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Sem dinheiro e tecnologia bancária, venezuelanos adotam a economia da confiança

Fala bem do venezuelano

AFP

Yelitza Linares*

Colaboração para o UOL, em Caracas (Venezuela)

07/02/2018 04h00

Teresa De Vincenzo é uma emigrante venezuelana que esteve recentemente visitando Caracas. Na segunda-feira, 29 de janeiro, ela saiu de uma clínica e procurou um táxi para transportar seu pai até o apartamento da família.

Ela não tinha dinheiro em espécie, nem o teve durante a viagem devido às restrições que os venezuelanos passam para obter dinheiro. Isso dificultou a chance de conseguir alguém que os levasse para casa naquele dia. Os táxis da Venezuela não têm equipamento de pagamento com cartão de crédito ou de débito, e só existe um aplicativo para celular que permite essa opção digital.

Alexander Quintero aceitou prestar o serviço a contragosto, em troca da oferta, quase desesperada, de Teresa de pagar por meio de uma transferência bancária que faria quando chegasse ao destino.

O mais bonito foi quando, antes de sairmos do carro, ele me olhou de maneira profunda e curiosa, tentando se tranquilizar de que eu era alguém em quem podia confiar. E me disse: 'Senhora, lembre que não a conheço. Só tenho sua palavra'.

Com esse compromisso, assim que chegou em casa Teresa acessou sua conta bancária e transferiu para o motorista os 60 mil bolívares (cerca de R$ 19) que custou o serviço e fez uma foto da tela do comprovante de pagamento, para enviá-la pelo WhatsApp.

Génesis Carrero
Troca de mensagens pelo WhatsApp mostra cliente confirmando transferência bancária realizada após compra, em Caracas Imagem: Génesis Carrero

Essa é uma cena cotidiana e recorrente, há mais de um ano, entre os venezuelanos que têm contas bancárias. Os registros em suas contas das pessoas que vão receber remessas são "taxista; farinha; homem do queijo; mercearia; barbearia".

A opção de fazer transferências de dinheiro pela internet após se beneficiar de um produto ou serviço é cada vez mais comum. As causas são complexas e variadas: poucas notas em circulação, falhas nos pontos de venda por falta de investimento na plataforma, falta de reposição desses equipamentos porque os bancos não têm acesso a divisas, conexão precária com a internet e frequentes cortes de eletricidade, especialmente no interior do país.

É preciso acreditar nos clientes que são boas pessoas. Isso se vê na cara, e por isso abrimos exceção e permitimos que paguem com transferências

Adalberto Petuz, gerente de um quiosque há 15 anos em Chacao, no leste de Caracas

Petuz não teve alternativa para manter seu negócio aberto. Desde novembro de 2017 implementou essas formas de pagamento para vender doces, guloseimas, bebidas e cartões telefônicos. Na porta de sua pequena loja se destaca uma mensagem na qual informa que aceita transferências bancárias e pagamento móvel interbancário (SMS) como mecanismos de transação de sua mercadoria.

Ele disse que desde que usa esses mecanismos, diante da falta de notas, suas vendas aumentaram de forma considerável, mas o dinheiro que obtém por transferências bancárias feitas por clientes depois de levar um produto é quase na mesma porcentagem que o que recebe por pagamentos com cartão de débito.

Essas transações baseadas na confiança começaram a se apresentar na Venezuela no final de 2017.

Jorge Silva/ Reuters
Nota com imagem do presidente venezuelano Nicolás Maduro e a palavra "desvalorizado" é visto na entrada de mercado em Caracas Imagem: Jorge Silva/ Reuters

Hiperinflação sem dinheiro

Em princípio, deve-se aos níveis de hiperinflação que a economia viveu no último ano. Em dezembro de 2017 a taxa de inflação foi de 85%, e o ano fechou com uma acumulada de 2.616%, segundo o relatório apresentado pela Assembleia Nacional diante da ausência de indicadores do Banco Central da Venezuela.

Isso faz que os volumes de dinheiro em espécie para comprar qualquer bem dificultem as transações. O bolívar perdeu o valor, e o governo não acompanhou a hiperinflação com um conjunto de cédulas suficiente e de alta denominação, como afirma a economista e consultora Anabel Abadí.

Essa situação se agravou a partir do anúncio oficial, em 11 de dezembro de 2016, de que deixaria de circular a nota de 100 bolívares, a de maior valor no momento. A decisão presidencial causou pânico, protestos, saques, mortes e filas de clientes na frente dos caixas de bancos.

Dias depois, o governo adiou a medida de anulá-lo e posteriormente a retardou mais cinco vezes, até 20 de setembro de 2017, quando a Superintendência de Bancos informou que a nota seria mantida em circulação "de maneira indefinida".

"No início, o presidente Maduro tinha dito que queriam recolhê-la para enfrentar o contrabando desse papel na fronteira com a Colômbia. Mas com a sucessiva postergação ficou evidente que queriam arrecadar dinheiro para os bancos. Haviam se atrasado na emissão de um novo conjunto de moedas", disse Abadí.