Abalados por ameaças externas, muitos belgas ainda querem o país dividido em dois

Thomas Erdbrink

Na Antuérpia (Bélgica)

  • Daniel Berehulak/The New York Times)

    "Hooligans" na praça da Bolsa local que se tornou o ponto extraoficial de homenagens às vítimas dos atentados em Bruxelas

    "Hooligans" na praça da Bolsa local que se tornou o ponto extraoficial de homenagens às vítimas dos atentados em Bruxelas

Em geral, Dieter Moyaert e seus amigos apaixonados por futebol gostavam de se reunir no Café Royal, um bar dominado por torcedores fanáticos do Royal Antwerp, para assistir a partidas, tomar muita cerveja e, em alguns casos, uma substância mais forte no banheiro.

Em um desses fins de semana, porém, as coisas foram diferentes. As luzes do estádio eram visíveis à distância e um jogo crucial estava para começar, contra o Lierse. Mas poucas pessoas nesta cidade onde se fala holandês, na região flamenga do país (norte), pareciam realmente entusiasmadas.

Foi logo depois do duplo ataque terrorista em Bruxelas, e os políticos da capital tinham acabado de cancelar uma manifestação de protesto contra o medo, por temerem novos atentados. Isso, ao que parecia, era mais do que Moyaert e outros autodenominados "malucos por futebol" de um grupo conhecido como Antwerp Casuals podia suportar.

Em uma entrevista esta semana, Moyaert disse que chamou os líderes das principais torcidas adversárias e juntos decidiram que no dia da marcha cancelada eles iriam a Bruxelas, a capital belga, onde predomina a língua francesa.

Vestidos de preto, gritando insultos contra o Estado Islâmico, eles chegaram agitando a bandeira --não o leão preto da Flandres, enfatizou Moyaert, mas a bandeira nacional da Bélgica, preta, amarela e vermelha.

"Foi sem precedentes", disse Moyaert. "Nossa mensagem era: 'Se as torcidas podem se unir sob a bandeira nacional, o país inteiro pode'. Pensamos que seríamos recebidos como heróis."

Mas estavam enganados.

Ativistas de esquerda perceberam sua aproximação e começaram a gritar advertências de que os torcedores eram fascistas. Surgiram brigas. A polícia antidistúrbios apareceu. A mídia internacional fez reportagens sobre os torcedores de futebol neonazistas. E mais uma vez a Bélgica, um dos países mais divididos e problemáticos da Europa, parecia uma confusão.

"É difícil unir o país", disse Moyaert. "Mas eu ainda acredito que podemos manter as coisas como estão." Perguntado sobre os outros de seu grupo, ele fez uma pausa. "O que meus amigos pensam? Esqueça, eles só querem a independência."

Os atentados em Bruxelas abalaram a população da Flandres, assim como de outras regiões do país. Mas, semanas depois, muitos aqui estão fazendo perguntas mais profundas: se o governo federal hesitante, dominado pelos franceses, em Bruxelas poderá enfrentar os difíceis desafios da imigração e do terrorismo; ou, em última instância, se a população flamenga não ficaria melhor seguindo seu próprio caminho como país independente, tendo Antuérpia como capital.

Um monumento evidente à independência flamenga, a Torre de Ferro se ergue a mais de 82 m sobre a paisagem plana do oeste da Flandres, na cidade de Diksmuide, e ostenta no alto uma fileira de letras maciças, a abreviatura de "Todos por Flandres -- Flandres por Cristo".

Ela foi construída depois da Segunda Guerra Mundial, no início do movimento nacional flamengo, quando os soldados que voltavam das trincheiras enlameadas e dos campos de batalha cobertos de sangue se recusaram a aceitar a situação anterior à guerra, de predomínio francês.

Em 1946, a torre foi explodida por desconhecidos, mas muitos suspeitaram de grupos de língua francesa. Uma torre ainda mais alta foi imediatamente construída em seu lugar, mas a pressão pelo separatismo flamengo diminuiu aos poucos.

Daniel Berehulak/The New York Times
Transeuntes observam a ação da polícia contra manifestantes no bairro de Molenbeek, em Bruxelas

A perspectiva da divisão nunca está longe da consciência nacional, especialmente porque o maior partido político do país, a Nova Aliança Flamenga, é dedicado a uma secessão gradual e pacífica.

A Bélgica só se tornou um país em 1830, quando uma rebelião dos Países Baixos Meridionais, apoiada pela França, levou à independência. O francês tornou-se a língua predominante, e a estrutura estatal resultante também era favorável aos habitantes da Valônia, a região sul do país, de língua francesa.

Os falantes de holandês, hoje uma maioria de 60%, eram considerados camponeses pelos francófonos, que achavam sua cultura de batata cozida quase bárbara.

Além de ser dividida entre falantes de holandês e francês, com um pouco de alemão misturado, a Bélgica ainda carece de símbolos de união nacional. Há o "Atomium", uma estrutura de aço cromado feita para a Feira Mundial de 1958. Há o "Manneken Pis", a estátua do menino urinando. E, é claro, o chocolate, as cervejas de mosteiros e a seleção de futebol nacional, os Rode Duivels, ou Diabos Vermelhos. É praticamente só, segundo a maioria dos belgas, sejam flamengos ou valões.

Os novos desafios à unidade belga eram visíveis no interior da Torre de Ferro um dia destes. Em sua base havia um pequeno memorial para Bart Migom, um estudante de 21 anos de Diksmuide que morreu nos atentados suicidas no aeroporto de Bruxelas. Ele ia viajar para visitar sua namorada americana na Geórgia.

"Nas próximas eleições, veremos mais um movimento à direita", disse Koen Coupillie, líder do capítulo local da Nova Aliança Flamenga. "As pessoas estão irritadas e se sentem impotentes depois desses ataques, por isso podemos esperar que algumas votem em partidos de extrema-direita."

Daniel Berehulak/The New York Times
"Hooligans" entram em confronto com marcha pacífica na praça da Bolsa, em Bruxelas

A Flandres já havia dado uma virada à direita na última década, com o partido de Coupillie conquistando a maioria dos votos e tornando-se, em 2014, o maior partido político da Bélgica. Do outro lado não houve mudança política. O Partido Socialista atrai há décadas a maioria dos eleitores que falam francês.

"Sua solução para tudo é completamente diferente", disse Coupillie, 32, sobre o Partido Socialista. "Eles apenas querem manter as antigas estruturas no lugar, enquanto nós queremos reforma e progresso."

No topo da torre, que oferece uma vista panorâmica de trincheiras preservadas da Primeira Guerra Mundial, Coupillie apontou para o novo local de um centro de solicitantes de asilo, onde 200 refugiados logo serão abrigados. "Tivemos uma reunião da cidade", disse ele. "As pessoas estavam calmas, mas acredito que levará muito tempo para que elas aceitem forasteiros."

A imigração tem sido uma questão quente na Bélgica, como em outros lugares da Europa. Entre 2000 e 2010, a Bélgica aceitou mais imigrantes que o Canadá, que tem mais de três vezes sua população. Mais de 25% dos 11 milhões de habitantes da Bélgica têm origem imigrante, e muitos deles, de ex-colônias francesas, como o Marrocos, falam francês.

Em um mercado agrícola em Aalst, uma cidade flamenga próxima de Bruxelas, muitos diziam que a integração dos muçulmanos na Bélgica falhou e culpavam a elite dominada por franceses na capital.

"Vivemos separadamente", disse Jos Wauters, um funcionário público da cidade próxima de Affligem, conhecida por sua cerveja clara produzida em uma abadia próxima. "Nós não nos encontramos, não conversamos. Não está funcionando."

Ele culpou os partidos franceses de esquerda, que por muito tempo bloquearam as leis nacionais sobre cursos de idioma obrigatórios. "Enquanto isso, eles continuaram convidando as pessoas a vir para cá. É claro que temos problemas enormes hoje." Sua mulher assentiu, mas quando ela falou seu sotaque revelou sua origem valona.

"Podemos viver todos juntos, flamengos e valões", disse Wauters, sorrindo e apontando para sua mulher, "mas só na Flandres."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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