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Filósofa alemã conta como foi decidir ser prostituta por dois anos

Prostitutas em um bordel em Colônia - picture-alliance/dpa
Prostitutas em um bordel em Colônia Imagem: picture-alliance/dpa

Tainã Mansani

Da Deutsche Welle

09/12/2017 04h00

Ilan Stephani tinha 19 anos quando decidiu trabalhar num bordel de Berlim e defende sua opção: "Nas sociedades patriarcais, prostitutas podem ser mais livres do que as esposas, desde que seja uma escolha".

A berlinense Ilan Stephani era uma estudante de filosofia quando, aos 19 anos, decidiu trabalhar como prostituta num bordel em Berlim.

Em seu recém-publicado livro "Lieb und teuer – Was ich im Puff über das Leben gelernt habe" (Querida e cara – o que aprendi sobre a vida trabalhando num puteiro), ela relata sua experiência de dois anos como prostituta.

Foi a curiosidade – e não a necessidade financeira – que levou Stephani a trabalhar num bordel de Berlim. Ela queria experimentar a prostituição para entender o que há tempos divide opiniões pelo mundo, sobretudo de feministas, em relação à legalização dessa atividade como profissão.

Em entrevista à DW Brasil, Stephani diz que a prostituição em sociedades patriarcais pode representar mais liberdade do que ser a "esposa" – historicamente entendida dentro da sexualidade monogâmica como a "posse" de um homem. Mas isso apenas se a prostituição for a escolha de uma mulher.

Ela reconhece que sua experiência é particular se comparada a outras "cenas", em que há sexo forçado ou escravidão sexual, e defende que os direitos humanos básicos precisam ser garantidos para que a prostituição seja uma "decisão".

Capa de "Querida e cara", de Ilan Stephani - Reprodção/Ecowin Verlag
Capa de "Querida e cara", de Ilan Stephani
Imagem: Reprodção/Ecowin Verlag


Foi pela organização alemã Hydra, que desde 1980 trabalha em apoio às mulheres prostitutas, que a então jovem estudante de filosofia da Universidade Humboldt de Berlim chegou à prostituição. Em seu livro, ela explica por que vê o sexo pago como uma atividade laboral qualquer.

Em 2002, a Alemanha reconheceu a prostituição como atividade profissional por meio da LProst (Lei da Prostituição). O sexo pago é permitido, mas com cobrança de impostos e regulamentações.

Estima-se que entre 300 mil e 400 mil pessoas sejam trabalhadores do sexo no país. Entretanto, cerca de 70% delas vêm de países do Leste Europeu, como Bulgária, Romênia e Polônia -, segundo apontou relatório da Fundação alemã Heinrich Böll.

Hoje, aos 31 anos, Stephani é autônoma e tem um pequeno negócio em Berlim. Ela organiza seminários e atividades de expressão corporal para mulheres traumatizadas, muitas delas vítimas de agressão.

DW Brasil: Por que você decidiu trabalhar como prostituta?

Ilan Stephani: Comecei a trabalhar como prostituta por curiosidade, nunca pensei em escrever um livro. Queria experimentar os sentimentos com intensidade e aprender sobre as fronteiras na sexualidade entre homens e mulheres. Com a prostituição, eu me sentia importante como alguém que ouve, que compreende. Eu estava fascinada por esse tipo de contato, que me dava grande satisfação.

DW Brasil: A escolha de ser prostituta existe para poucas mulheres. Como você vê essa questão?

Ilan Stephani: A prostituição forçada é muito pior do que podemos imaginar. É importante entender que, dentro do mundo da prostituição, existem muitas realidades, muitas contradições. Mas é também preciso discernir o sexo forçado do sexo por dinheiro. Com isso, usar palavras claras para dizer que prostituição também pode ser uma atividade laboral.

Prostituta em bar de Berlim, na Alemanha -  AFP
Prostituta em bar de Berlim, na Alemanha
Imagem: AFP

DW Brasil: Então, de uma certa forma você foi privilegiada por poder escolher e não ser forçada a essa atividade laboral?

Ilan Stephani: Sim, fui privilegiada por viver na Alemanha. Há países em que a prostituição é legal, e as leis são boas. Mas no contexto global há questões básicas não resolvidas. Eu já fui prostituta – imagino que você não tenha sido –, mas nenhuma de nós sabe o que é prostituição forçada. Eu tenho os mesmos medos, críticas e questionamentos em relação a esse problema. Primeiro, é preciso um contexto social em que os direitos humanos da mulher sejam garantidos para que ela possa dizer "eu decidi ser prostituta".

DW Brasil: São raras as reportagens que ouvem homens que frequentam bordéis. Por que a imagem da mulher é muito mais presente na mídia do que a do homem quando o tema é prostituição?

Ilan Stephani: É muito mais fácil falar sobre as vítimas, até em termos legais. Essa é a principal razão. A segunda grande razão é que é mais sexy falar sobre a mulher. Por isso, quase sempre as histórias sobre prostituição repetem infinitamente: mulher, mulher, mulher. Não importa quantas prostitutas vivam no mundo – existirão sempre muito mais clientes, e não se fala sobre o homem por causa da vergonha que eles sentem. Se formos falar desse tópico de maneira relevante, devemos falar de clientes, clientes, clientes.

DW Brasil: Feministas, sobretudo as marxistas, defendem que a prostituição torna a mulher e o sexo objetos de consumo e fetiche masculino. Como alguém que estudou filosofia, você acha que, na prostituição, a mulher é reduzida a mercadoria?

Penso que na sociedade de consumo tudo é mercadoria: cada madeira transformada em lápis e, no caso da prostituição, cada vagina. Não há nada de novo que façamos sexo como forma de consumo – alguém paga, e um outro recebe. Mas vejo o sexo sob duas perspectivas. Primeiro, há abuso quando um homem "fetichiza" e violenta uma mulher.

No meu livro, eu defendo claramente que isso é ruim. Mas, em segundo lugar, o sexo é o anseio do corpo humano, que deseja contato e intimidade. Aprendi com a prostituição que o homem não procura uma prostituta apenas para o ato sexual, ele também busca afeto – como um sorriso ou carinho. Por isso, a prostituição não precisa ser vista apenas como consumo, mas como algo que torna as pessoas mais felizes. Duas pessoas podem fazer algo mágico quando estão juntas [risos].

DW Brasil: Por que a prostituição pode ter um lado positivo para a trabalhadora sexual?

Ilan Stephani: Penso que, nas sociedades patriarcais, as prostitutas podem ser mais livres do que as esposas. "Se você me paga, você não me possui, mas me 'aluga' por um certo tempo, e depois posso ser livre de novo".

As mulheres que ousaram dizer "a minha sexualidade não é posse de um homem" foram as primeiras prostitutas da história da humanidade. Aprendi como prostituta que posso ser livre para fazer o que amo, e amei fazer isso. Mas, para ser honesta, percebi ser a pessoa mais livre do mundo quando deixei a prostituição [risos].

DW Brasil: Por que você deixou a prostituição?

Ilan Stephani: Tornou-se chato. Sempre olhamos para o sexo na prostituição como algo radical. "Você é prostituta? Então o seu sexo deve ser o máximo, já o meu é muito normal". Isso não é verdade. O sexo na prostituição é chato, é normal. Eu parei porque eu percebi que o segredo da prostituição é que não há segredo.

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