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Memórias de Mandela

Do ?New York Times?

06/12/2013 14h26

Ex-correspondentes do “New York Times” na África escreveram sobre suas lembranças em relação ao ex-presidente sul-africano Nelson Mandela. Veja a seguir.

Qual lição Nelson Mandela deixa para você?

Mandela atrás das grades

Joseph Lelyveld

Os negros que eu conheço que mais sofreram, parecem rir melhor, enquanto os brancos menos sofridos sempre caíam em lamentações de auto-piedade sobre a tragédia de seu dilema e de como foram gravemente mal interpretados. Winnie Mandela riu quando contou sobre suas visitas a seu marido, com quem ela não tinha tido um momento verdadeiramente privado em vinte e um anos; como em sua última visita quando ele virou de cabeça para baixo do outro lado da janela de acrílico na sala de visitas da prisão, a fim de mostrar-lhe um dedo do pé que tinha sido operado por causa de um sapato apertado. “Eu vi o pé pela primeira vez em 21 anos”, disse ela, rindo.

(Joseph Lelyveld foi correspondente entre 1965-1966 e 1980-1983, e escreveu o relato acima em seu livro “Move Your Shadow: South Africa, Black and White”)

Um ato de bondade em um dia de adulação

John F. Burns

Foi em um fim de tarde de um dia azul-celeste de verão, comum na paisagem verdejante do Cabo Ocidental da África do Sul, durante uma visita de retorno depois de quase um quarto de século, que vislumbrei pela primeira vez Nelson Mandela como um homem livre, caminhando para seu destino através dos portões da prisão de Victor Verster, depois de 27 anos como o prisioneiro político mais famoso do mundo.

O herói africano

  • Prêmio Nobel da Paz por sua luta contra a violência racial na África do Sul, Nelson Mandela - ou Madiba, como é chamado na sua terra natal - passou 27 anos preso e se tornou o primeiro presidente negro daquele país.

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No dia seguinte à sua libertação, quando Mandela se reuniu com centenas de repórteres para sua primeira entrevista coletiva em quase 30 anos no jardim de residência do arcebispo Desmond Tutu, em Bishopscourt, protegida pela montanha Table, sua mensagem de reconciliação encontrou sua expressão mais poderosa.

Sentado debaixo de uma árvore de quinina, contou sobre o que viu ao longo da rodovia após a sua libertação, dizendo que a adulação das multidões foi de “tirar o fôlego”, e acrescentou: “Fiquei absolutamente surpreso. Esperava essa resposta dos negros, mas me surpreendeu o número de brancos que parecia pensar que a mudança era absolutamente necessária”.

No entanto, um ato de particular bondade ficou mais fortemente alojado em minha memória. Com o desenrolar da entrevista coletiva, um repórter branco se aproximou e se identificou como Clarence Keyter, correspondente político da rede estatal de radiodifusão SABC, em africâner. Sentindo o mal-estar do Keyter, Mandela apertou a mão do repórter e agradeceu-lhe, dizendo que, em seus últimos anos na prisão, depois que ganhou um rádio, ele se baseou nas reportagens de Keyter para saber “o que estava acontecendo no país”. Keyter, atordoado, ficou com lágrimas nos olhos.

(John F. Burns foi diretor do escritório de Johannesburgo de 1976 a 1980)

Um herói, em toda parte e em lugar algum

Alan Cowell

Desde o momento da minha chegada à África do Sul, no final de 1983, até a minha partida imposta pelo governo do apartheid, no início de 1987, Nelson Mandela estava em toda parte e em lugar algum: um nome nos lábios dos manifestantes, mas invisível e inaudível, um refrão potente no clamor pela libertação, uma presença escondida em uma remota cela de prisão, âncora de um sonho de liberdade.

Em uma época muito anterior ao YouTube e ao Twitter, o seu compromisso permanente com o que as pessoas chamavam de luta -e sua recusa em diluir ou comprometer os princípios que lhe valeram uma pena de prisão perpétua- ganhou força pelo exemplo e pelo boca-a-boca em anos de protesto e de estado de emergência, em meados da década de 1980, que pressionaram as autoridades brancas para que capitulassem.

Quando finalmente encontrei-me com ele durante uma visita que fez ao Cairo, em maio de 1990, esses temas monumentais pareciam se destilar em uma graciosidade característica.

“Como você está?”, perguntou, como se tivesse passado muito tempo do nosso primeiro encontro. Do meu ponto de vista, não havia tanto tempo: para mim, como para muitos outros, este colosso parecia fazer parte da nossa paisagem moral, e agora um aperto de mão e uma cortesia fizeram do mito um homem, amplificando os dois.

(Alan Cowell foi chefe do escritório de Johannesburgo 1983-1987)

 

Estadista, dândi, sedutor

Suzanne Daley

Nelson Mandela foi um dândi, realmente. Aquelas camisas que ele usava eram feitas de seda. Ele carregava um pente no bolso de trás. E a única vez que cheguei a viajar em sua companhia, ele cuidadosamente penteava os cabelos antes de desembarcar dos aviões e helicópteros para saudar a multidão. O programa que ele manteve naquele dia foi cansativo. Quando ele entrava no avião, a aeromoça o ajudava a tirar os sapatos e a levantar os pés inchados sobre travesseiros. Mas quando a porta se abria, ele estava sorrindo e acenando, disposto até em fazer seu passo de dança característico quando havia música.

A primeira vez que vi Mandela de perto foi no início de meu mandato, quando o editor executivo do “The New York Times” estava em visita ao país.

Quem conversou com ele foi o editor, Joseph Lelyveld, o que pareceu apropriado para mim. Mandela não olhou em minha direção uma única vez, e eu não consegui descobrir uma maneira de entrar na conversa. Eu achei que ele nem tinha me visto. Mas, em seguida, em certa altura, ele se inclinou para Joe e acenou com a cabeça em minha direção, assumindo que éramos um casal, ele disse: “Você sabe, no meu tempo, se você tivesse uma mulher assim, ficaria envergonhado. Na minha época, uma mulher precisava de um pouco mais de carne nos ossos”.

(Suzanne Daley foi diretora do escritório de Johannesburgo de 1995 a 1999)

Um (quase) encontro com Mandela

Donald G. McNeil Jr.

Eu nunca entrevistei Nelson Mandela, mas no final do meu tempo, em Johannesburgo, ele fez uma palestra no jantar anual da Associação de Correspondentes Estrangeiros. No final, todo mundo entrou na fila para apertar sua mão. Normalmente, eu não tento fazer amizade com pessoas importantes -acho que é comprometedor. Mas desta vez eu disse a mim mesmo: “Ah, pelo amor de Deus, Donald, pare de ser tão pedante. É Madiba, ele é um santo vivo, e tem 80 anos. Ele não vai estar por aí por muito tempo. Entre na fila e aperte sua mão”.

Então entrei na fila. Ele veio cumprimentando as pessoas, apertando suas mãos e dizendo algumas palavras -ele era muito caloroso. Ele chegou à pessoa à minha direita. Tentei pensar no que dizer, mas não consegui pensar em nada melhor do que “Prazer em conhecê-lo”. Provavelmente, ele só queria acabar logo e sair daqui, pensei. Foi a minha vez. Ele se virou, olhou por cima do meu ombro -e apenas deslizou para a próxima pessoa, segurando a mão dela entre as suas.


“Você deve ser jogadora de basquete”, disse ele. Eu me virei para olhar e vi que estava ao lado de uma linda mulher, que tinha cerca de 1m90 em seu salto alto.

(Donald G. McNeil Jr. foi correspondente em Johannesburgo de 1995 a 1999)

 

 

O poder de um homem que fala a verdade

Ian Fisher

Eu vou entregar minha história de meu único encontro com Nelson Mandela, contando que a minha esposa estava grávida na época do nosso segundo filho. Nós demos a esta pequena criatura o grande nome de Nelson, e está é a razão. Um grupo de jornalistas estava à espera de Mandela no aeroporto de Arusha, Tanzânia, em 16 de janeiro de 2000. Ele vinha como mediador para acabar com a guerra civil no Burundi. Mandela, mesmo com 81 anos de idade, parecia ser a única pessoa que poderia fazer isso.

Mas o homem que saiu mancando do avião com os pés inchados parecia gasto. Lembro-me até de que seus sapatos estavam desamarrados. Eu odiava pensar isso, mas ele parecia trêmulo, sem foco; em suma, idoso.

Ele entrou no salão de convenções com sua bata dashiki dourada, a tarefa diante de si parecia surreal e insuperável: As facções assassinas tinham enviado seus delegados, de terno, teoricamente para falar de paz.

Mas, por mais fraco que ele parecesse, um Mandela muito diferente assumiu o controle total da sala. Minha pele se arrepiou.

Não me lembro se liguei naquela noite ou disse a minha esposa quando cheguei em casa: se for menino, gostaria de chamá-lo de Nelson.

(Ian Fisher foi diretor do escritório de Nairóbi, Quênia, de 1998 a 2001)

 

Um símbolo vivo e uma presença

Barry Bearak

Ele foi o símbolo vivo da libertação do país, e as pessoas falavam dele como se fosse o avô amado, sempre sentado na cabeceira da mesa de jantar -como se, de alguma forma, ainda estivesse presidindo o futuro.

Senti sua presença pairar mais fortemente em abril de 2009, no dia da eleição. Era uma manhã fria, e eu estava esperando junto com as pessoas que iam votar em Diepsloot, um enorme acampamento de posseiros empobrecidos ao norte de Johannesburgo.

Elas estavam celebrando a sua cidadania com paciência. Muitas tinham entrado na fila de madrugada.

Essas pessoas certamente não estavam votando com o bolso. A maioria era desesperadamente pobre, vivendo em barracos frágeis, sem eletricidade ou água corrente. As perspectivas eram tristes.

Elas queriam mudança. E ainda assim eram orgulhosamente leais ao Congresso Nacional Africano, o mesmo partido político que tinha dirigido o governo conturbado nos 15 anos anteriores. Afinal, era o partido de Nelson Mandela.

(Barry Bearak foi diretor do escritório de Johannesburgo de 2008 a 2011)
 

Tradução: Deborah Weinberg