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Leia a transcrição da entrevista de Ideli Salvatti à Folha e ao UOL

05/08/2011 07h01

A ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti (PT), participou do programa "Poder e Política - Entrevista", conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues no estúdio do Grupo Folha em Brasília. A gravação foi realizada em 4 de agosto de 2011. O projeto é uma parceria do UOL e da Folha.

Leia a transcrição e assista à íntegra em vídeo:

 

 

>>Fotos da entrevista com Ideli Salvatti.

Folha/UOL: Ela nasceu em São Paulo, estudou no Paraná e fez carreira profissional e política em Santa Catarina. A ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, tem 59 anos e formou-se em física pela Universidade Federal do Paraná.

Em Santa Catarina, Ideli ajudou a fundar o PT e a CUT. Foi deputada estadual duas vezes. Em 2002, foi eleita senadora.

No Senado, foi líder do PT e uma das mais destacadas defensoras do governo Lula durante várias crises, entre outras, a do mensalão.

Em 2010, Ideli Salvatti disputou e perdeu a eleição para o governo de Santa Catarina. Sem mandato, foi nomeada ministra da Pesca e Aquicultura pela presidente Dilma Rousseff.

Quando o escândalo do aumento patrimonial derrubou Antonio Palocci da Casa Civil, Ideli Salvatti ganhou importância como articuladora política de Dilma. Deixou a Pesca e foi para o Palácio do Planalto como ministra de Relações Institucionais

Folha/UOL: Olá internauta. Este é mai um "Poder e Política - Entrevista". Um programa produzido em parceira pela Folha de S.Paulo, pela Folha.com e pelo UOL. É realizado no estúdio do Grupo Folha em Brasília.

A entrevistada de hoje, no “Poder e Política – Entrevista” é o ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti.

Olá ministra. Minha primeira pergunta para sra. é: o que faz uma ministra de Relações Institucionais?

Ideli Salvatti: Bom, Fernando, na Secretaria de Relações Institucionais nós temos duas subsecretarias que dão a exata dimensão das nossas responsabilidades. A primeira é Subsecretaria de Assuntos Parlamentares, que faz toda a relação do governo, da Presidência da República, com o Congresso: Câmara, Senado e o Congresso. A tramitação das matérias, a negociação das matérias, as relações em termos de... das informações, do fluxo, atendimento dos parlamentares, o entrosamento. Por exemplo, os parlamentares que nos solicitam, e agente busca ajudar, quando eles têm pleitos, necessidades, audiências junto aos ministérios. Acompanhamento de representantes de sua base eleitoral, o prefeito, as entidades. Então, esta é a parte da Secretaria que cuida exatamente da relação entre o Executivo e o Legislativo Nacional. E nós temos uma outra secretaria, que é a Subsecretaria de Assuntos Federativos. Nós temos um pacto federativo no Brasil, entre União, Estados e municípios, e existem muitas ações que impactam os três entes federados. Então nós fazemos todo este trabalho de acompanhamento destes assuntos que tratam do pacto federativo. Vou dar um exemplo: este debate sobre royalties. Isso impacta... Está tendo todo um debate, negociações, o projeto... Então nós acompanhamos esta... este assunto, fazendo a relação, buscando acompanhar e harmonizar para que o pacto federativo em assunto tão polêmico como este dos royalties possa ter... se buscar o entendimento, a harmonia.

Folha/UOL: A sra. foi senadora, durante oito anos, foi líder do PT no Senado, foi líder do governo. Trabalhou com o presidente Lula. Trabalha agora com a presidente Dilma. Qual é a diferença de trabalho, no dia a dia, entre Lula e Dilma?
Ideli Salvatti: Bom... para mim é um pouco difícil fazer a comparação precisamente porque eu trabalhava com o presidente Lula na condição de parlamentar. De líder do partido, do bloco do governo no Congresso. Então, eu não tinha o cotidiano do trabalho com o presidente Lula. Então, eu participava de reuniões mais esporádicas, e tínhamos contatos mais espaçados. O presidente Lula é uma pessoa que na convivência e no trabalho é aquele ritmo que todos nós conhecemos: de exigência, mas com uma... digamos assim, com uma maneira de ser um pouco mais descontraída.

Folha/UOL: E a presidente Dilma?
Ideli Salvatti
: Agora eu estou do lado de cá. Então, eu estou no cotidiano. Principalmente agora que eu estou na Secretaria de Relações Institucionais. A presidente Dilma tem um ritmo de trabalho, no sentido de cobrar, no sentido de monitorar e de acompanhar até o último detalhe. Então isto é um estilo diferenciado que é bastante marcante entre ela e o presidente Lula. Agora, é de uma... às vezes as pessoas têm uma visão, até por causa desta característica, de querer que as coisas aconteçam, que sejam bem feitas, que o resultado seja dentro do prazo,  do estipulado, com o objetivo alcançado plenamente, as pessoas têm às vezes a impressão de que ela não tenha o lado da sensibilidade, da brincadeira. E o cotidiano da convivência, como eu estou tendo neste momento com a presidenta é realmente bastante revelador.

Folha/UOL: Nós ouvimos sempre que a presidente Dilma Rousseff, de vários colegas seu ministros, ou de líderes do governo no Congresso, que ela é muito rígida nas cobranças, e às vezes chega a ser até ríspida. Procedem essas impressões?
Ideli Salvatti
: Ela é muito exigente, Fernando. Muito... Muito.

Folha/UOL: Dê um exemplo.
Ideli Salvatti:Ah...ela não admite por exemplo que você não corresponda naquilo que está estabelecido com... Ela quer 100%, sempre. Ela... ela tem isto como para ela mesma. Porque nada do que ela exige da gente não seja o que ela exige para ela mesma. Então, é muito cobrado. Por exemplo, ela acompanhou...

Folha/UOL: Ela dá broncas?
Ideli Salvatti
: Ah, ela dá broncas, Fernando.

Folha/UOL: A sra. já tomou alguma bronca dela?
Ideli Salvatti: Ah... acho que todos nós já tomamos bronca. Mas é sempre nesse sentido da exigência... Da exigência. Agora, ao mesmo tempo ela faz com que a gente tenha a segurança do que é o objetivo central. Qual é a meta que nós precisamos alcançar naquilo que está sendo previsto em termos de ação de governo. E, volto a dizer Fernando, ela tem momentos muito surpreendente digamos assim de sensibilidade, de carinho. Por exemplo, eu tive a oportunidade de presenciar momentos de preocupação com saúde de ministros que eu jamais teria visto isso da parte do presidente Lula. Entende? Eu não consigo vislumbrar... eu não tive essa convivência tão cotidiana Lula, mas eu não consigo vislumbrar o presidente Lula passando a mão no telefone, ligando para um médico e dizendo o seguinte: “Tô mandando aí, você me atenda, interne se for preciso”. Entende? Ou seja, uma preocupação quase... Acho que é uma coisa bem característica de mulher, de se preocupar, entende, de que a coisa realmente vá acontecer.

Folha/UOL: Como é a sua convivência e rotina trabalho com a presidente? A sra. se encontra com ela várias vezes por dia? Todos os dias de manhã? A sra. vai ao gabinete da presidente espontaneamente? Pode colocar a mão na maçaneta e abrir a porta? Como funciona?

Ideli Salvatti: Olha, Fernando, nós temos uma rotina eu, a ministra Gleisi [Hoffmann, da Casa Civil], o ministro Gilberto Carvalho [Secretaria Geral], a ministra Helena Chagas [Secretaria de Comunicação] e o Giles [Azevedo], que é o secretário [do Gabinete] Pessoal. Todas as manhãs nós fazemos uma reunião de briefing. O que está pautado, se precisa tomar alguma providência. Ela [Dilma] dá as coordenadas do dia... Então é um despacho que tem variações dependendo do dia de meia hora e no máximo de uma hora. Isso logo cedo, na primeira atividade. A não ser quando acontece no dia do lançamento do programa das medidas recentes na área industrial e tal, aí tinha uma reunião com o setor empresarial às 9h30, aí não acontece.

Folha/UOL: Quem faz o briefing sobre o noticiário para a ministra?

Ideli Salvatti: É a Helena Chagas nesta reunião... Aí, depois, ao longo do dia, dependendo da agenda... Por exemplo, se a presidente recebe governador... por exemplo, ontem ela recebeu o governador do Amazonas, o Omar Aziz... Então como isto faz parte da minha responsabilidade, assuntos federativos, eu acompanho as agendas. Quando ela recebe partidos, personalidades política, ou seja, que também faz parte da minha responsabilidade, eu acompanho. Ou assuntos que ela entenda que é fundamental acompanhar. Normalmente eu acompanho assuntos de despacho quando tem a ver com tramitação no Congresso.

Folha/UOL: Mas aí é ela sempre quem chama a sra.?
Ideli Salvatti
: Aí ela chama. A gente já é originalmente informada da agenda e de quais agendas nós vamos participar. E ao longo do dia, se há necessidade, comunicação telefônica... aí, obviamente, dependendo do assunto

Folha/UOL: Ministra Ideli, a sra. substituiu o deputado Luiz Sérgio na articulação política do governo. A impressão que se tem é que a sra. parece ter mais poder do que tinha o deputado Luiz Sérgio quando ocupava o mesmo cargo. Seja porque ele talvez estivesse um pouco à sombra de um ministro à época um pouco mais forte, que era Antonio Palocci, na Casa Civil, ou porque, de fato, a sra. tem mais poder do que ele tinha. Qual é a explicação para isso?

Ideli Salvatti: Fernando, tem um outro desenho hoje no entorno da presidenta. Tem um novo desenho. Digamos assim... as responsabilidades estão mais definidas. Eu acho que na época do ministro Luiz Sérgio e do ministro Antonio Palocci não estava muito claro... e, na prática, boa parte das responsabilidades do ministro Luiz Sérgio eram compartilhadas, e, muitas vezes, com dificuldade de compartilhamento com o ministro Palocci –que era também extremamente demandado pela presidenta. Porque praticamente o ministro Palocci acompanhava todas as agendas da presidenta. Hoje, não. Hoje está bem definido. Tem agendas que eu participo. Tem agendas que a ministra Gleisi participa. Tem agendas que o ministro Gilberto Carvalho participa. Então há uma divisão melhor das responsabilidades e do acompanhamento do assessoramento da presidenta. Há também uma definição bastante clara, entende, em termos ... a ministra Gleisi Hoffmann... ela tem responsabilidade central com o funcionamento do governo, as articulações interministeriais. E eu tenho as responsabilidades exatamente das relações com o Congresso e com os governadores e prefeitos. E o ministro Gilberto Carvalho com a sociedade, que ele exerce esse trabalho de forma assim muito precisa e preciosa, eu diria.

Folha/UOL: O Brasil passa por um momento de sensação de bem estar na economia para grande parte da população, apesar das incertezas futuras. O fato é que há emprego numa situação boa e a economia parece que vai bem para a maioria da população, com a ressalva das incertezas futuras. A presidente Dilma Rousseff tem aparecido bem nas pesquisas de opinião, com a popularidade em alta. Não obstante, dentro do Congresso, falando com senadores e deputados que são aliados ao Palácio do Planalto, a gente sempre percebe –quando consegue falar com eles em reserva e com alguma sinceridade– muita gente resmungando pelos cantos reclamando do governo. Por quê?

Ideli Salvatti: Bom, Fernando, nós tivemos no início deste ano medidas muito duras. E eu diria absolutamente corretas e necessárias para enfrentar exatamente uma situação que tem da parte da presidenta Dilma uma verdadeira determinação, que é a questão do controle inflacionário e do controle inflacionário sem que isso afete a perspectiva de crescimento, geração de empregos e distribuição de renda. Então nós tínhamos no começo do ano uma situação econômica que havia esta preocupação com a questão inflacionária. E, ao mesmo tempo, já desenhada, porque esta situação internacional que nós tivemos nos últimos dias, acho que a população como um todo tomou um pouco mais de ciência do que está acontecendo na economia mundial por conta do impasse, da questão do endividamento dos EUA e daquela verdadeira queda de braço entre democratas e republicanos. Mas isto já estava desenhado e já estava, digamos assim, anunciado e com muita preocupação desde o início do ano. Então, as medidas adotadas não foram medidas tranquilas, simpáticas.

Folha/UOL: A sra. está se referindo ao corte no Orçamento?

Ideli Salvatti: Ao corte. Você veja bem, Fernando, nós... eu não lembro, pelo menos no meu período de senadora... e os parlamentares que têm mais mandatos, cinco, dez... tem gente lá que tem 11 mandatos de parlamentar. Ninguém se lembra de um ano que tenha acontecido o que aconteceu este ano: ou seja, um semestre inteiro de votações, e não foram poucas as votações, foram muitas votações. Foram votações polêmicas. A questão do salário mínimo, Itaipu... várias, Código Florestal. E não houve um único empenho de emendas...

Folha/UOL: Para traduzir para o nosso leitor, internauta, empenho de emenda significa: nenhuma emenda ao orçamento que os deputados e os senadores fizeram neste ano foi liberada. O dinheiro não saiu e não foi aplicado nos projetos.

Ideli Salvatti: Não é nem o dinheiro, Fernando. Porque é o seguinte: antes de o dinheiro sair, [não foi] nem empenhado.

Eu considero que a relação [do Executivo com o Congresso], que todo mundo diz que está difícil, tumultuada... Eu diria que foi uma relação excelente, porque a compreensão do Congresso, da necessidade, do momento, foi correspondida. E, aliás, a presidenta Dilma fez questão de realçar e verbalizar naquele coquetel de encerramento do primeiro semestre, onde ela agradeceu exatamente esta compreensão. É uma compreensão que tem a reclamação... Até porque se imaginar que além de votar, além de ter a compreensão, não vamos dar o direito de reclamar... não dá né, Fernando [risos].

Folha/UOL: A impressão de alguns deputados e senadores é que a presidente Dilma não nutre nenhum prazer nessa relação cotidiana com eles, com os políticos. Procede isso?

Ideli Salvatti: Olha, eu acho que também são aquelas coisas que ficam um pouco, é... Meio lenda urbana, né. Porque a presidenta recebeu nesse primeiro semestre todas as bancadas, não assim... lideranças, [recebeu] todas as bancadas da base de apoio ao Senado, por exemplo. Ontem a presidenta recebeu membros da Executiva do PT. E o Gilberto Carvalho no final, já eram quase nove horas da noite quando terminou a audiência, ele ainda brincou com o Rui Falcão. Disse assim: Rui, você está bem cotado, hein? A presidenta Dilma já te recebeu mais vezes em seis meses do que o presidente Lula recebeu os presidentes do PT em 8 [anos].

Nós vamos fazer inclusive, por determinação dela... é claro que no caso do Senado, fazer um almoço, fazer um jantar com a bancada... a maior bancada do Senado tem 20 senadores, do PMDB. É impossível você fazer um almoço ou um jantar com a bancada do PMDB da Câmara ou do PT da Câmara.

Folha/UOL: São mais numerosos.
Ideli Salvatti: É, quase 100. Mas ela já determinou que nós encontrássemos uma fórmula para ela poder ter agora no segundo [semestre]... como ela fez no primeiro semestre com o Senado, que agora no segundo semestre nós encontremos uma fórmula para ela poder ter o mesmo contato pessoal...

Folha/UOL: Com os deputados que apoiam o governo na Câmara.
Ideli Salvatti
: Exatamente. Na Câmara.

Folha/UOL: O governo anunciou, foi noticiado, que deve liberar ou empenhar cerca de R$ 1 bilhão de reais em emendas para deputados e senadores. Isso está para ser feito? E a pergunta principal: se os efeitos da crise externa se provarem ainda mais robustos e afetarem o Brasil, a decisão sobre esse R$ 1 bilhão fica mantida?

Ideli Salvatti: Olha, este R$ 1 bilhão eu já tenho garantido pelo ministro Mantega [da Fazenda]. Nós iríamos inclusive iniciar os empenhos agora em agosto. Na reunião que eu tive com os líderes dos partidos da base na Câmara, eles me fizeram a seguinte ponderação: que, se fosse possível, se for possível, que nós possamos ter a apresentação do que vai acontecer no segundo semestre. Ou seja: vai ser R$ 1 bilhão agora? Vai ter outra parcela? Qual é o montante?

Digamos assim: em média foram R$ 5 bi [bilhões] ao ano de empenho de emendas dos parlamentares, seja na forma individual, na forma de bancada, por Estado, ou então por comissões.

Folha/UOL: Eu é que vou perguntar. E liberação, qual foi a média?
Ideli Salvatti
: E a liberação chegou, dependendo do ano, na faixa da metade, mais ou menos.

Folha/UOL: Dois e meio [bilhões de reais].
Ideli Salvatti
: Dois e meio [bilhões de reais], em algum três [bilhões de reais]. Mais ou menos nesse...

Folha/UOL: E a sua expectativa é que, neste segundo semestre, o valor atinja quanto?
Ideli Salvatti
: É isto que eu não tenho da parte do ministro da Fazenda. E foi o que eles me pediram [os deputados]. Porque alguns parlamentares me fizeram a seguinte ponderação... Eles têm um volume de emenda no orçamento. Se vai ser empenhado apenas uma parte, eles querem saber qual é o tamanho desta parte. Para eles poderem, inclusive, indicar qual é a prioridade.

Folha/UOL: Mas, ministra, sobre a crise econômico-financeira internacional: esses valores vão depender evidentemente do efeito que a crise terá sobre a econômica brasileira. Ou não?
Ideli Salvatti
: Em relação a empenho, eu acho que não, tá. Até porque o empenho é algo que fica consolidado na perspectiva de gastar.

Folha/UOL: Mas e a liberação? Que é o que mais importa.
Ideli Salvatti
: Exatamente a questão da liberação que é o outro tema que tratei com eles... Porque é o seguinte: nós temos hoje aquilo que é apelidado de “rap”, restos a pagar. Ou seja, são obras que já estão em andamento, que já têm parte executada e que não têm o pagamento efetivado. Então, nós já tivemos neste primeiro semestre... que passou ali pela Secretaria de Relações Institucionais... nós temos a liberação já efetivada, pagos R$ 770 milhões. E eu estou agora nesta semana autorizando os Ministérios para mais R$ 150 milhões. Haverá novas liberações de pagamento no segundo semestre, que eu tenho a convicção de que será, inclusive, num valor maior. Até por conta de uma conversa feita com os próprios líderes, no sentido de que obras que estão em andamento e que têm o risco de paralisar pela não normalidade do pagamento é algo muito ruim, para todos. Para todo mundo. Eu consegui sentir inclusive de alguns parlamentares que eles topam na negociação que eu tenho que fazer com o ministro da Fazenda de, de repente, ter um volume maior de recursos para pagar do que ter um volume maior de recursos para empenhar.

Folha/UOL: A senhora não tem ideia de valores globais para nos dizer? De quanto isso poderia vir a ser até o final do ano?
Ideli Salvatti: Bom, em termos de empenho, eu acredito que, provavelmente, vamos ficar na média, né.

Folha/UOL: Cinco bilhões [de reais].
Ideli Salvatti
: Cinco bi [bilhões de reais]. Aí vai depender um pouco...

Folha/UOL: E liberação?
Ideli Salvatti
:E liberação eu não tenho média, pelo menos assim, agora de cabeça, de quanto foi...

Folha/UOL: Mas uma expectativa sua de quanto possa ser exequível.
Ideli Salvatti
: Olha, é... Aí sim... Como aí é financeiro, aí sim depende bastante desta questão da... da situação econômica.

Folha/UOL: Queria entrar no caso das suspeitas de irregularidades nos Ministérios. A presidente tem demonstrado publicamente a intenção de apurar o que aparece de irregularidade ou acusações de corrupção. Se é assim, por que o governo não permite que o Congresso também colabore fazendo CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] para investigar esses casos?
Ideli Salvatti: Queria falar especificamente desse caso da CPI dos Transportes. Até porque a presidenta cobrou e tomou providências que têm sido reconhecidas pela opinião pública, elogiadas, e foram bastante efetivas e duras.

Folha/UOL: Mas que mal faria uma CPI dos Transportes?
Ideli Salvatti
: Fernando, se é para fazer uma CPI, eu vivi muitas, vivi muitas... Ninguém protocola CPI com 27 assinaturas. Precisa ter 27. Aí o parlamentar protocola com 27. Ele já sabe que essa CPI é para não acontecer. Eu não tenho a menor dúvida de dizer aqui, de forma convicta: nem o próprio autor do requerimento quer a CPI.

Folha/UOL: Mas ministra, 27 assinaturas era o mínimo, estavam lá. Só foi reduzido para 25 o número porque integrantes do governo requereram a dois signatários que retirassem os seus nomes. Se o governo não tivesse feito isso...
Ideli Salvatti: Por isso que eu sempre digo, Fernando, que o senador Álvaro Dias [líder do PSDB no Senado] só fez factoide. Porque quando é para valer uma CPI no Senado, ela só é protocolada com 33, 34, 35 assinaturas, entende? Exatamente para não dar margem, entendeu, de que um parlamentar, dois parlamentares ao retirar a assinatura já elimina, entende, a possibilidade. Volto a dizer: as medidas foram adotadas. Elas estão inclusive em andamento, com a Controladoria-Geral da União, com a Polícia Federal. Tem inquérito.

Folha/UOL: O governo não quer a CPI? Ao governo não interessaria a CPI?
Ideli Salvatti
: Neste caso do Ministério dos Transportes, pelo próprio procedimento do senador Álvaro Dias, foi, assim, explícita, que ela é única e exclusivamente para criar factoide político. Não tem razão de ser e ela nem foi executada, né. Assim, o procedimento para buscar instalar a CPI não foi para valer, Fernando.

Folha/UOL: Tem aparecido suspeitas ou acusações ou indícios de irregularidades em outras pastas. No Desenvolvimento Agrário, na Agricultura, na pasta das Cidades, na Funasa... E a oposição sinaliza, às vezes, querendo fazer uma CPI sobre tudo isso. A senhora também a respeito disso considera impróprio?
Ideli Salvatti
: Nós já tivemos uma CPI lá no Senado que foi apelidada de “CPI do fim do mundo”. Levou a quê? Levou a quê, Fernando? Então, o seguinte: se quer efetivamente fazer qualquer tipo de investigação, com responsabilidade, com seriedade, você não faz isso, né.

Tem algo que é importante e eu falei isto, já comentei isto, inclusive me referindo ao caso da CPI que o... o... o senador Álvaro Dias, de forma, eu digo, irresponsável, fez o factoide essa semana. Nós temos a responsabilidade... como governo, a presidenta Dilma tem, porque mesmo que ainda... efeitos, ainda a normalidade, o crescimento, o emprego e tal, mas a preocupação do governo também tem que estar. E o Congresso também tem que ter essa preocupação, de se adiantar, de focar nas medidas que são impactantes sobre a crise, priorizar a votação de projetos que possam nos ajudar a blindar a economia, o emprego, a indústria. Aquilo que interessa ao bem estar da população brasileira. Então ficar com este tipo de procedimento que é só para fazer firula, ao invés de... Porque não está com a intenção de investigar, não está, não está Fernando, não venha me convencer que alguém que protocole um processo de criação de CPI com o número mínimo de assinaturas esteja efetivamente com vontade de contribuir com investigação alguma.

Folha/UOL: No caso dos Transportes já chega aí perto de 30 o número de pessoas que foram afastadas ou demitidas. Mas há outros locais onde apareceram suspeitas igualmente robustas e ainda não aconteceu nada. Veja o caso do Ministério das Cidades. Uma pessoa trabalhava no Ministério das Cidades, o ex-deputado Leodegar Tiscoski, e ao mesmo tempo trabalhou por um período como responsável pelas finanças do seu próprio partido, o PP. Que me pareceu impróprio. Agora, aparentemente, ele não é mais ator dessa dupla militância. Mas é um caso grave.

Ideli Salvatti: Se você não conhece o procedimento do Ministério das Cidades, você pode imaginar que, realmente, ali tem uma situação, onde facilitaria alguém que tem vinculação com o financeiro do partido, a relação... Porque, o seguinte: o Ministério das Cidades, diferentemente de vários outros Ministérios, ele não executa nenhuma obra, nenhuma obra. Ele não faz nenhum licitação. Ele não faz nenhum pagamento. Então, assim, sabe, achar que alguém que pode ter exercido um período de tesouraria teria  facilidade... mas ele, ele, ele não está...

Folha/UOL: Mas não é impróprio, ministra?
Ideli Salvatti
: Olha, eu acho que aí é uma questão, né, de... o próprio Leodegar coloca que ele se afastou, que ele não estava no exercício da função de tesoureiro.

Folha/UOL: Mas estava. Mas estava. Tem a assinatura dele lá nas contas do partido.
Ideli Salvatti
: Na prestação de contas apenas, né, da entrega...

Folha/UOL: Apenas... apenas prestação de contas é bastante.
Ideli Salvatti
: ...não, mas ele... o que ele argumentou... eu não tenho os elementos todos, Fernando. Mas, assim, que ele se licenciou do exercício da tesouraria do partido.

Folha/UOL: E não há razão aí para afastamento?
Ideli Salvatti
: Eu acho, Fernando, que o caso do Ministério das Cidades é... aquilo que... a ilação que a reportagem faz não tem base real, porque o Ministério das Cidades ele não faz a obra, ele não faz a licitação e ele não faz o pagamento. Então, porque... a... a obra é conveniada com o prefeito ou com a... a... o governo Estadual...

Folha/UOL: Eu não estou entrando nesse aspecto, ministra. Estou falando só do aspecto formal.
Ideli Salvatti
: Mas qual é a ilação, Fernando? Qual é a ilação? Ele é tesoureiro e o Ministério Executa, o Ministério tem lá as obras, tem lá os recursos e etc. e tal. Se a pessoa que está aqui não atua nisto aqui, porque quem atua é o prefeito...

Folha/UOL: Pode ter duplo emprego então?
Ideli Salvatti
: Mas não é emprego, tesoureiro não é emprego, né [risos].

Folha/UOL: É uma função importante.
Ideli Salvatti
: Mas eu sei, Fernando. Mas eu acho assim, que a ilação que fazem, entende... Eu cuido do dinheiro do partido e eu cuido do dinheiro do Ministério, o cuido do dinheiro do Ministério não é verdade. No caso do Ministério das Cidades não é. Se fosse num outro Ministério seria inadmissível sob todos os aspectos. No caso do Ministério das Cidades, apenas eu quero fazer essa relevância, entende. Porque é... o Ministério das Cidades realmente não mexe diretamente com o dinheiro.

Folha/UOL: O ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse aqui que votou no candidato José Serra [que disputou a Presidência da República pelo PSDB em 2010] no ano passado e não na presidente Dilma [candidata do PT que venceu a eleição]. A senhora achou apropriada a declaração do ministro da Defesa? E mais: já está pacificado esse assunto?
Ideli Salvatti
: Fernando, hoje tem outras declarações do ministro Jobim. Inclusive na capa... [risos]

Folha/UOL: Eu ia perguntar sobre elas agora, mas se a senhora quiser já passar para elas...
Ideli Salvatti
: Inclusive na capa, né [risos].

Folha/UOL: Mas sobre José Serra. O que a senhora achou?
Ideli Salvatti
: Fernando, eu posso fazer só uma observação? É... quando você está à frente de uma pasta, de um Ministério, você tem que ter sempre muita preocupação de executar aquilo que você está delegado para executar, né. Não quero brincar, mas, assim, apesar de muita gente dizer que o ataque é sempre a melhor defesa, o ministro da Defesa talvez pudesse se conter um pouquinho né. Eu acho que tem declarações que não são necessárias.

Folha/UOL: Hoje, quinta-feira, dia 4 de agosto, ficou público que a revista “Piauí” vai trazer uma entrevista, um perfil do ministro Nelson Jobim, no qual ele tece comentários sobre o governo Dilma Rousseff, anteriores. No caso da senhora, o ministro Nelson Jobim diz que a senhora é “fraquinha”. No caso da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, ele diz, entre aspas, “nem sequer conhece Brasília”. Qual avaliação a senhora faz dessas declarações?
Ideli Salvatti
: Para um ministro da Defesa é desnecessário determinados ataques. É desnecessário. Pra quê?

Folha/UOL: A senhora acha que ele se excedeu?
Ideli Salvatti
: Eu volto a dizer: é desnecessário. Não é assunto relacionado à pasta dele.

Folha/UOL: Por que a senhora acha que ele falou isso?
Ideli Salvatti
: Aí tem que perguntar a ele [risos].

Folha/UOL: A senhora ficou chateada?
Ideli Salvatti
: Não. Até porque, Fernando, eu tenho clareza das minhas qualidades, das minhas potencialidades e das minhas dificuldades. E me esforço muito para poder corresponder à honra que a presidenta me deu de estar, neste momento, respondendo pela Secretaria de Relações Institucionais. Então me esforço muito para fazê-lo.

Folha/UOL: Estamos gravando essa entrevista muito cedo. A senhora já falou com a presidente sobre isso ou ainda não?
Ideli Salvatti
: Ainda não. Vou falar daqui a pouco, provavelmente.

Folha/UOL: A senhora acha que a presidente vai aprovar esse tipo de atitude?
Ideli Salvatti
: Não sei. Aí tem que ver...

Folha/UOL: Ela aprovou pelo que a gente entendeu a decisão de ele tornar público o voto em José Serra. Ou não?
Ideli Salvatti
: Fernando, é... o que passa na... Eles tiveram ontem uma conversa, um despacho, eu não acompanhei. Já teve outros despachos que eu acompanhei, tá. Por exemplo quando houve aquele discurso na homenagem ao Fernando Henrique, na sequencia teve um despacho para tratar de alguns projetos que têm relação com a área do ministro Nelson Jobim e eu então participei. Ele prestou rápidas explicações e o despacho foi um despacho longo e muito tranquilo, né. Agora, o de ontem eu não acompanhei. Então eu não queria tecer nenhum comentário. Para exercer bem a minha tarefa de Relações Institucionais, inclusive [risos].

Folha/UOL: Muito bem. A senhora vai ser candidata ao governo de Santa Catarina em 2014?
Ideli Salvatti
: Nada. Nada, nada, nada, nada, nada. 2014 a Deus pertence.

Folha/UOL: O presidente Lula tem aparecido muito no noticiário. Quem vai ser candidato: ele ou a presidente Dilma?
Ideli Salvatti
: Presidenta Dilma, pelas próprias declarações do ex-presidente Lula, será nossa candidata à reeleição.

Folha/UOL: Seu partido, uma ala grande, tem demonstrado que não gosta muito de institucionalizar a ideia de prévias partidárias para escolher candidatos a prefeitos em 2012, por exemplo. Dessa forma o PT não regride um pouco e vai ficando cada vez mais parecido aos outros partidos?
Ideli Salvatti
: Fernando, nós tivemos experiências de prévias extremamente salutares e extremamente perniciosas. É...

Folha/UOL: A senhora, particularmente, é a favor ou contra?
Ideli Salvatti
: Eu inclusive já participei de prévias. Então depende muito de como é que está o ambiente interno do partido para que uma prévia seja bem sucedida. E portanto não pode ser algo que seja assim: “a única maneira é esta”. Não, não é a única maneira. Ela tem que ser uma maneira de escolher o candidato adequada ao momento e à condição do partido naquela eleição. Então, a possibilidade de fazer prévias, em minha opinião, não tem que ser a regra obrigatória das prévias. Então depende bastante de cada condição.

Folha/UOL: Muito obrigado. Ministra Ideli Salvatti, de Relações Institucionais, muito obrigado por sua entrevista.
Ideli Salvatti
: Eu é que agradeço [risos].

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