Como ajudar crianças sírias que chegam a campos de refugiados? Voluntários usam leitura

Mariana Della Barba

Colaboração para o UOL, em São Paulo

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    A jordaniana Rana Dajani, idealizadora do programa We Love Reading ("nós amamos ler"), lê para crianças refugiadas

    A jordaniana Rana Dajani, idealizadora do programa We Love Reading ("nós amamos ler"), lê para crianças refugiadas

Um dos saldos mais devastadores dos seis anos de guerra na Síria é ver as crianças que sobreviveram ao conflito. Isso por causa do impacto de, como informa a agência de refugiados da ONU, terem visto "parentes serem mortos; suas escolas, destruídas, e suas esperanças, arruinadas".

Por isso muitas agências humanitárias e ONGs internacionais trabalham em território sírio e em países vizinhos para tentar evitar que essas 4 milhões de crianças formem, de fato, uma "geração perdida".

Uma organização vem chamando a atenção justamente pela simplicidade e pela eficiência de seu projeto, que consiste em treinar um adulto para ler em voz alta para crianças em um espaço público.

Idealizado pela cientista jordaniana Rana Dajani, o programa We Love Reading ("nós amamos ler") vem transformando a vida de crianças em vários pontos do mundo, mas especialmente as sírias que fugiram da guerra.

"Se o nosso projeto funciona superbem em um bairro comum de qualquer cidade, em um campo de refugiados o impacto é dez vezes maior", disse Rana durante uma palestra na Universidade Columbia, em Nova York.

"Ouvimos relatos de que o efeito nas crianças vem sendo ótimo, com testemunhos interessantes como o de que os desenhos feitos por elas estão menos violentos e de que há crianças que não são refugiadas, mas que entram no campo para ouvir as histórias."

A primeira experiência do We Love Reading com refugiados sírios foi no campo de Za'atari, no norte da Jordânia. Seis homens e 20 mulheres foram treinados para contar histórias em voz alta e receberam um kit com livros infantis.

No site do projeto, os voluntários relatam suas experiências, como Hiyam, de 20 anos: "No começo, eu tinha de pedir para as crianças daqui [do campo de Za'atari] várias vezes para que elas viessem ouvir minhas histórias, mas agora elas imploram para eu ler para elas".

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"Biblioteca ficava às moscas"

Rana conta que o sucesso nesse primeiro campo foi imediato. "Logo que começamos, a biblioteca do campo, que antes ficava às moscas, viu o movimento quintuplicar. As crianças ganharam a oportunidade de manter contato com a leitura e a educação até que consigam voltar à escola."

A jordaniana lembrou ainda que muitas dessas crianças não encostavam em um livro havia meses --ou até anos-- e que as histórias traziam um mundo de possibilidades além dos desafios de viver em um campo de refugiados. 

O sucesso no Za'atari foi tão grande que o projeto logo se espalhou para outros campos de refugiados. Os voluntários do projeto no campo de Emirati (também na Jordânia) relataram que muitos acham inútil que a criança receba qualquer tipo de educação, diante das péssimas condições de vida que enfrentam. E isso faz com que só venha aumentando o número de crianças sírias analfabetas.

Um dos relatos de voluntário do campo de Azraq (também na Jordânia) trata exatamente dessa questão. "Tenho certeza de que [o projeto] vai reduzir o número de crianças que não conseguem ler nem escrever. Com as minhas sessões de histórias, vou encorajá-las a se interessar e a gostar de ler."

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"Ter livros não bastava para despertar a paixão pela leitura"

Gostar de ler --no caso, amar ler-- é o que, aliás, move o projeto de Rana. Ela conta que, ao perceber que os jordanianos não tinham o hábito de ler, foi investigar o porquê disso e descobriu que quase ninguém gostava do ato de ler.

"Lemos para obter educação ou por conta da religião, mas não por prazer. Quando comecei a analisar pesquisas sobre o tema, vi que ter livros não bastava para despertar a paixão pela leitura. O que faz uma criança gostar de ler é quando seus pais ou cuidadores leem para ela desde pequenas, inclusive dentro da barriga da mãe", explica Rana.

"Segundo os estudos, ler faz com que os circuitos neurológicos da criança se intensifiquem quando um adulto está contando uma história para ela. Ouvir uma história traz uma sensação de segurança e de bem-estar, que é registrada no cérebro à medida que você cresce."

Essa herança valiosa, segundo a cientista, também traz outras vantagens, como o fato de que ler em voz alta para os filhos ajuda a expandir o vocabulário das crianças e cria uma oportunidade de pais e filhos terem mais tempo juntos. "E ler por prazer é fundamental, porque a criança amplia sua imaginação, aprende sobre a experiência de outras pessoas, outras culturas, outros tempos; e usa essas lições na sua vida, desenvolvendo respeito e empatia para com os outros, além de aprender a ouvir, a se comunicar e a desenvolver um pensamento crítico." 

Rana conta que, quando tomou conhecimento dos benefícios de se ouvir histórias, logo lhe veio à mente a máxima de que "conhecimento traz responsabilidade". E começou a pensar em uma maneira de incentivar o amor à leitura. "Comecei com um pequeno grupo de crianças na mesquita do meu bairro. No primeiro sábado de manhã, os pais arrastaram as crianças. Mas, depois, os meninos e meninas gostavam tanto que eles é que arrastavam os pais."

"Eles começaram a se sentir felizes"

Além de contar empolgada sobre as crianças --especialmente as refugiadas-- que agora têm contato com a leitura e podem desenvolver o lado intelectual e o emocional, a jordaniana também se orgulha dos benefícios que seu projeto traz para os adultos. 

Para ela, contar e ouvir histórias é algo intrínseco ao ser humano, "é parte do que nos fez sermos selecionados na evolução".

Cita diversas histórias de voluntários cuja vida mudou depois que começaram a ler para crianças, como a de uma jovem mãe que vive com os três filhos em um campo de refugiados e começou a ler em sua tenda. "As sessões de leitura eram tão concorridas e ela, tão valorizada, que acabou sendo convidada para dar aula em uma escola da ONG Save the Children no local."

Outro relato conta da mudança no relacionamento e na comunicação entre os pais e seus filhos. Como esse testemunho de um sírio do campo de Azraq: "Antes, eu costumava erguer a voz quando eu estava irritado. Então, as crianças se surpreenderam quando eu falei mais alto, mas por uma razão diferente, para ler uma história para eles. O resultado? Eles começaram a se sentir felizes".

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