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Líderes da Universal são indiciados por lavagem de dinheiro em Angola

O bispo Honorilton Gonçalves, ex-vice-presidente da Record está entre os quatro bispos da Igreja Universal indiciados - Reprodução YouTube
O bispo Honorilton Gonçalves, ex-vice-presidente da Record está entre os quatro bispos da Igreja Universal indiciados Imagem: Reprodução YouTube

Gilberto Nascimento

Colaboração para o UOL, de São Paulo

11/05/2021 04h00

Quatro líderes da Igreja Universal do Reino de Deus - entre eles o bispo Honorilton Gonçalves, ex-homem forte da TV Record no Brasil e pessoa de confiança do bispo Edir Macedo - foram acusados e indiciados pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) de Angola por lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Figuram como réus "não presos" no processo-crime, além de Gonçalves, o bispo angolano Antonio Pedro Correia da Silva, ex-presidente da igreja no país, e os pastores Valdir de Sousa dos Santos e Fernando Henriques Teixeira, ambos brasileiros. Teixeira é ex-diretor da TV Record África.

O UOL questionou na manhã desta segunda-feira (10) a assessoria de imprensa da Universal sobre os indiciamentos, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Se houver resposta, o posicionamento será incluído.

Atividades suspensas

A Record teve suas atividades suspensas em Angola no dia 19 de abril, e a razão apontada foi o fato de a emissora ser dirigida no país por um estrangeiro - o próprio Fernando Teixeira -, quando a lei local exige que a função seja exercida por um angolano.

O processo-crime contra os quatro representantes da Universal foi encaminhado à Justiça para "ulteriores termos processuais", segundo o Serviço de Investigação Criminal. Ele reúne cinco volumes, com 13 anexos.

A "instrução preparatória dos autos", segundo as autoridades angolanas, seguiu dentro do prazo previsto por lei e foi remetida ao Ministério Público angolano e ao SIC, para, em seguida, ir à Justiça.

O órgão de investigação informou ter recebido, no dia 3 de dezembro de 2019, várias denúncias contra membros da ala brasileira da Universal do Reino de Deus, subscritas por mais de 300 membros da instituição, incluindo bispos e pastores.

Rompimento

A maioria dos religiosos angolanos da Universal decidiu romper definitivamente com a direção brasileira, comandada por Edir Macedo. Em junho do ano passado, o grupo assumiu o controle da quase totalidade dos 400 templos da igreja no país.

O bispo Felner Batalha, porta-voz da chamada Reforma angolana, chegou a enviar uma carta a Edir Macedo relatando os problemas da igreja no país e pedindo providências. Disse não ter recebido resposta.

Na Justiça, os novos líderes da Universal acusaram a direção brasileira da igreja de vários crimes, entre eles racismo, fraudes, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, expatriação de capitais e imposição de vasectomia aos pastores.

Líder da Universal em Angola

Agora réu, Honorilton Gonçalves era, até a ruptura com os religiosos locais, o principal dirigente da Universal em Angola, embora não no papel, pois o cargo de presidente da igreja também só poderia ser ocupado por um angolano.

Então alvo de investigações, Gonçalves teria tentado fugir do país, no início de setembro do ano passado, em um voo humanitário da companhia aérea TAAG (Transportes Aéreos Angolanos), mas foi impedido por autoridades migratórias, segundo a imprensa estatal daquele país. A assessoria da Universal no Brasil negou a informação. O bispo havia atuado antes em Moçambique, onde também enfrentou problemas com autoridades locais.

Gonçalves foi vice-presidente artístico da Record no Brasil até 2013. Era, à época, quem controlava de fato a emissora. Teve problemas com funcionários e passou a enfrentar pressões internas para deixar o cargo. Também havia adotado uma política de cortes de gastos e não vinha conseguindo bons índices de audiência. Acabou transferido para a igreja em Salvador e, daí, para a África.

Pedido de ajuda a Bolsonaro

A acusação na Justiça contra os quatro líderes da Universal é mais um round perdido na batalha da ala brasileira da igreja contra os religiosos locais. Além do processo-crime e da suspensão das atividades na Record no país, 51 missionários brasileiros da igreja foram comunicados pelo Serviço de Migração e Estrangeiros, no início de abril, de que deveriam deixar Angola o mais rápido possível.

Os vistos dos religiosos brasileiros, ao vencerem, não deverão ser renovados, segundo o governo angolano. Esses membros da igreja, entre eles bispos e pastores, teriam sido orientados pela direção brasileira a resistir à ameaça do governo. "Não temos provas. Mas eles teriam recebido essa orientação dos superiores brasileiros, segundo ouvimos por aqui", comentou o bispo Felner Batalha.

Na disputa com os angolanos, Edir Macedo buscou até a ajuda de Jair Bolsonaro. Pediu ao presidente da República para tentar interceder junto às autoridades de Angola. Bolsonaro enviou uma carta ao colega João Lourenço reivindicando um "tratamento adequado" aos brasileiros e à Universal. Mas não adiantou. As decisões do governo de Angola têm sido sempre favoráveis aos líderes locais.

A Universal se diz vítima de "um golpe religioso", e acusa os novos líderes angolanos de serem "ex-pastores e bispos dissidentes afastados por envolvimento em denúncias e irregularidades", como "roubo, extorsão, adultério e até atentado contra menor de idade". Para a direção brasileira, também estariam por trás desse movimento pessoas com supostos "interesses financeiros, religiosos e até políticos".

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