Costa do Marfim, Cuba, Marrocos, Nigéria, República Democrática do Congo, Venezuela, Angola e Palestina.

A síria Muna, que se especializou em cozinha árabe desde que chegou ao Brasil para escapar da guerra, em 2013, será uma delas, junto com seu marido e os quatro filhos. Além da troca de experiências, ela terá mais uma oportunidade de mostrar seu talento como chef de culinária árabe - impulsionada pela exposição que recebeu como refugiada, Muna conseguiu atrair muitos clientes para sua página no Facebook, Muna - Sabores & Memórias Árabes, onde divulga seu delivery de comida em São Paulo.

Professora de inglês na Síria, Muna teve de se adaptar ao chegar ao Brasil. Além de trabalhar por mais horas durante o dia para superar os obstáculos econômicos, também precisou escolher uma atividade que não exigisse tanto da língua portuguesa, que ela ainda está aprendendo.

Mas ficou a surpresa pela receptividade brasileira em relação à comida árabe. "A maior parte dos meus clientes não têm relação com a comunidade síria, são brasileiros mesmo", diz ela.

Migraflix/NBS
Olga Yavo, refugiada da Costa do Marfim que vive em São Paulo

A marfinense Olga Yavo chegou ao Brasil em julho de 2014 e passou por uma situação parecida com a de Muna, muito comum entre os refugiados: trabalhar em algo fora de sua área de formação para garantir a renda no país. Formada em Letras, e com conhecimento de francês, inglês e espanhol, Olga foi cuidadora de idosos em seu primeiro emprego no Brasil depois de deixar a Costa do Marfim, que ela diz viver uma situação econômica "precária".

No início deste ano, Olga, já acostumada com o português, conseguiu uma vaga para dar aulas de francês na ONG Abraço Cultural. Além disso, estuda fisioterapia, que pretende transformar em sua próxima profissão no Brasil. "Se eu conseguir um diploma, vou conseguir me integrar verdadeiramente no país", acredita.

Agora, o encontro com a família brasileira no Natal será a oportunidade de contar - e ouvir - essa e outras histórias da marfinense, que pretende fazer um prato típico de seu país, à base de banana da terra. Uma de suas missões é ajudar a mudar o estigma que os brasileiros têm dos africanos, segundo ela.

"Muitos brasileiros acham que todo africano que está no Brasil passava fome em seu país. A imagem da África é de um grande continente com crianças magras e barrigão, onde as pessoas vivem na floresta. É um absurdo", diz.

"Ser convidado para conhecer uma família brasileira quebra essa barreira, e vai ajudá-los a conhecer mais a África, para falar a eles que é um continente lindo, com muitos países e culturas diferentes. Vai ser muito divertido, com muita conversa e muita comida."

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