Famílias de Taiwan recebem cartas de despedida décadas após as execuções

Paul Mozur

Em Taipé (Taiwan)

  • Billy H.C. Kwok/The New York Times

Um mês antes de ser executado, em abril de 1952, Guo Ching escreveu cartas de despedida para sua mãe, mulher e filhos. As cartas só precisavam percorrer 225 quilômetros, mas demoraram 60 anos para serem entregues.

Quando sua filha finalmente recebeu a despedida de seu pai após uma longa negociação com o governo de Taiwan, ela já era uma sexagenária, com o dobro da idade que ele tinha quando morreu.

"Eu chorei muito, porque agora pude ler o que meu pai escreveu", disse a filha, Guo Su-jen. "Se nunca tivesse visto o que escreveu, eu não teria uma ideia dele como uma pessoa viva. Sua carta o tornou vivo de novo. Sem ela, ele viveria apenas na minha imaginação, como eu o imaginava."

As cartas estavam entre as 177 descobertas na última década que foram escritas pelas vítimas da repressão política conhecida como Terror Branco. De 1947 a 1987, dezenas de milhares de taiwaneses foram presos e pelo menos 1.000 foram executados, a maioria no início dos anos 50, após serem acusados de espionar para a China comunista.

Entregues aos familiares apenas nos últimos anos, as cartas perdidas são souvenires dolorosos das décadas de governo autoritário em Taiwan, uma pequena parte da história enterrada em arquivos do governo mal catalogados. Mas a vitória esmagadora da presidente eleita Tsai Ing-wen e seu Partido Progressista Democrático em janeiro poderá em breve trazer muito mais dessa história à tona: em sua campanha, Tsai prometeu fazer mais para expor e corrigir as injustiças do passado autoritário de Taiwan.

Mas as cartas não são apenas provas documentais; elas também são as últimas expressões de amor de além do túmulo. Elas oferecem palavras de conforto a filhos, que cresceram sem conhecer seus pais, e pedidos de desculpas a esposas, que criariam seus filhos sozinhas.

Elas foram descobertas por acaso em 2008, quando uma jovem requisitou informações sobre seu avô no arquivo principal de Taiwan.

Billy H.C. Kwok/The New York Times

Duas semanas após requisitar os registros, a mulher, Chang Yi-lung, recebeu uma pilha de mais de 300 páginas de documentos fotocopiados, a maioria documentos judiciais e decisões. Em meio a aquelas páginas, ela descobriu cartas que seu avô tinha escrito para sua tia, tio e sua mãe, que ainda não tinha nascido quando ele foi morto.

Apesar do governo de Taiwan já ter tratado de alguns dos traumas de seu passado –incluindo a criação de um museu dedicado ao notório massacre de 1947– os pesquisadores dizem que muito menos recursos são dedicados a um levantamento das décadas de repressão política sob o governo do Kuomintang, o Partido Nacionalista Chinês, de Chiang Kai-shek, que governou Taiwan como Estado de partido único de 1945 até a primeira eleição presidencial democrática do país em 1996.

Os acadêmicos dizem que pouco se sabe sobre a mecânica da repressão sob o Kuomintang, e que não há um exame meticuloso e transparente dos arquivos. Apesar dos pesquisadores acreditarem que muitos registros foram destruídos, eles também acreditam que outros não vêm à tona por negligência intencional.

"Nós sabemos que existem centenas de milhares de registros aos quais se pode ter acesso, mas não há um esforço sistemático de analisá-los", disse Huang Chang-ling, uma professora de ciência política da Universidade Nacional de Taiwan. "Qual é o percentual que vimos? Pode ser 10% ou 90%. Não tenho ideia e não acho que alguém tenha."

Após receber as cartas fotocopiadas de seu avô, a família de Chang pressionou o governo a devolver as cartas originais. O governo a princípio recuou, argumentando que os documentos pertenciam ao arquivo. Em 2011, com a ajuda da Associação para a Verdade e Reconciliação de Taiwan, elas finalmente foram entregues à família.

Billy H.C. Kwok/The New York Times

A associação, uma organização não-governamental com sede em um prédio sem elevador no centro de Taipé, reúne as cartas e objetos de uso pessoal doados pelos parentes dos executados. Seu presidente-executivo, Yeh Hung-ling, espera que possam algum dia ser exibidos em um museu dedicado ao Terror Branco.

Para Guo, as cartas foram um avanço em uma vida dedicada a reunir pistas sobre o que aconteceu ao seu pai, depois que ele foi levado pela polícia secreta quando ela tinha 3 anos.

Ela disse que sua mãe sempre nutriu raiva por seu pai por ele ter colocado a política à frente de sua família e por colocar tudo em risco ao se juntar a um grupo comunista clandestino.

Em alguns casos, as cartas reabriram debates emocionais. Alguns acadêmicos argumentam que pessoas como o pai de Guo não foram processados de modo injusto, no caso dele por ter se juntado a um grupo comunista em um momento em que o Kuomintang estava saindo de uma guerra de décadas contra o Partido Comunista chinês.

Guo diz que o comunismo dele não tinha conexão com a China e que era uma reação à repressão pelo Kuomintang. De qualquer forma, ela diz, a coisa mais importante é que os documentos sejam catalogados e divulgados.

"Por muito tempo as pessoas permaneceram em silêncio a respeito desse assunto", ela disse. "O quanto regredimos como uma sociedade? Tantas pessoas foram mortas e presas, que efeito isso teve? Essas coisas deveriam estar abertas para discussão."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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