Por que a reaproximação entre as Coreias é importante para o mundo?

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

A diminuição da tensão entre a Coreia do Sul e Coreia do Norte chegou a um ponto-chave nesta semana. Por meio de um comunicado conjunto divulgado na terça-feira (9), os dois países anunciaram que concordam em colaborar para buscar a reconciliação e reduzir a preocupação militar na península.

Com os Jogos Olímpicos no território sul-coreano como pano de fundo, especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que este é um passo importante não apenas para a política da região, mas para as preocupações globais.

Embora com repercussões ainda difíceis de estimar, o primeiro acordo aponta para a restauração da paz em uma das fronteiras mais tensas do mundo, além de uma possível reaproximação dos vizinhos sem a mediação dos Estados Unidos –algo inédito na região em décadas.

O encontro indica ainda uma estratégia de ganho de poder --e relevância-- de Kim Jong-Un com sua série de testes nucleares para, só agora, ir para a mesa de negociação.

Reuters
Reunião entre representantes da Coreia do Sul e do Norte, que aconteceu nesta terça (9)

A importância do anúncio

O anúncio conjunto feito pelas Coreias diz: "O Sul e o Norte concordaram em colaborar para facilitar a reconciliação e a unidade por meio da redução da tensão militar e estabelecer um ambiente pacífico". 

Este é o maior passo rumo à reaproximação deste que o ditador norte-coreano assumiu o poder há pouco mais de seis anos. Entre os combinados, estão a restauração de uma das linhas de comunicação militar, do Mar Amarelo, fechada há dois anos pelo Norte, e o envio da delegação norte-coreana à Olimpíada de Inverno de PeyongChang, no Sul, em fevereiro.

"Podemos observar uma sequência de atos, e não apenas de discursos, conciliadores por parte da Coreia do Norte", afirma a professora Zelia Schervier, da Universidade de Brasília (UnB). "Esses atos demonstram mudança de direção quanto a sua política internacional, passando da escalada beligerante para a aproximação na diplomacia e no esporte."

Para Schervier, é uma forma do ditador norte-coreano demonstrar sua mudança de postura para o mundo.

"A busca de aproximação com Seul é um passo importante para o início de um diálogo entre os principais atores regionais e praticamente uma declaração de boas intenções por parte de Kim Jong-un para o resto do mundo, que assistia, até poucos dias atrás, a escalada nuclear da Coreia do Norte."

Ed Jones/AFP
A 'Aldeia da Trégua', local na fronteira entre os dois países, onde as negociações acontecem

Estratégia política

Segundo Alexandre Ratsuo Uehara, coordernador do Grupo de Estudos Asiáticos da USP (Universidade de São Paulo), este anúncio ajuda a entender certos aspectos do governo norte-coreano. 

"Ele sempre teve como meta tornar o país uma potência militar e conseguiu recentemente. Mesmo que se discuta a qualidade ou a precisão do armamento, a tecnologia é um fato", argumenta Uehara. De acordo com o docente, este era o grande trunfo do ditador para se manter no poder e explica parte de suas atitudes. "Agora que ele conseguiu o que queria, consegue negociar."

É no tipo de acordo, no entanto, que paira a grande dúvida sobre a longevidade da distensão entre os países. Segundo divulgado, o Sul pede que o Norte pare com seus testes nucleares e de mísseis. Do outro lado, o Norte quer que o Sul reduza sua força militar e sua relação com os Estados Unidos.

"Ambos são pedidos difíceis de se cumprir. Além disso, qual a garantia? Tem a ver com a palavra de cada um", argumenta Uehara. "O ponto-chave é que vai ter de haver confiança de ambas as partes."

Matthias Schrader/AP
Os patinadores norte-coreanos que irão à Olimpíada de Inverno

O papel dos Estados Unidos

Para Uehara, um dos grandes destaques dessa reunião é que, pela primeira vez em décadas, os dois países negociaram bilateralmente sem a intervenção norte-americana. "Os Estados Unidos podem ajudar tanto quanto podem atrapalhar, e o governo [de Donald] Trump não está muito aberto para diálogos", afirma o docente.

O especialista explica que a influência norte-americana sobre as relações na península é tão grande que, desde os anos 1990, acordos de paz só deram certo quando os presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Sul estavam, ao mesmo tempo, abertos ao diálogo com os comunistas do Norte.

O primeiro grande acordo entre Estados Unidos e Coreia do Norte ocorreu em 1994, durante o governo de Bill Clinton, quando o líder norte-coreano ainda era Kim Jong-il, pai do atual ditador. Em 1998, o presidente sul-coreano Kim Dae-jung juntou-se a Clinton e iniciou a política Sunshine, de reaproximação com o Norte, que mais tarde lhe rendeu o Nobel da Paz.

"A relação estava melhorando até o governo de George W. Bush colocar a Coreia do Norte no Eixo do Mal. Foi quando eles voltaram a se afastar", explica Uehara. "A partir dai, Barack Obama era favorável [à reaproximação], mas a ex-presidente sul-coreana Park Geun-hye era radicalmente contra. Agora, vemos o contrário com Trump e o atual presidente Moon Jae-in, que já falava disso em campanha. Por isso é tão importante que os dois tenham decidido fazer uma reunião bilateral."

Para Kim Jong-un, a não-interferência dos Estados Unidos, em especial sob a tutela de Trump, é crucial. "Há uma racionalidade em meio às suas decisões, por incrível que pareça. Ele acompanhou o que aconteceu na Líbia e no Iraque: Muammar Gaddafi e Saddam Hussein aceitaram abrir as portas e não só foram depostos como mortos", lembra Uehara.

"Com o Trump, houve uma escalada no tom que passou de retóricas competitivas e beligerantes a uma guerra econômica que, sem dúvida, teve consequências na análise do dirigente norte-coreano. Mas ainda é muito cedo para afirmar se haverá uma desnuclearização no país", completa Schervier, da UnB.

E a China?

A especialista pondera também a influência de outro grande país relevante no global e vizinho das Coreias: a China. 

"Apesar da diplomacia sul-coreana ter ficado dividida entre a diplomacia chinesa e norte-americana, há alguns anos existe uma aproximação com a China que vislumbrou maior oportunidade de atuação com a troca no poder em Seul", afirma a docente. "Se Trump tem estado tão envolvido em questões domésticas, talvez seja o momento para focar nossas análises no gigante vizinho, pelo menos por enquanto."

"Foi dado um passo importante, embora ainda seja cedo para dizer se será duradouro", afirma Uehara. 

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