Depressão atinge 28,9% de vítimas de tragédia em Mariana, diz UFMG

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

  • Ricardo Moraes/Reuters

    A janela de uma casa danificada após o rompimento das barragens da mineradora Samarco na cidade de Mariana

    A janela de uma casa danificada após o rompimento das barragens da mineradora Samarco na cidade de Mariana

Mais de dois anos após o rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Mariana (MG), quase 30% dos atingidos sofrem com depressão. O percentual é cinco vezes superior ao constatado na população do país. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), em 2015, 5,8% dos brasileiros tinham depressão (11,5 milhões de pessoas).

De acordo com o estudo feito pelo departamento de saúde mental da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a saúde mental dos atingidos pela lama de Fundão está tão vulnerável quanto à de vítimas de grandes desastres como o da usina nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011, ou do atentado ao World Trade Center, nos Estados Unidos, em 2001.

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Com um agravante, a saúde mental de japoneses e norte-americanos vítimas dessas tragédias foi avaliada imediatamente após os acontecimentos. Os relatos de sintomas de estresse pós-traumático, como insônia, tonteiras, falta de ar e dor de cabeça, foram feitos 30 meses após o rompimento da barragem.

Fabio Braga/Folhapress
Em 15 de novembro, a onda de lama tóxica chegou ao município de Resplendor, em Minas Gerais, alterando a fauna, flora e o fornecimento de água na região
O estudo da UFMG mostra ainda que o transtorno de ansiedade generalizada acomete 32% das vítimas da tragédia. Três vezes mais do que a taxa nacional. Os números  foram considerados "altos" e assustaram os pesquisadores da Faculdade de Medicina, que esperavam encontrar resultados "mais brandos" devido ao tempo decorrido desde o desastre do início de novembro de 2015.

Para os pesquisadores, que estudaram a saúde mental de 271 vítimas da tragédia, o estresse do desastre continua ativo na rotina dessas pessoas. O elemento de estresse é permanente e abordagem que está sendo oferecida não é suficiente para essas pessoas diminuí-lo, conclui o estudo.

Marcio Fernandes
Mariana, Minas Gerais
Entre as crianças, o principal achado da pesquisa da UFMG foi a alta frequência de entrevistados que preencheram critérios para transtorno de estresse pós-traumático, superior a 82%. Nos adultos, este diagnóstico envolveu 12% dos atingidos. No recorte por sexo, notou-se que a prevalência nas mulheres, de 13,9%, foi superior em comparação com os homens, que ficou em 8,6%.

Adoecimento

A maior tragédia ambiental do país, em 5 de novembro de 2015, quando morreram 19 pessoas, dezenas de distritos e municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo foram arrasados pela lama, o rio Doce e afluentes sucumbiram ao detrito de minério e 2.300 pessoas do distrito de Bento Rodrigues, e outras 800 do distrito de Paracatu, foram desalojadas, também pode destruir o futuro das crianças: a pesquisa constatou que o nível de transtorno de estresse atinge 83% dos meninos e meninas desses povoados.

Um dos responsáveis pelo estudo, o professor Frederico Garcia, explica que o percentual de transtorno de estresse entre as crianças na América Latina é de 0,5%, de acordo com dados da OMS. Ou seja, o nível apontado de estresse entre as crianças e Bento Rodrigues e Paracatu é 160 vezes superior. No caso dos adultos, a pesquisa apontou um percentual de 12% de transtorno de estresse, enquanto que na América Latina, de acordo também com dados da OMS, é de 1%.

"As pessoas deixaram um ambiente em que as famílias conviviam há duzentos anos. Ali se protegiam, se cuidavam e mantinham relações. Desalojados em instalados em hotéis e casas alugadas há mais de dois anos, na área urbana de Mariana, eles perderam essas relações", afirma o estudioso.

Getty Images
Depressão atinge moradores da cidade de Mariana

De acordo com a literatura médica, a percepção dos riscos de danos à saúde e de morte, a perda de moradia e de entes queridos e a consciência da falta de uma satisfatória assistência em saúde são também fatores que podem levar a um diagnóstico de depressão em populações acometidas por desastres. A discriminação também é apontada como um elemento agravante, o que levou a pesquisa da UFMG a identificar se os entrevistados já haviam sido vítimas de atitudes preconceituosas motivadas pela sua condição de atingido.

"O preconceito é muito grande. A população de Mariana culpa essas vítimas pela suspensão das atividades da Samarco, que trouxe prejuízos econômicos e redução dos empregos no município. Isso foi espalhado pela Renova (fundação criada pela Vale e BHP, proprietárias da Samarco) ampliando essa situação ruim experimentada por elas", diz.

Cristiane Mattos/Futura Press/Estadão Conteúdo
Paracatu de Baixo, distrito de Mariana (MG), após três meses do rompimento da barragem da mineradora Samarco
A barragem da Samarco se rompeu e derramou mais de 40 milhões de metros cúbicos de lama de minério. A avalanche arrasou os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu: 2.300 pessoas deixaram suas casas.

Eles serão reconstruídos e, com dinheiro que a promotoria de Justiça de Mariana conseguiu bloquear da mineradora, os terrenos já foram comprados.

Por meio de nota, a Renova informou que desenvolve estudo para avaliar a "tendência de aumento de transtornos mentais, de uso de álcool e outras drogas nos moradores das áreas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão". De acordo com a fundação, o estudo será concluído em fevereiro de 2019, mas resultados parciais serão usados para nortear ações da área de saúde.

"Faz parte da estratégia de apoio aos atingidos o fortalecimento das estruturas públicas existentes, tanto no atendimento clínico quanto na proteção social. No município de Mariana, a Fundação Renova reforça o SUS (Sistema Único de Saúde) e o SUAS (Sistema Único de Assistência Social) com 50 profissionais de saúde e de assistência social", diz o comunicado.

(Com Agência Brasil)

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