O que o discurso de Coreia do Norte após o teste revela sobre seu arsenal?

Do UOL, em São Paulo

  • KCNA via Reuters

    Kim Jong-un inspeciona o míssil balístico intercontinental nesta foto divulgada pela agência oficial norte-coreana KCNA

    Kim Jong-un inspeciona o míssil balístico intercontinental nesta foto divulgada pela agência oficial norte-coreana KCNA

Uma "vitória brilhante" e um "emocionante" sucesso, essas foram uma das palavras que o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, disse nesta quarta-feira (5), um dia após o primeiro teste de míssil balístico de longo alcance ter ocorrido.

Para ele essa é a "fase final" em um confronto contra os EUA que inclui uma sequência de "pacotes de presentes"... para os Yankees"

Muitos se sentem incomodados e pouco satisfeitos quando a mídia norte-coreana revela sobre o que poderia ser um momento histórico e uma chance de ouro para promover o seu ditador e o seu exército.

Em alguns aspectos o feito dos norte-coreanos parece ser algo de tirar o fôlego. Mas como sempre existem razões importantes para se observar o que realmente está acontecendo no país.

As pessoas que vivem na Coreia do Norte ainda passam fome. E ela ainda é um país considerado com uma economia de terceiro mundo, com grande corrupção e abusos nos direitos humanos. Isso é temido, odiado e sancionado por seus países vizinhos. E ainda faltam vários anos de desenvolvimento e testes para se aperfeiçoar o seu míssil balístico intercontinental.

Um olhar sobre a Coreia do Norte é também um olhar sobre a sua propaganda deliberada e o que ela pode significar.

Coreia do Norte testa míssil balístico intercontinental

"Pacotes de presentes"

A propaganda: "Respeitar o líder supremo Kim Jong-un", com um "grande sorriso em seu rosto", é um incentivo para os cientistas "frequentemente enviarem grandes e pequenos 'pacotes de presentes' para os Yankees para que eles nunca se sintam cansados."

O que isso pode significar: A Coreia do Norte provavelmente promete fazer mais mísseis e testes nucleares.

Isso com certeza é um desafio, mas também revela algo importante. Mais testes podem significar fraqueza.

Antes que isso possa voltar a gerar tumulto, a Coreia precisará realizar repetidos testes para construir um único míssil intercontinental que possa chegar à América do Norte.

O mesmo vale para bombas nucleares.

Alguns especialistas acreditam que a Coreia do Norte pode armar seus mísseis de curto alcance com ogivas nucleares já. Mas ainda existem mais dúvidas sobre se Pyongyang é capaz construir uma ogiva que possa caber dentro de um míssil de longo alcance.

Cada novo teste realizado indica que a Coreia do Norte possa estar mais próxima de seu objetivo, mas também indica que ele ainda não foi concluído.

Coreia do Norte: confronto com EUA entrou na 'fase final'

"Uma vitória brilhante"

A propagandaA Coreia do Norte disse que obteve uma "vitória brilhante" e um "emocionante sucesso" no lançamento de um míssil intercontinental que pode carregar ogiva nuclear maior. Kim elogiou os seus cientistas por "terem um emocionante sucesso em uma tentativa de lançamento do míssil Hwasong-14 capaz de atingir o continente dos EUA". Os sistemas de instrução dos armamentos, estabilidade, estrutura e "estado de voo" foram todos "confirmados".

O que isso pode significar: A Corei do Norte, conseguiu de certa forma, lançar um míssil que voou em um grande arco até cair no Mar do Japão. Washington, Seul e Tóquio confirmaram esse fato como o melhor esforço dos norte-coreanos até o momento.

Também é verdade que se não for parada, em apenas uma questão de tempo a Coreia do Norte irá produzir mísseis intercontinentais que funcionam.

Mas ainda existem grandes razões para se duvidar da afirmação dos norte-coreanos que houve um sucesso completo "em uma tentativa". Porque isso inclui o fato de que a Coreia do Norte realmente dominou a tecnologia para criar um veículo de reentrada crucial para retornar uma ogiva à atmosfera para que ele possa atingir o alvo demarcado. E também a questão de se eles podem construir uma ogiva pequena o suficiente para caber em um míssil de longo alcance.

"Fase final"

A propaganda:  Kim Jong-un disse que "enfatizou que o prolongado confronto com os imperialistas dos EUA chegou à sua fase final", e que essa "é a hora para eles demonstrarem seu valor para os EUA".

O que isso pode significar: Isso pode parecer uma ameaça, e a Coreia do Norte, sem dúvida, vem demonstrando por anos o seu valor, ignorando repetidamente os avisos dos EUA para não testar armas e mísseis nucleares e ameaçar atingir alvos nos EUA.

Essa propaganda ajuda a promover internamente Kim Jong-un como um dos grandes poderosos do cenário nuclear mundial. Além de causar medo nos EUA, Coreia do Sul e Japão.

A "fase final" também pode ser uma maneira de tentar manter as elites da Coreia do Norte satisfeitas enquanto um bloqueio nuclear ocorre a quase trinta anos.

Há também um verdadeiro brilho na frase.

Se o objetivo sempre foi conseguir produzir uma bomba intercontinental, o primeiro teste de uma versão que está nascendo dessa categoria de míssil, pode de fato marcar uma "fase final" do tipo.

 O que não se tem certeza é se essa "fase" terminará com violência, ou algum tipo de negociação para um congelamento nuclear que simplifica mais anos de frustrações com o progresso das armas norte-coreanas.

Entenda o programa de mísseis norte-coreano

Fortes reações

O teste provocou uma forte reação do presidente americano, Donald Trump, que pediu à China, principal aliado de Pyongyang, para "acabar com esse absurdo de uma vez por todas".

A China defendeu os "esforços incessantes" para resolver o problema nuclear norte-coreano e pediu "contenção" a todas as partes.

Em um comunicado conjunto, Rússia e China pediram que a Coreia do Norte instaure uma "moratória" sobre seus testes nucleares e lançamentos de mísseis e que os Estados Unidos cessem os exercícios militares na região, a fim de diminuir a tensão.

Moscou e Pequim clamaram por "moderação e que os países se abstenham de atos de provocação", indicaram os respectivos ministérios das Relações Exteriores em um comunicado comum, após um encontro no Kremlin entre os presidentes Vladimir Putin e Xi Jiping.

Mas o apelo foi ignorado por Estados Unidos e Coreia do Sul, que dispararam mísseis balísticos de maneira simultânea "como uma forte mensagem de advertência", durante um exercício militar conjunto.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou fortemente o teste do míssil, e o qualificou de "mais uma violação descarada das resoluções do Conselho de Segurança e uma escalada perigosa da situação".

Guterres acrescentou que a "liderança da Coreia do Norte deve evitar novas ações provocativas e cumprir plenamente suas obrigações internacionais".

A União Europeia disse que poderá impor novas sanções à Coreia do Norte, depois de ter ampliado no mês passado sua lista de dirigentes e entidades castigados por Bruxelas.

Pyongyang, que já realizou cinco testes nucleares e dispõe de um pequeno arsenal atômico, tenta produzir mísseis intercontinentais (ICBM) para alcançar o território americano, uma medida contra o que define como ameaça de invasão dos 28.000 soldados que os Estados Unidos mantêm mobilizados na Coreia do Sul.

O lançamento "histórico" do míssil Hwasong-14 foi supervisionado pessoalmente por Kim Jong-un, de acordo com a televisão estatal norte-coreana.

A Coreia do Norte é uma "potência nuclear forte" dotada de um "ICBM muito poderoso que pode alcançar qualquer lugar do mundo", anunciou a televisão estatal do país. "O teste com êxito de um ICBM é um avanço maior na história de nossa república."

Em um tuíte logo após a revelação do disparo, Trump desabafou sobre Kim Jong-un: "este cara não tem nada melhor para fazer com sua vida?"!

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