"Desempregados", elefantes de Mianmar ficam nervosos e mais obesos

Thomas Fuller

Em Wa Kalu Pu (Mianmar)

Arrastar troncos de árvores gigantescas para cima e para baixo de morros nas selvas quentes e úmidas é um trabalho duro. Mas há algo pior, segundo os donos de elefantes madeireiros de Mianmar: não ter trabalho.

A redução das florestas e uma lei aprovada há três anos que proíbe a exportação de madeira in natura causaram uma crise de "desemprego" entre os elefantes. Centenas de animais foram aposentados, e muitos não enfrentam bem a situação.

"Eles ficam nervosos com muito mais facilidade", disse U Chit Sein, 64, cujos oito elefantes agora só trabalham durante alguns dias por mês. "Não há trabalho, e eles estão engordando. E os machos só querem fazer sexo o tempo todo."

Os elefantes têm um lugar quase místico em Mianmar, onde vive a maior população de elefantes cativos do mundo. Durante centenas de anos, eles ajudaram a extrair madeiras raras de florestas que nem mesmo máquinas modernas conseguem penetrar.

Hoje o futuro dos cerca de 5.500 paquidermes em cativeiro é uma grande preocupação para as autoridades que os supervisionam.

"O desemprego é algo realmente difícil de enfrentar", disse U Saw Tha Pyae, cujos seis elefantes estão sem trabalho há dois anos. "Não há mais derrubada de árvores porque não há mais árvores."

O principal especialista em elefantes de Mianmar, Daw Khyne U Mar, estima que existam hoje 2.500 elefantes sem serviço, muitos deles aqui nas selvas do leste de Mianmar, a cerca de duas horas e meia da fronteira da Tailândia. Esse número situaria a taxa de desemprego dos elefantes em cerca de 40%, comparada com cerca de 4% da população de Mianmar.

"A maioria desses elefantes não sabe o que fazer", disse Khyne U Mar. "Os proprietários têm grande dificuldade, porque custa caro mantê-los."

Os elefantes adultos, que pesam em média 4.500 kg, consomem 200 kg de comida por dia, e fora dos circos e do carregamento de madeira não têm muitas oportunidades de trabalho.

Carregar troncos é árduo. Mas os especialistas em elefantes dizem que o trabalho duro é um dos motivos pelos quais os elefantes de Mianmar permaneceram relativamente saudáveis. Um estudo de 2008 calculou que os elefantes madeireiros de Mianmar, que têm um regime estrito de trabalho e lazer, vivem duas vezes mais que os elefantes mantidos nos zoológicos da Europa, em média 42 anos, comparados com 19 para os animais de zoológicos.

Alguns elefantes madeireiros vivem muito mais. "Você vê elefantes trabalhadores que vivem até os 50 e 60 anos", disse Joshua Plotnik, um especialista em comportamento de elefantes que vive na Tailândia. "Tudo se resume em alimentação e cuidados adequados."

Os elefantes são conhecidos por demonstrar um senso de objetivo em seu trabalho, dizem os especialistas, e a perda de um "emprego" pode ser desmoralizante.

"Eu não quero antropomorfizar", disse John Edward Roberts, diretor de atividades de elefantes e conservação em um centro de resgate de animais, a Fundação do Elefante Asiático Triângulo Dourado, da Tailândia. "Mas se você retirar essa parte de sua vida, que os diverte e os exercita mental e fisicamente, fica difícil."

Para a maioria das pessoas em Mianmar, as coisas estão melhorando. A economia cresce rapidamente e os cidadãos desfrutam de novas liberdades depois de anos de ditadura brutal. Mas a aurora da democracia aqui significou uma inversão da sorte dos elefantes. Nas últimas décadas, quando a população de Mianmar sofria sob a ditadura, a vida era muito menos dura para esses animais.

Os governos militares mantinham um rígido código de trabalho para eles, com base nos tempos coloniais britânicos: aposentadoria aos 55 anos, licença-maternidade obrigatória, férias de verão e bom tratamento médico. Ainda há campos de maternidade de elefantes e comunidades de aposentadoria dirigidas pelo governo. Em um país onde não havia as proteções sociais mais básicas durante os anos da ditadura, as leis trabalhistas dos elefantes eram amplamente respeitadas, em parte porque um elefante que teve de trabalhar demais é um animal muito perigoso, segundo seus tratadores.

Cada elefante madeireiro tem seu próprio livro de registro, com um histórico médico e de trabalho administrado pela Empresa Madeireira de Mianmar, a estatal conhecida por suas iniciais em inglês, MTE.

"Os elefantes da MTE que eu vi são realmente saudáveis, comparados com os que vivem em outros países", disse a doutora Susan Mikota, diretora de programas e pesquisa veterinária na Elephant Care International, uma instituição beneficente baseada nos EUA e dedicada ao bem-estar dos elefantes. "Eles fazem uma dieta natural, podem buscar suas plantas preferidas. Têm boa condição músculo-esqueletal e fazem bons exercícios."

Georgia Mason, coautora do estudo de 2008, disse que a obesidade parecia ser um grande fator na menor expectativa de vida dos elefantes mantidos em zoológicos. Um estudo posterior mostrou que os bebês elefantes que nascem em zoológicos eram 15% mais pesados que os que nascem em campos de extração de madeira, disse ela.

O número de elefantes sem trabalho provavelmente aumentará conforme as florestas encolhem e a indústria madeireira desaparece, e o governo explora a possibilidade de libertar alguns deles na natureza.

Simon Hedges, o coordenador de elefantes na Sociedade de Conservação da Vida Natural, uma organização de proteção aos animais com sede nos EUA, disse que esta é uma "oportunidade animadora". Mas ele e outros advertiram que há preocupações sobre elefantes cativos disseminarem doenças para as populações selvagens e arrasarem aldeias em busca de comida.

Enquanto aguardam uma solução, os proprietários de elefantes estão enfrentando o desemprego de várias maneiras.
Alguns venderam seus animais para empresários da Tailândia, onde serão utilizados na indústria de turismo, inclusive em shows de elefantes e trilhas pela floresta. Exportar elefantes para a Tailândia é tecnicamente ilegal sem autorização oficial, mas os proprietários dizem que parece estar acontecendo com maior frequência. Mas outros proprietários dizem que não podem suportar a ideia de vendê-los. "Não sei o que eu faria sem meus elefantes", disse Saw Tha Pyae, que, como muitos proprietários, herdou os animais de seus pais. "Mas nunca os venderei, nunca! Eu os amo muito!"

Saw Nang colaborou na reportagem, de Taungoo e Myawaddy (Mianmar).

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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