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"Foi como estar em 'The Walking Dead'", diz brasileiro após furacão em Porto Rico

26.set.2017 - Moradores sentam no lado de fora de suas casas destruídas ao anoitecer após a passagem do furacão Maria, em Yabucoa, Porto Rico - Gerald Herbert/ AP
26.set.2017 - Moradores sentam no lado de fora de suas casas destruídas ao anoitecer após a passagem do furacão Maria, em Yabucoa, Porto Rico Imagem: Gerald Herbert/ AP

Gabriel Melo

Do UOL, em São Paulo

29/09/2017 16h03

O casal de brasileiros Edipo Cravo, 29, e Barbara Resende, 25, estava contando os dias para deixar Porto Rico, quando um segundo furacão em menos de duas semanas atingiu toda a ilha e criou um cenário de destruição, o que obrigou os sobreviventes a enfrentarem uma situação semelhante ao vivido pelos protagonistas da série de televisão "The Walking Dead", onde as pessoas precisam sobreviver em um mundo sem energia e andam em busca de alimentos e meios de comunicação.

Edipo e Barbara estavam morando em San Juan, Porto Rico, há 5 meses e já com a passagem em mãos para voltar aos EUA em dois dias foram surpreendidos pela intensidade do furacão Maria, que atingiu a categoria 5, a mais intensa em uma escala de 1 a 5, e atingiu a ilha em cheio.

Antes dos fortes ventos impactarem o local, o casal havia se preparado para o furacão comprando bastante água e comida enlatada, mas segundo Resende isso não foi o suficiente, pois eles e muitas pessoas desprezaram a força do furacão Maria, uma vez que o furacão Irma, que veio antes, causou poucos impactos à ilha.

O casal de brasileiros Edipo Cravo e Barbara Resende - Reprodução/ Facebook/ Edipo Cravo - Reprodução/ Facebook/ Edipo Cravo
O casal de brasileiros Edipo Cravo e Barbara Resende
Imagem: Reprodução/ Facebook/ Edipo Cravo

"Quando o Irma veio todo mundo se preparou e a população deu sorte, pois o furacão acabou desviando um pouco para o Norte e não causou grandes estragos. Já quando veio o Maria, o pessoal não se preparou muito bem, muita gente desprezou a força desse furacão", disse Resende.

No começo da noite do dia 19, às 20h, os fortes ventos começaram a atingir a região onde o casal estava e eles moveram todos os objetos para o centro de sua casa e ficaram assistindo, sem dormir por um segundo, o furacão passar.

Somente às 17h do dia seguinte, mesmo com ventos fortes, o casal saiu para ver como estavam as ruas.

"Assim que saímos vimos os estragos causados pelo furacão, haviam muitas árvores e postes caídos, várias áreas inundadas e muita areia da praia nas ruas. As pessoas nas ruas estavam chocadas e curiosas. Naquele momento já não havia sinal de telefone e nem energia elétrica e os carros não conseguiam passar, pois haviam muitos objetos bloqueando o caminho", disse Cravo.

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A partir desse momento a aventura de Edipo e Barbara para conseguirem sobreviver e deixar Porto Rico começou.

Segundo eles as condições da ilha estavam precárias e o ambiente parecia o da série "The Walking Dead", pois todos os dias eles saíam "como forasteiros" durante o horário permitido pela polícia, que era das 6h às 18h, em busca de comida, energia e sinal de internet ou telefone para conseguir informações para deixar o país.

"Foi como viver em 'The Walking Dead' nosso dia a dia desde a passagem do furacão era deixar a nossa casa com uma mochila com alimentos enlatados, carregadores e aparelhos celulares e saíamos para procurar lugares para conseguir sinal de internet ou telefone para conseguirmos informações sobre voos ou outros meios de deixar Porto Rico, tínhamos muitas ideias de como deixar a ilha. Vivíamos como forasteiros, tentávamos sobreviver e ao mesmo tempo tentar achar uma saída e sempre respeitando o limite de voltar para casa às seis da noite", disse Edipo.

"Tínhamos um estoque de comida, mas continuávamos tentando pegar o que conseguíamos achar", completa. Ao final, sobrou comida, que foi doada para moradores de Porto Rico.

Para Barbara, a pressão psicológica era muito grande e tudo estava ficando cada vez mais limitado.

"Cada hora que passava era um inferno, não existiam condições de permanecer lá [Porto Rico]. Estava tudo parado, não tinha energia, os locais que tinham geradores ficaram sem diesel e deixaram de funcionar. Muitos mercados fecharam e praticamente 99% dos bancos não estavam funcionando, o que obrigava todos a regularem o seu dinheiro", disse Resende. "As pessoas começaram a ficar com medo um dos outros, pois a energia era tudo o que eles tinham e tiveram brigas por causa disso. O calor do Caribe também era insuportável e a pressão psicológica era muito grande", completou.

A brasileira Barbara Resende observa árvore caída em rua de San Juan, no Porto Rico - Reprodução/Facebook Edipo Cravo - Reprodução/Facebook Edipo Cravo
A brasileira Barbara Resende observa árvore caída em rua de San Juan, em Porto Rico
Imagem: Reprodução/Facebook Edipo Cravo

Aplausos no aeroporto

O que os fez aguentar a pressão psicológica foi a "união das pessoas em Porto Rico".

"O que nos segurou um pouco foi ver como o país se uniu naquele momento, todos se juntaram e ofereceram ajudas desde alimentos até remover pedaços de árvores das portas das casas. Haviam muitas pessoas que passaram por furacões 30 anos atrás e elas nos ajudaram a ficar calmos. Eu nunca tinha visto um povo tão disposto a ajudar o próximo", disse Resende.

Para eles a maior dificuldade não foi a falta de recursos, mas sim não conseguir se comunicar com os amigos e familiares, porém a união das pessoas os ajudou a superar também esses momentos.

"Era importante dizer que estávamos vivos, passamos a tomar as dores dos outros e sempre que tínhamos sinal no celular emprestávamos para alguém tentar se comunicar com os familiares e dar um sinal de vida. Emprestamos nosso celular para uma colombiana que não conseguia falar com a família há dias", disse Barbara.

Após uma semana sem conseguir deixar a ilha e com mais de cinco passagens adiadas, Edipo e Barbara conseguiram entrar na lista de espera de um voo para Filadélfia, nos EUA, e no aeroporto viveram também um dos momentos mais emocionantes dos 5 meses em que estiveram em Porto Rico.

"No aeroporto, cada nome da lista de passageiros que era chamado, todas as pessoas aplaudiam. As pessoas compartilhavam daquela felicidade, pois era mais um de nós que conseguia sair da ilha. E eram momentos muito emocionantes", disse Resende. Os dois brasileiros estavam entre os passageiros que embarcaram para os EUA.

Mesmo com toda a dificuldade para conseguirem sair da ilha, o casal não descarta a possibilidade de voltar para lá.

"Não seria contra a ideia de voltar para lá. As pessoas são incríveis, são muito boas e tivemos ótimos momentos por lá", afirmou Cravo.

Atualmente há 11.000 pessoas em refúgios em Porto Rico ainda sem condições de voltar para suas casas.

O aeroporto internacional Luis Muñoz Marín, de San Juan, opera atualmente 31 voos por dia. Em tempos normais, operava cerca de 130.

O furacão Maria provocou a morte de, pelo menos, 16 pessoas em sua passagem por Porto Rico.

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