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Internacional

Perda 'humilhante': sem navio Moskva, Rússia deve se afastar da costa

Do UOL, em São Paulo

18/04/2022 15h19

Um duro golpe para os russos, "um dano que foi mais psicológico do que material". Assim tem sido classificado o naufrágio do cruzador de mísseis Moskva, principal navio da frota russa do mar Negro, depois que foi atingido por uma explosão na quarta-feira (13).

Com 12.500 toneladas, é o maior navio de guerra russo afundado em combate desde a Segunda Guerra Mundial. A embarcação com capacidade para 510 tripulantes era um símbolo do poder militar e liderou a parte naval do ataque russo à Ucrânia.

Embora Vladimir Putin insista em dizer, em várias ocasiões, que sua "operação militar especial" na Ucrânia avança com sucesso, "conforme planejado", "é uma perda simbólica muito grande", disse o almirante francês reformado, Pascal Ausseur, diretor-geral do centro de análise Fundação Mediterrânea de Estudos Estratégicos (FMES).

"É uma embarcação de 12.000 toneladas que afundou em 12 horas [...] Isso não é normal", falou ele à AFP.

Jenny Hill, correspondente da BBC em Moscou, diz que o naufrágio do Moskva é uma perda "significativa e humilhante" para o presidente russo. "O que antes era um símbolo do poder e da ambição da Rússia, agora está no fundo do mar", disse a jornalista.

Mas, para Mykola Bielieskov, do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos da Ucrânia, o dano é "mais psicológico do que material".

"Os navios russos agora serão forçados a se afastar da costa ucraniana, onde não podem mais se sentir seguros", explica ele. Mas o naufrágio "não vai acabar completamente com o bloqueio naval da Rússia à Ucrânia", explicou ele, que assessora o governo ucraniano em estratégia militar.

O Moskva não disparou mísseis contra alvos terrestres ucranianos, porém especialistas militares disseram à BBC que a embarcação forneceu apoio crucial a outras embarcações que fizeram isso.

Ele era o único navio da frota a ter defesas aéreas de longo alcance a bordo, explicou Sidharth Kaushal, especialista em energia marítima do Royal United Services Institute, em Londres.

Com isso, os outros navios da frota russa agora estarão mais vulneráveis a ataques aéreos —embora não esteja claro se as forças da Ucrânia, que sofreram inúmeras baixas desde o início da guerra, têm recursos para tirar proveito da situação.

"O Moskva foi uma pedra no sapato dos ucranianos desde o início desse conflito", disse Michael Petersen, do Instituto Russo de Estudos Marítimos. Por muitos anos, foi um símbolo do poder naval russo no mar Negro.

Coluna de fumaça escura é vista em navio que seria o Moksva - Reproduão/Telegram - Reproduão/Telegram
Coluna de fumaça escura é vista em navio que seria o Moksva
Imagem: Reproduão/Telegram

Com seu armamento, o cruzador protegia integralmente um diâmetro de 150 km a seu redor, explicou Nick Brown, especialista do instituto privado de informação britânico Janes. "Com a Turquia bloqueando os navios russos nos estreitos de Bósforo e Dardanelos, será difícil para a Rússia substituir sua capacidade de defesa aérea", porém, "o restante da frota do mar Negro continua sendo uma força importante."

Sobretudo com as modernas fragatas de tipo Almirante Grigorovich, equipadas com defesas antiaéreas mais avançadas que as do Moskva, apesar de um alcance mais curto, e com mísseis de ataque terrestre Kalibr.

O cruzador da classe Slava era o terceiro maior navio ativo de toda a frota da Rússia e um de seus equipamentos que possuía melhor sistema de defesa, afirmou Jonathan Bentham, especialista naval do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Estava equipado com um sistema de defesa aérea de três camadas que, funcionando corretamente, fornecia três oportunidades de proteção em caso de um ataque de mísseis Neptune.

Além das defesas de médio e curto alcance, ele podia ainda ativar seis sistemas de armas de defesa próxima como último recurso.

"O Moskva deve ter cobertura de defesa antiaérea de 360 graus. O sistema CIWS (Sistema de Armas de Defesa Próxima) pode disparar 5.000 tiros em um minuto, essencialmente criando uma parede de artilharia ao redor do cruzador, sua última linha de defesa", explica Bentham.

Se for comprovado que o ataque veio de um míssil, "levantará questões sobre as capacidades de modernização da frota de superfície russa: se tinha munição suficiente, se tinha problemas de engenharia".

"Essencialmente, em tese, esse sistema de defesa antiaérea de três camadas seria muito difícil de acertar", acrescentou o especialista militar.

Para Maia Otarashvili, do Instituto de Pesquisa de Política Externa (FPRI, na sigla em inglês) em Washington, o envolvimento da marinha russa na guerra era bastante limitado. E agora a Ucrânia pode ter demonstrado que possui capacidades de defesa naval que não foram consideradas por Moscou. "Que tipo de mísseis antinavio a Ucrânia conseguiu recentemente?", ressaltou ele.

"É um mar bastante pequeno, tudo está ao alcance dos mísseis antinavios, e sua detecção é muito simples", acrescentou Ausseur. Por isso, a perda do Moskva "revela uma vulnerabilidade verdadeira" da marinha russa.

Na avaliação do Reino Unido, o naufrágio de Moskva é a segunda perda considerável pela Rússia durante a guerra na Ucrânia, o que pode obrigá-la a "rever sua postura marítima".

A inteligência britânica destaca que, em 24 de março, o navio Saratov, da classe Alligator, também foi inutilizado. O Saratov foi atingido por um grande incêndio e destruído, mas não chegou a afundar.

De acordo com o jornal The New York Times, o naufrágio de Moskva é a perda naval mais importante desde 1982, quando a Argentina afundou o navio militar britânico Sheffield e atingiu outras embarcações na Guerra das Malvinas.

Impacto nuclear

Além da perda política e militar, não foi descartado um possível impacto nuclear.

No Facebook, Andrii Klymenko, gerente de projetos do Instituto de Estudos Estratégicos do Mar Negro, chamou a atenção para a possibilidade de duas ogivas nucleares estarem a bordo do Moskva.

"Isso pode ser novidade para muitos, mas é um navio que carrega armas nucleares", ressaltou.

Klymenko chama a atenção para a necessidade de encontrar as supostas ogivas e entender onde exatamente houve explosão no navio. (Com BBC Brasil e agências internacionais)

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