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Para professores, crise na Bolívia não é por 'centavos': é por política

REUTERS/Carlos Garcia
Imagem: REUTERS/Carlos Garcia

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

12/11/2019 04h01

Resumo da notícia

  • Tensão cresceu na Bolívia desde 20 de outubro
  • Evo Morales, presidente desde 2006, ganhou mais uma eleição
  • Oposição e OEA falam em fraude e pressionaram governo
  • Evo acusou oposição de golpe e renunciou
  • Diferente de outros países em convulsão, Bolívia passa por boa fase econômica

Em meio à crise que atinge a Bolívia, o presidente Evo Morales anunciou domingo (10) renúncia ao cargo. O boliviano da etnia aimará, que estava há 14 anos no poder, era alvo de protestos por acusação de fraude eleitoral.

O episódio se soma a uma série de turbulências pelas quais diversos países da América Latina vêm passando nos últimos meses: desde janeiro, Chile, Equador e Venezuela tiveram as ruas tomadas por protestos que, muitas vezes, tiveram confrontos e violência.

Mas, segundo especialistas ouvidos pelo UOL, enquanto a crise nesses países foi causada majoritariamente por fatores econômicos, na Bolívia a instabilidade está muito mais ligada à política.

A Bolívia é, há anos, um dos países que mais cresce e reduz pobreza na América Latina e especialistas chegaram a falar em "milagre econômico boliviano" — situação distinta à dos demais países sul-americanos em crise.

"São cenários e movimentos muito diferentes", afirma Paulo Velasco, professor de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

"O que vemos na Bolívia não tem a ver com o que vimos há algumas semanas, por exemplo, no Equador. Não tem nada a ver com o que estamos vendo no Chile já há algumas semanas também. E não se confunde em nada com o caos venezuelano", diz.

"A particularidade da Bolívia é que o país não teve a queda de desempenho econômico que o resto da região teve [na última década]", concorda Daniela Campello, professora da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Segundo ela, a Bolívia vem sentindo uma queda no preço do gás natural —um dos principais produtos exportados pelo país—, mas isso aconteceu depois do que foi visto nos demais países da região, onde as taxas de crescimento caíram "barbaramente" nos últimos anos.

Se economia vai bem, por que Bolívia tem protestos?

Por outro lado, os especialistas apontam uma sucessão de problemas nas movimentações políticas do país que explicam o caos por que a Bolívia passa agora.

A candidatura de Morales ao quarto mandato, mesmo após um plebiscito indicar a discordância da população, para Campello, foi o pontapé inicial.

"Apesar de todos os benefícios que foram trazidos pelo governo do Evo Morales serem incontestáveis, [o primeiro erro] foi a tentativa de tentar permanecer no poder, principalmente depois de ser feito um referendo e as pessoas terem dito não. Isso é um problema", afirma.

O processo eleitoral que aconteceu em seguida —e que deu a vitória a Morales em primeiro turno— foi marcado por denúncias de fraude pela oposição. Do outro lado, o presidente passou a denunciar um "golpe de Estado em curso".

A situação se agravou com uma série de protestos pelas ruas. No fim de semana, em meio a uma escalada de violência, sedes de prefeituras e tribunais foram atacados. Casas de familiares de Morales foram incendiadas.

Ontem, o presidente aceitou a realização de novas eleições, mas horas depois as Forças Armadas pediram a sua renúncia.

"Vimos ali um presidente sendo levado à renúncia por pressão das manifestações sociais, conduzidas por comitês cívicos, e por uma 'sugestão' das Forças Armadas", diz Velasco.

"Muito embora a solução que possa vir a ser dada seja uma constitucional, o que vimos ontem foi certamente uma ruptura da ordem democrática institucional a partir do momento em que o Morales se vê obrigado a renunciar", afirma.

Especialistas negam risco de "contaminação"

Apesar da instabilidade que atinge diferentes países da América Latina, os especialistas dizem não ver risco de uma possível "contaminação" desse cenário no Brasil.

"Se houvesse alguma unidade, alguma coesão em termos ideológicos, partidários, nesses movimentos todos, poderíamos pensar em um efeito dominó", diz Velasco.

"Mas não temos por que temer qualquer risco de contaminação porque não são cenários semelhantes. O que temos visto no entorno não se confunde com o que há no Brasil e também não há nenhuma semelhança entre esses movimentos nos países vizinhos", afirma.

"A ideia de que existe uma conspiração, um levante ou algo parecido, como vem sendo falando reiteradamente aqui no Brasil, acredito que seja algo completamente deslocado da realidade", concorda Campello.

Por outro lado, os especialistas destacam que o momento deve ser de cautela nas declarações por parte do governo brasileiro.

"O Brasil tem que prestar atenção no sentido de evitar declarações de integrantes do governo, ou de parlamentares, que apontem algum tipo de agravo ou de ataque à ordem democrática", afirma Velasco.

"É um cuidado que temos que ter. De não se deixar levar por uma retórica míope, como por exemplo ficar fazendo referência ao AI-5. Porque isso, sim, pode incitar algum tipo de reação popular", pontua.

"A minha maior preocupação é que o governo brasileiro, sobretudo, mantenha a tranquilidade e não se envolva nesse processo. As radicalizações que vêm acontecendo vêm do governo brasileiro, e não de fora", afirma Campello.

Ao comentar a renúncia de Morales em entrevista ao jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse que "a palavra golpe é usada muito quando a esquerda perde".

Nas redes sociais, o presidente também publicou uma foto do dia em que tomou posse, ao lado de sua mulher, Michelle Bolsonaro, com a legenda "grande dia".

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