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Internacional

Adolescente denuncia ataques a região síria de Ghouta com selfies e vídeos

Do UOL, em São Paulo

22/02/2018 13h45

O perfil de um adolescente nas redes sociais mostra selfies, crianças e a vida na sua vizinhança. No entanto, as imagens são de destruição, pessoas feridas e até mortas. Esse é o "papel" que Muhammad Najem assumiu para si no Twitter, Facebook e YouTube. O adolescente que diz ter 15 anos tem usado as redes para denunciar os ataques em Ghouta, na Síria.

A incursão do jovem Najem no mundo das redes sociais é recente. O perfil no Twitter foi criado em dezembro, assim como sua página no Facebook que, na manhã desta quinta-feira (22), estava fora do ar, o que sugere que ela possa ter sido removida. Seus vídeos também são publicados em um canal no YouTube. Não foi possível verificar a autenticidade dos vídeos de uma forma independente. Também não há informações sobre as origens de algumas fotos exibidas em seu perfil.

A intenção do jovem parecia ser clara desde o início. Logo em seu primeiro tuíte em vídeo, em 7 de dezembro de 2017, Najem se apresenta e escreve em inglês que irá "transmitir todos os eventos que estão sendo cometidos pelo regime de Assad em Ghouta através do meu Facebook e Twitter".

Em alguns vídeos ele tem a ajuda de alguém não identificado que segura a câmera. Nesse material, Najem adota uma postura de repórter relatando os fatos. Em entrevista a rede CNN, Najem disse que sonha em ser um jornalista.

Em outros momentos, Najem adota um tom mais pessoal. Em um post publicado em 8 de fevereiro, o jovem relata a morte de um amigo. "Ontem nós fomos brincar juntos em um abrigo subterrâneo. Hoje, meu amigo e sua família foram mortos por um ataque aéreo. Ele e sua família foram incapazes de sobreviver sob os escombros do prédio de quatro andares perto da minha casa poucas horas atrás".

Em seus posts, Najem também não teme denunciar quem ele acredita ser os responsáveis pela destruição em Ghouta: Bashar al-Assad, ditador da Síria, Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Ali Khamenei, aiatolá do Irã. Russos e iranianos são aliados de Assad no combate aos oponentes do regime sírio.

Ghouta é um distrito agrícola densamente povoado nos arredores de Damasco e é a última grande área próxima da capital ainda sob controle rebelde. Lar de 400 mil pessoas, a área está sendo assolada por forças do governo há anos. Com um triunfo militar em Ghouta, Assad consolidaria novamente seu poder, especialmente em torno da capital, Damasco.

síria ghouta ataque - Twitter/ @muhammadnajem20 - Twitter/ @muhammadnajem20
O adolescente Muhammad Najem publica foto no Twitter de local atingido por ataque em Ghouta
Imagem: Twitter/ @muhammadnajem20

A grande escalada nos bombardeios que é vista desde domingo, incluindo ataques aéreos, com foguetes e bombas-barril lançadas de helicópteros, se tornou uma das mais mortíferas da guerra civil da Síria, agora entrando em seu oitavo ano.

O regime sírio voltou a atacar intensamente nesta quinta-feira (22) em prosseguimento aos bombardeios que desde domingo mataram mais de 300 civis, incluindo várias crianças. Apesar dos diversos apelos por um cessar-fogo, o governo prosseguiu com os bombardeios preparatórios para uma ofensiva terrestre contra a área rebelde.

O governo sírio e sua aliada Rússia, que vem apoiando o presidente sírio com seu poderio aéreo desde 2015, dizem que não visam civis, mas reagem a disparos de morteiros dos insurgentes perto de Damasco.

Agora, Assad parece estar prestes a obter outro triunfo militar. Tal impressão é compartilhada por vários países do Ocidente, segundo a ativista síria de direitos humanos Suhair Atassi. "Disseram-nos com muita clareza que nós, como oposição, estaríamos fora do jogo se não reconhecêssemos que Assad permanece no poder", disse Atassi ao jornal americano The New York Times.

Ela tem a impressão de que o Ocidente quer deixar o problema sírio para a Rússia resolver, e, por isso, estaria disposto a aceitar o modus operandi de Moscou na Síria. No entanto, justamente isso pode se tornar um problema para Assad no longo prazo. Moscou e Teerã não apoiam o presidente sírio por pura amizade. Para eles, a permanência de Assad no poder é a maneira mais fácil de fazer valer seus respectivos interesses na Síria.

"Atualmente, Irã e Rússia deixam Assad trabalhar para si, porque ele ainda não os decepcionou", escreveu a ativista síria Malak Chabkoun no site da emissora Al Jazeera. "Assad personifica um provérbio árabe: alguém lhe diz que ele deve ir para a esquerda, então ele faz. Se pedirem para ele ir para a direita, ele obedece."

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