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"Arrependido", ex-agente do Dops diz que executou ao menos sete na ditadura

Gustavo Maia

Do UOL, no Rio

31/03/2014 20h26

O ex-delegado capixaba Cláudio Antônio Guerra, que trabalhava no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) durante a ditadura militar, falou nesta segunda-feira (31) –dia em que o golpe de 1964 completa 50 anos-- sobre as execuções de militantes e ocultações de cadáver em que esteve envolvido durante o regime, em entrevista à rádio Absoluta, em Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro.

Guerra, que hoje é pastor da Assembleia de Deus e tem 72 anos, disse ainda que “era um servidor do Estado e estava cumprindo ordens” e que se arrepende dos atos.


Na entrevista, Cláudio disse que atuou diretamente na execução de pelo menos sete pessoas, em quatro cidades diferentes, além de ter ajudado a ocultar os corpos de 12 pessoas, mortas no Rio de Janeiro.

“Participei de duas ou três execuções no Rio, mais três em São Paulo, uma em Recife e uma Belo Horizonte. Nisso aí, houve execução e ocultamento de cadáver. Isso está declarado isso no Ministério Público Federal, na Comissão da Verdade e perante Deus”, afirmou.

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“Eu levei para Campos [de Goytacazes] 12 corpos, [de pessoas] que morreram por mão de outros na Casa da Morte e na Barão de Mesquita, no Doi-Codi [na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro]”, relatou o ex-delegado, que é personagem central do livro “Memórias de uma guerra suja”, dos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, no qual relata assassinatos e torturas de que participou durante a ditadura militar.

Guerra foi uma das seis pessoas denunciadas por procuradores federais, em fevereiro deste ano, pelo envolvimento na explosão de uma bomba no estacionamento do Riocentro, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, na noite de 30 de abril de 1981.

“Com certeza, devo responder assim como os outros deverão responder. Fica a cargo da Justiça dos homens. Sobre os meus erros perante Deus, eu sei que ele me perdoou porque Ele está me dando forças para lutar. Mas a vontade de Deus é soberana. Se Ele achar que eu tenho que passar o resto dos dias enclausurado, eu vou acatar”, afirmou Cláudio na entrevista.

O ex-delegado também disse que, depois de relatar “a verdade dos fatos”, tirou “uma tonelada de cima das costas”. “Eu guardava esse segredo dentro de mim. Eu guardava esses pecados dentro de mim”, admitiu.

“Eu tinha uma responsabilidade e também via a família das vítimas sofrendo até hoje, porque não sabiam o destino de seus familiares, e eu sabendo de alguma coisa. Então, tocou meu coração, no meu arrependimento do que eu cometi, e resolvi ajudar nos esclarecimentos.”

Sobre o golpe, que completa 50 anos nesta segunda, Guerra declarou que “o dia 31 de março é uma data que tem que ser lembrada como um grande erro de ambas as partes”. “Nesse embate que houve entre a esquerda e a direita, o governo militar, não houve vitoriosos”, opinou.

Segundo a avaliação do ex-delegado, havia uma ameaça “concreta” de o comunismo vir para o Brasil e “o governo militar e o Exército, principalmente, tomaram a decisão de impedir”.

“Aí veio o governo militar que seria transitório. Eles tinham esse plano de fazer eleições o mais rápido possível e devolver a democracia e o governo civil. Mas há um ditado que é muito correto: se quer conhecer um homem, dê poder a ele. Infelizmente, quando eles tiveram esse poder nas mãos, não o Castelo Branco, que era uma pessoa bem intencionada, mas outros que vieram depois dele, começaram a gostar e querer o poder”, afirmou Guerra.

Ele afirmou ainda que, no momento em que começou a abertura da ditadura, fez parte de um grupo secreto, “chefiado pelo coronel Perdigão”, que não concordava com a saída dos militares do poder. “Eu estava lá e obedecia ordens. Nós fazíamos tudo, os atentados e as coisas que aconteceram, para jogar para cima da esquerda, e assim não houvesse a abertura.”

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