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Transporte caro ou dias a pé: como é a travessia dos venezuelanos para viver no Brasil

Venezuelanos caminham pela rodovia BR-174 que liga a cidade de Boa Vista, Roraima, até fronteira com a Venezuela - Fábio Gonçalves/Foto Arena/Estadão Conteúdo
Venezuelanos caminham pela rodovia BR-174 que liga a cidade de Boa Vista, Roraima, até fronteira com a Venezuela Imagem: Fábio Gonçalves/Foto Arena/Estadão Conteúdo

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

26/02/2018 04h00

Para os venezuelanos que tentam fugir da crise e da miséria que atinge o seu país, chegar até Pacaraima, em Roraima, é só parte da dificuldade. A cidade é o único ponto de entrada oficial entre o Brasil e a Venezuela, e quem consegue chegar até a fronteira precisa enfrentar longas filas e conseguir o transporte até Boa Vista, a 215 km dali.

Com a viagem cada vez mais cara por conta da inflação venezuelana, há quem faça o trajeto a pé até a capital de Roraima, onde milhares de venezuelanos vivem hoje, em busca de trabalho e de uma vida melhor.

A rota venezuelana até Pacaraima não é nova. A estrada é a mesma usada por brasileiros que buscam ecoturismo na Grande Savana ou que dirigem até o Caribe venezuelano. O trajeto também era feito pelos garimpeiros em busca de ouro venezuelano na região de El Dorado.

De Caracas até Santa Elena de Uairén, na fronteira, há uma longa viagem de 1.300 km. A travessia chega a durar 24h de ônibus. Muitos a enfrentam também de carro, seja próprio ou fretado.

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Santa Elena de Uairén fica a 15 km de Pacaraima, e os venezuelanos usam táxis coletivos que, por conta do baixo preço do combustível na Venezuela, cobram cerca de R$ 5 pelo trajeto até o posto da PF, onde é feita o ingresso legal no Brasil.

O valor pode parecer baixo para os brasileiros, mas o salário mínimo venezuelano é de 248.510 bolívares, o que, no câmbio paralelo de dólar, equivale a pouco mais de R$ 9. Enfrentando uma grave situação econômica, cada vez mais venezuelanos fazem esta rota caminhando.

Pacaraima teve 70 mil entradas no ano passado

A fronteira entre Brasil e Venezuela é "seca", demarcada de forma muito simples --quando é demarcada. Por conta do acordo do Mercosul, mesmo com a Venezuela suspensa do bloco, os cidadãos do país vizinho só precisam apresentar um documento de identificação válido e em bom estado (da mesma forma que brasileiros entram na Argentina, no Paraguai e no Uruguai, por exemplo.

Pacaraima tem o único posto oficial da fronteira com a Venezuela em Roraima. Em 2017, foram registradas as entradas de mais de 70,7 mil venezuelanas somente por via terrestre ali, segundo a Polícia Federal. No mesmo período, a PF contabilizou 28,9 mil saídas de venezuelanos por via terra a partir de Roraima.

Os números não apontam a quantidade de venezuelanos no país, um mesmo venezuelano pode ter entrado e saído mais de uma vez no país. No entanto, os dados apontam o aumento do fluxo de entrada na região.

A prefeitura de Boa Vista diz que mais de 40 mil venezuelanos vivem na cidade atualmente. Segundo o IBGE, Boa Vista tinha 332 mil moradores --sem levar em conta os novos moradores venezuelanos.

Movimentação na fronteira entre a Venezuela e o Brasil a partir do lado brasileiro da fronteira em Pacaraima (RR) - Bruno Santos/ Folhapress - Bruno Santos/ Folhapress
Movimentação na fronteira entre a Venezuela e o Brasil a partir do lado brasileiro da fronteira em Pacaraima (RR)
Imagem: Bruno Santos/ Folhapress

A fila para passar pelos agentes da Polícia Federal chega a acumular 700 pessoas por dia. Quem não se pode ou não quer fazer os procedimentos regulares, acaba optando por rotas ilegais --segundo especialistas na questão imigratória de Roraima ouvidos pelo UOL, uma minoria opta pela entrada ilegal, já que os venezuelanos precisam da permissão de entrada para solicitar refúgio no Brasil.

Depois que dão entrada no pedido de refúgio, podem permanecer legalmente no país por um ano, prazo dado pelo governo para responder ao processo, e tirar a carteira de trabalho.

"Existe uma trilha em que eles podem entrar por Pacaraima sem passar pela PF, com cerca de dois ou três quilômetros e que acaba depois de um posto da Polícia Militar da cidade, onde eles também precisariam se identificar”, explica o professor da UFRR (Universidade Federal de Roraima), José Carlos Franco de Lima, que coordena grupos e projetos de apoio aos venezuelanos.

"Pense numa moça nos seus 20 anos, com um filho pequeno, que vem de Caracas e chega no fim da tarde na fronteira, e encontra uma fila imensa e ela se sente insegura de dormir ali. O que ela faz? Passa ilegalmente para Pacaraima e pega um táxi. Mas ela ainda passará pelo posto de fiscalização da PM", diz.

Imagem de trecho da rota de travessia ilegal entre Brasil e Venezuela - Bruno Santos/ Folhapress - Bruno Santos/ Folhapress
Imagem de trecho da rota de travessia ilegal entre Brasil e Venezuela
Imagem: Bruno Santos/ Folhapress

"Os venezuelanos não precisam entrar de forma ilegal. Ter a permissão de entrada facilita a entrevista de pedido de refúgio e, mesmo que sejam parados por autoridades com uma permissão vencida, o tratamento dado é diferente, já que eles entraram de forma regular e estão irregulares no país", afirma Franco.

Quem não tem documentação também costuma usar a rota ilegal. "A Venezuela hoje tem um problema grave de emissão de documentos, seja porque faltam condições, material, seja por corrupção, então muitas pessoas não têm os documentos originais. Imagine viajar mais de mil quilômetros, chegar próximo do seu destino final e alguém dizer que você não pode entrar. Esta pessoa se desespera. E aí ela tem a possibilidade de entrar por outro lugar e entra", diz Francilene dos Santos Rodrigues, especialista do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras da UFRR.

Uma pequena fortuna até Boa Vista

Pacaraima, uma pequena cidade com 12 mil habitantes, é só a porta de entrada no país. Os venezuelanos precisam chegar até Boa Vista, capital do Estado, para ter alguma chance de conseguir emprego e moradia. Um ônibus faz o trajeto entre Pacaraima e Boa Vista, e a passagem, muito disputada, custa R$ 30, praticamente três vezes o salário mínimo venezuelano.

A opção mais comum --e mais cara-- para chegar até Boa Vista são os táxis compartilhados. Eles fazem o trajeto por um valor entre R$ 50 e R$ 60. Antes, o preço girava em torno de R$ 35. São táxis regularizados, de cooperativa, que funcionam no esquema de lotação, levando até quatro pessoas. Até conseguir o dinheiro para a viagem, muitos acabam ficando por Pacaraima, no abrigo superlotado da cidade ou em situação de rua.

27.dez.2016 -Taxista brasileiro que faz a travessia entre Pacaraima (RR) e a Venezuela - Bruno Santos/Folhapress - Bruno Santos/Folhapress
Taxista brasileiro que faz a travessia entre Pacaraima (RR) e Boa Vista
Imagem: Bruno Santos/Folhapress

Com o valor da viagem cada vez mais alto, os venezuelanos passaram a fazer o trajeto entre Pacaraima e Boa Vista a pé. São mais de 200 km caminhando pelo asfalto da rodovia BR-174, em meio ao cerrado --com um trecho muito pequeno de mata e sombra--, em um calor que chega a 45º C.

No caminho, pedem carona, e tentam conseguir comida e água com as comunidades indígenas da região. Dependendo da quantidade de bagagem ou do número de pessoas que caminham (se o grupo tem crianças, por exemplo), a viagem pode durar até cinco dias.

A gente vê grupos de pessoas na estrada, e muitas vezes estão totalmente despreparados, sem nenhuma informação da distância entre Pacaraima e Boa Vista, por exemplo. Não sabem que são mais de 200 km."

Francilene dos Santos Rodrigues, pesquisadora da UFRR

Com facilidade de entrada na fronteira, muitos venezuelanos preferem o destino brasileiro à Colômbia, país mais próximo dos grandes centros urbanos da Venezuela. "Pelo Brasil, entram principalmente as famílias e pessoas que tem contatos com parentes e amigos no nosso país", diz.

Muitas vezes, explica a pesquisadora, o destino final dessas pessoas são, na verdade, países como Argentina, Uruguai, Peru e Chile, por contatos ou por conta do idioma em comum, o espanhol.

Mesmo que apenas de passagem, o grande aumento de fluxo em um Estado de pouca população (menos de 500 mil) causa fortes impactos. O número de atendimentos médicos a venezuelanos na rede pública, por exemplo, cresceu de pouco mais de 700, em 2014, para 18 mil em 2017.

Diante disso, Roraima pediu ajuda financeira e ações do governo federal para lidar com a situação. Entre as ações tomadas com o decreto de "emergência social" está o envio de militares para a região, a construção de dois abrigos e o envio de suprimentos para o sistema de saúde.