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Internacional

Drogada e estuprada por colega, agente revela crimes em missões humanitárias

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

17/10/2017 04h00

A canadense Megan Nobert, 30, trabalhava em uma missão humanitária no Sudão do Sul quando foi dopada e estuprada por um colega de trabalho. Sem qualquer suporte da entidade que representava, buscou ajuda por conta própria --física e psicológica-- e decidiu compartilhar sua experiência traumática em uma tentativa de conscientizar a comunidade internacional para a violência entre funcionários humanitários. Como ativista, acabou encontrando inúmeros casos semelhantes de um crime até então silenciado.

O ataque: violentada dentro de uma base da ONU

Advogada de direitos humanos, Megan trabalhava para uma ONG com sede em Bruxelas, na Bélgica, em um dos espaços de Proteção dos Civis (PoC, na sigla em inglês), sob o comando da ONU --uma espécie de campo de refugiados.

Megan foi dopada com uma mistura de cocaína, codeína, morfina e oxicodona numa noite de fevereiro de 2015 em que saiu para jantar com colegas de trabalho com quem atuava na missão humanitária no Sudão do Sul, região que tornou-se independente em 2011 e registra violentos conflitos até hoje. Sua última memória antes de despertar era a de um pequeno bar em que as pessoas que trabalhavam na missão da ONU frequentavam, onde ela tomou uma taça de vinho e dançou.

Ela acordou horas depois passando muito mal, nua, sozinha e sem qualquer memória do ataque. Megan tinha sido estuprada dentro de uma base da ONU em Bentiu. Perguntou para colegas de trabalho sobre o que tinha ocorrido naquela noite. Disseram que ela foi vista beijando um homem que trabalhava para uma pequena empresa prestadora de serviços para a missão humanitária.

Além dos sintomas provocados pelas drogas e das sensações ruins no corpo, Megan tinha ainda um exame de sangue comprovando as substâncias com as quais ela foi dopada --que podem ser letais em grande quantidade-- e uma carta do homem se desculpando e pedindo que ela não contasse a ninguém.

Megan não teve qualquer assistência para realizar os testes para doenças sexualmente transmissíveis, tomar os medicamentos pós-estupro, como o coquetel para prevenção de HIV. Arcou ainda com todos os custos com acompanhamento psicológico para superar o trauma.

"Quando fui drogada e estuprada por um colega, não tinha nenhuma ideia de como proceder. Como resultado, fui deixada em grande parte sozinha para lidar com as consequências da violação", disse Megan em entrevista ao UOL.

Ela denunciou o agressor para seus chefes diretos e indiretos. "Nenhum tipo de investigação foi realizada --o caso não foi apurado, nunca pude o acusar formalmente, e ele nunca teve a oportunidade de se defender", diz.

"A ONG internacional com a qual eu trabalhava na época era muito mal preparada para responder ao meu estupro. Não existia nenhum tipo de medida, política ou procedimento de prevenção para enfrentar incidentes de violência sexual contra seus funcionários", afirmou a advogada.

Campo de Bentiu, no Sudão do Sul - JC McIlwaine/ONU - JC McIlwaine/ONU
Área de proteção aos civis em Bentiu, no Sudão do Sul, onde Megan trabalhava em 2015
Imagem: JC McIlwaine/ONU

O ativismo: a ONG para debater casos silenciados de abuso

Seis meses depois do ataque, Megan criou a ONG "Report the Abuse", para registrar os casos de abuso praticados por integrantes de missões humanitárias e apoiar as vítimas. A ideia era, segundo ela, abrir uma plataforma para que agentes humanitários falassem sobre suas experiências com violência sexual. Seria a primeira vez que eles tinham --em escala global--  a oportunidade de falar sobre essa questão em um espaço seguro, sem julgamento e confidencial.

"A Report the Abuse começou devido à minha experiência com a violência sexual. No entanto, foi realmente com base nas vozes da comunidade que a ONG cresceu depois que eu falei publicamente sobre a minha experiência, há pouco mais de dois anos. Foi com a força desse coletivo de vozes que a organização prosperou. Elas eram a nossa força orientadora", diz Megan.

Para muitas das vítimas, relatar o que tinha acontecido acabou sendo parte do processo de recuperação. "No primeiro aniversário da ONG, publicamos as primeiras estatísticas globais sobre o tema, revelando como os funcionários de equipes humanitárias enfrentam a violência sexual".

Foi um momento extraordinariamente difícil na minha vida, que deixou profundas feridas que ainda estou tentando curar

Megan Nobert

No segundo ano da pesquisa --cujos dados foram publicados em agosto deste ano--, a ONG chegou a números  alarmantes: 87% dos mil entrevistados pela ONG disseram conhecer algum colega que sofreu algum tipo de violência sexual durante seu trabalho humanitário; 41% disseram ter testemunhado algum caso de violência sexual contra um colega; 72% afirmaram ter sido vítimas de um ataque sexual; 69% disseram que conheciam seu agressor; e 35% das vítimas foram agredidas mais de uma vez.

Entre as vítimas, 13% afirmaram ter sofrido estupro; pouco mais de 20% relataram ter sido tocadas sem consentimento. Na pesquisa, a maioria das vítimas é mulher (89%), e homens estão entre a maioria dos agressores (92%). Oitenta por cento das vítimas se declararam heterossexuais. Megan ressalta ainda que, apesar de os casos de violência sexual serem mais comuns com mulheres, quase 10% dos homens relataram abusos, além dos dados citando agressões contra homossexuais. 

"No entanto, deve-se notar que temos poucas informações sobre as experiências do pessoal humanitário e, portanto, ainda existem muitas pesquisas que devem ser feitas sobre como a violência sexual está ocorrendo em espaços humanitários e de trabalho", afirma Megan, ressaltando que os números podem ser ainda maiores.

Sem apoio financeiro, Megan concluiu os trabalhos da ONG em agosto deste ano, quando publicou seu último estudo.

"Apesar do fim da Report the Abuse, que foi um infeliz reflexo da difícil realidade do financiamento humanitário no momento e da nossa incapacidade de garantir fluxos de financiamento sustentáveis, sempre continuarei trabalhando com sobreviventes e organizações humanitárias para garantir que a violência sexual na comunidade humanitária não seja deixada de lado", diz a ativista.

"Os trabalhos necessários para prevenir e responder adequadamente aos incidentes de violência sexual estão longe de terminar. Mas estes esforços também devem ser de todas as organizações humanitárias em todo o mundo. O encerramento da Report the Abuse não altera a realidade enfrentada pelos trabalhadores de ajuda humanitária em todo o planeta", afirma.

Para Megan, o estigma e a vergonha vivenciadas pelas vítimas de violência sexual faz com que os sobreviventes silenciem e não falem sobre suas experiências. Existe ainda, na avaliação da ativista, o fato de que quem denuncia estes casos no meio humanitário tende a ser punido ou retaliado por quem recebe a denúncia, enquanto os perpetradores são frequentemente mudados de função ou até mesmo promovidos --isto ajuda a explicar os motivos pelos quais a questão da violência sexual em missões humanitárias ainda é desconhecida.

Megan agora estuda uma forma de retomar os trabalhos da Report the Abuse e manter o apoio às vítimas. Todo o conteúdo produzido em suas pesquisas, desde os dados até as práticas e recomendações para agentes humanitários, vítimas e organizações permanecem online e estão disponíveis para consulta (em inglês).

"Quero encorajar as organizações para que elas compartilhem as lições que estão aprendendo enquanto lidam com a violência sexual internamente, pois isso beneficiaria toda a comunidade humanitária, incentivando o crescimento e a mudança".

Trechos de depoimentos

Uma das campanhas realizadas por Megan incluiu a divulgação de trechos --com autorização-- de 50 depoimentos das mais de 200 vítimas de violência sexual no setor humanitário que relataram suas experiências para a ONG. Estes são alguns dos relatos coletados por Megan que foram publicados em seu último relatório. As identidades das vítimas e os contextos não foram identificados para preservar os sobreviventes.

"Um gerente de programa de outra organização entrou na minha tenda enquanto eu dormia, subiu na minha cama nu e me estuprou. Fui questionada sobre os motivos pelos quais eu não tinha relatado o ocorrido diretamente aos funcionários da agência local (todos homens, alguns dos quais se reportavam ao homem que me estuprou) ou para o meu motorista ou para os funcionários do meu programa (todos homens, e meus subordinados). Eles perguntaram porque a minha barraca não estava trancada, porque eu não denunciei imediatamente o que aconteceu, porque eu não me defendi."

"Estava no Afeganistão no verão de 2015. Era um banheiro unissex. Um jovem me seguiu até o banheiro. Ele pediu para ser meu tradutor e eu respondi que já tinha um tradutor. Então, no banheiro, ele viu que ninguém mais estava lá dentro exceto nós dois, ele partiu para cima de mim dizendo que queria um beijo. Ele queria mais do que um beijo. Me agarrou e empurrou contra uma parede. Consegui me livrar dele e ninguém nos viu. (...) Meu chefe não me deu apoio quando tive problemas para dormir, pesadelos e expliquei que tinha sintomas de estresse. Ele criticou o meu trabalho e disse que eu precisava superar meus 'problemas pessoais'."

"Ele estava insinuando há alguns dias que estava interessado em mim, tocando minha mão em reuniões (não o fiz). Um dia, estávamos sozinhos e ele me pegou agressivamente, colocando o seu braço em volta do meu pescoço e agarrando meu seio. Afastei-me e ele não tentou novamente, felizmente. Fiquei abalada e pedi que outra pessoa sempre ficasse por perto a partir daquele momento (para que eu nunca mais ficasse sozinha com ele), de modo que eu precisasse mais lidar com o constrangimento ou a preocupação de ser atacada de novo."

"O encontrei em uma festa em uma embaixada africana, onde eu não conhecia mais ninguém. Ele estava acompanhado de sua esposa encantadora. Eu já o conhecia por causa do trabalho e de algumas atividades sociais. Em um momento da noite, ele me puxou para o banheiro e tentou me atacar. Consegui escapar e voltar para a festa. Não estava preparada para algo assim por causa da esposa dele. Ele estava flertando comigo, mas eu tentava rir disso, pensando que era algo inofensivo. Foi somente quando fui presa de repente por ele que percebi o que estava acontecendo e precisava lutar para escapar."

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