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Raio sozinho não derruba ponte, dizem professores de engenharia sobre acidente na Itália

Fernando Cymbaluk

do UOL, em São Paulo

14/08/2018 12h55Atualizada em 15/08/2018 10h03

Um raio por si só não poderia ser a causa da queda da ponte em Gênova, na Itália, que deixou dezenas de mortos e feridos nesta terça-feira (14). Especialistas consultados pelo UOL afirmam que o peso sobre a estrutura e problemas que possam ter surgido com o passar dos anos, combinados com a ação de ventos e tempestades, teriam o potencial de provocar a queda.

O viaduto foi construído entre 1963 e 1967 e passou por uma reforma há dois anos. Quando ocorreu o desabamento, um temporal atingia a cidade. Em um relato à agência Ansa, uma testemunha afirma ter visto um relâmpago tocar a ponte.

"A princípio, não vejo como um relâmpago faça cair uma ponte. A queda deve estar mais relacionada com as cargas [sobre a ponte]", afirma Sander Cardoso, professor do curso de Engenharia Civil do Instituto Mauá de Tecnologia. "Talvez um cabo tenha se rompido com a condição de carregamento e associado ao relâmpago, mas um relâmpago por si só, não [causa a queda]", completa.

Paulo de Mattos Pimenta, chefe de departamento de engenharia de estruturas da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), faz a mesma avaliação. "Muito difícil [ser a causa única]. O raio pode ter contribuído no limite, ter sido a gota d'água", afirma. 

A plataforma da ponte por onde passam os carros é sustentada por cabos revestidos de de material como concreto e presos a mastros de quase 100 metros de altura. Apesar da pista possuir extensão de 1 km, os vãos entre os mastros são menores, com cerca de 100 metros. De cada pilar partem apenas um par de cabos para cada lado -- diferente das pontes que possuem vários cabos segurando a plataforma, como a ponte estaiada de São Paulo.

A existência de apenas um par de cabos de sustentação em cada ponta dos vãos era comum em pontes estaiadas mais antigas, explica Pimenta. "Em uma ponte dessas, a ruptura de um cabo por fadiga ou corrosão leva à queda", afirma. Ele diz que pontes com vários cabos são mais seguras, já que a ruptura de apenas um cabo não levaria necessariamente à queda.

O rompimento da fundação do mastro seria outro motivo que faria a ponte cair. "Mas é difícil apontar causas da queda [da ponte italiana] sem mais dados", afirma Pimenta.  

Pontes possuem proteção contra raios

Para um raio romper o cabo de sustentação de uma ponte estaiada ele precisaria driblar diversas proteções. "Essas pontes costumam ter para-raios nos mastros. E o cabo é isolado dentro de uma capa. O raio não acharia o cabo", explica Pimenta. Segundo ele, os cabos de pontes estaiadas são revestidos por concreto, aço ou plástico. 

Além disso, os engenheiros levavam em consideração os impactos de condições adversas como fortes ventos e tempestades, além da carga a ser suportada, na construção da ponte, explica Cardoso. "A ponte é projetada para suportar esses tipos de situações", afirma. 

O que toda ponte e viaduto precisa -- e ainda mais pontes sustentadas por cabos -- é de supervisão e manutenção contínua. Para Pimenta, o correto é realizar inspeções a pelo menos cada 3 anos. Em 2016, a ponte italiana passou por reformas. 

Raio causaria impacto igual ao de um caminhão

A energia média de um raio é 300 kWh -- ou 1 bilhão de joules. Trata-se de um número bastante grande. Contudo, apenas 1% da energia de um raio atinge o objeto tocado por ele. O restante se dissipa no ar, na forma de trovão, ou se perde na forma de energia magnética e energia térmica. Cerca de 95% vira trovão (deslocamento de ar).

O 1% da energia do raio que impactaria a ponte não teria tanto poder destrutivo. "Comparando, seria equivalente à colisão de um caminhão de 45 toneladas a 70 km/h", afirma Wilson Namen, físico do grupo Ciência em Show. Por ser uma estrutura na qual circulam veículos de diferentes pesos e em diferentes velocidades, as pontes são projetadas para aguentarem o impacto de colisões.

Vídeo mostra momento em que trecho desaba

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