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Chile sondou inteligência brasileira para achar origem de protestos em 2019

11.mai.2016 - O Chile viveu mais um dia de protestos de estudantes na capital Santiago. Novamente, manifestantes entraram em confronto com a polícia local, que tentou reprimir os atos. Os estudantes pedem uma reforma no sistema educacional - Ivan Alvarado/Reuters
11.mai.2016 - O Chile viveu mais um dia de protestos de estudantes na capital Santiago. Novamente, manifestantes entraram em confronto com a polícia local, que tentou reprimir os atos. Os estudantes pedem uma reforma no sistema educacional Imagem: Ivan Alvarado/Reuters

Chico Alves e Jamil Chade

Colabração para o UOL, no Rio e em Genebra (Suíça)

08/10/2020 04h01

Perplexos diante do crescimento da onda de protestos que tomou as ruas de Santiago e começava a se espalhar para outras cidades, em outubro de 2019, integrantes das Forças Armadas do Chile tentaram traçar uma estratégia de ação usando o serviço de inteligência. Desolados, chegaram à conclusão que o aparato de monitoramento estatal era insuficiente para responder a uma pergunta crucial: havia influência externa por trás do movimento?

Enquanto as ruas da capital chilena se transformavam em praça de guerra, com a polícia reprimindo violentamente aqueles que se manifestavam contra o presidente Sebastián Piñera, a cúpula militar resolveu pedir ajuda ao Brasil.

Usando o bom relacionamento dos governos, os oficiais decidiram solicitar que o país amigo ativasse a sua inteligência militar para tentar identificar se organismos estrangeiros estariam incitando os protestos.

Assim foi feito. Uma consulta informal chegou à àrea estratégica do governo Jair Bolsonaro. Em reunião reservada, militares chilenos reclamaram que os governos civis desmontaram o aparato de inteligência estatal.

Militares brasileiros cogitaram que a Open Society, fundação do bilionário húngaro George Soros, ou o Foro de São Paulo, organização de partidos de esquerda da América Latina, poderiam estar incentivando os protestos em Santiago.

A questão foi logo em seguida encaminhada para o Centro de Inteligência do Exército, que a partir dali deveria se incumbir do assunto. Segundo apurou o UOL, o presidente Bolsonaro não chegou a ficar sabendo da consulta, que acabou sendo tratada entre os militares dos dois países.

A informação foi passada ao UOL em condição de anonimato por uma alta fonte que participou da reunião secreta.

À época, Bolsonaro criticou protestos e os classificou como "atos terroristas"

Naquele mesmo mês, contudo, Bolsonaro comentou os protestos durante a viagem que fez à China. "Praticamente todos os países da América do Sul tiveram problemas", disse o presidente. "O do Chile foi gravíssimo. Aquilo não é manifestação, nem reivindicação. Aquilo são atos terroristas".

O presidente deu, na ocasião, um alerta às Forças Armadas, ainda se baseando em interpretação da Constituição que o Supremo Tribunal Federal derrubou. "Tenho conversado com a Defesa nesse sentido. A tropa tem que estar preparada porque ao ser acionada por um dos três Poderes, de acordo com o artigo 142, estarmos em condição de fazer manutenção da lei e da ordem", comentou ele, sobre a possibilidade de a turbulência chegar ao Brasil.

Uma nota da Organização dos Estados Americanos (OEA) chegou a culpar Venezuela e Cuba por tentar desestabilizar os países da América do Sul.

Além disso, fontes da diplomacia chilena confirmaram que, no momento dos protestos, o governo de Piñera se deparou com uma crise interna importante: a revelação da incapacidade de seus serviços de inteligência para detectar tendências e informações sobre os próximos passos dos manifestantes, além dos problemas de despreparo da polícia.

Aproximação entre Brasil e Chile

Nos meses que se seguiram à crise, o governo chileno foi em busca de acordos com governos europeus para treinar seus policiais.

O gesto específico do Chile em relação ao Brasil não ocorreu por acaso. Bolsonaro optou por Santiago como sua primeira viagem internacional de seu mandato, rompendo uma longa tradição da diplomacia presidencial do país de reservar Buenos Aires como o primeiro destino de todos os chefes de Estado da democracia.

No Chile, a iniciativa do presidente brasileiro foi considerada como um sinal verde para ampliar o diálogo bilateral, inclusive por canais informais.

De acordo com fontes de alto escalão no Chile, a aproximação estratégica ainda era facilitada por conta da existência de uma base que havia sido estabelecida nos últimos meses do governo de Michel Temer. Em agosto de 2018, foi realizada a primeira reunião do Diálogo Político-Militar Brasil-Chile, que foi batizado de "Mecanismo 2 + 2".

Encontro oficial debateu assuntos estratégicos

No dia 9 de agosto daquele ano, por exemplo, os ministros de Relações Exteriores e de Defesa dos dois países promoveram um encontro em Brasília. Além dos chefes das pastas, o encontro contou com militares responsáveis por temas estratégicos.

"O diálogo político-militar, no formato 2+2, entre Brasil e Chile desempenha um papel fundamental no aprofundamento do diálogo político e de defesa bilateral", disse um comunicado chileno na época. "O mecanismo visa promover o intercâmbio de perspectivas estratégicas e de segurança internacional, bem como a inserção dos países nas esferas regional e global", destacou.

Entre os temas que entraram na agenda estavam questões como as operações de manutenção da paz, o papel das instituições de defesa interamericanas, os desafios regionais, a cibernética, a ciência e a tecnologia e a base industrial de defesa.

Além do Mecanismo 2+2, também existe um Grupo de Trabalho Bilateral de Defesa com o Chile e a reunião entre Chefes de Estado-Maior da Defesa.

Os ministros ainda assinaram o Protocolo sobre Intercâmbio de Dados e Serviços de Catalogação de Defesa, um complemento ao Acordo de 2009 entre Brasil e Chile sobre Cooperação em Matéria de Defesa.

"O objetivo deste protocolo é estabelecer um mecanismo de cooperação entre ambos os países para a catalogação dos itens de fornecimento, de acordo com as regras estabelecidas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)", indicou a nota do governo chileno.

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