Topo

Corrupção da Petrobras pode virar Watergate de Dilma, diz editorial do "Guardian"

Junior Lago/UOL
Muitos manifestantes pediram a saída de Dilma nos protestos de 15 de março Imagem: Junior Lago/UOL

Daniel Buarque

Do UOL, em São Paulo

18/03/2015 12h54Atualizada em 18/03/2015 13h30

Os escândalos de corrupção na Petrobras e a instabilidade política que tem levado centenas de milhares de brasileiros às ruas motivaram a publicação de um editorial pelo jornal britânico “The Guardian” sobre a atual situação econômica, social e política do Brasil.

Em um texto publicado na noite de terça-feira (17), o jornal descreve os problemas econômicos que afetam o país, os protestos da última semana e diz que, mesmo que não haja um risco real e imediato de retrocesso autoritário, a presidente Dilma Rousseff pode ficar preocupada com os risco de estar vivendo o seu Watergate, em referência ao escândalo que derrubou o presidente Nixon, nos Estados Unidos, no início dos anos 1970.

As revelações da Operação Lava Jato, diz o editorial, geraram uma insatisfação natural e legítima na população brasileira, que pede punição dos envolvidos.

"A presidente Dilma Rousseff tem bons motivos para se preocupar. Afinal, no passado ela ocupou uma posição de liderança dentro da Petrobras. Nenhuma evidência foi apresentada apontando envolvimento pessoal dela no pagamento de propinas, mas muitos se questionam se o escândalo de corrupção na Petrobras pode se tornar um Watergate para ela", diz.

O texto ressalta ainda que Dilma é “menos carismática de que Lula”, e que o governo do PT enfrenta desgastes após ficar 12 anos no poder.

Mesmo depois de avaliar que os protestos do último domingo haviam sido uma versão "mais velha, mais rica e mais branca" das manifestações de junho de 2013, apontando um posicionamento mais elitista do grupo que vai às ruas agora contra a corrupção, o jornal inglês diz que a insatisfação atual com o governo é uma continuação do que houve dois anos atrás.

Segundo o “Guardian”, as elites que governam o Brasil estão tendo que lidar com resultados da políticas bem-sucedidas do passado, enfrentando a insatisfação de milhões de brasileiros que saíram da pobreza, se juntaram às classes médias, e passaram a cobrar mais do governo.

"Existe no Brasil um sentimento crescente de que a classe política se desconectou das expectativas da população que vem se tornando mais educada, mais conectada por redes sociais e que cobra mais."

O jornal inglês diz ainda que as atuais turbulências pelas quais o Brasil está passando estão testando a democracia e a imagem do país como uma nação que quer ser líder do hemisfério Sul do planeta.

O "Guardian" alega, entretanto, que o Brasil tem instituições fortes o suficiente para conseguir sair da atual situação de instabilidade, e ressalta que o Brasil não é a Venezuela, onde o governo é acusado de perseguir a oposição.

"A democracia pode estar abalada por um escândalo de corrupção de proporções imensas, mas ninguém considera seriamente voltar a um regime militar, nem houve nenhuma cena de violência”, diz.