Operação Lava Jato

Delcídio não confirma conteúdo de reportagem; "IstoÉ" reafirma publicação

Leandro Prazeres

Do UOL, em Brasília

  • Pedro Ladeira - 20.out.2015/Folhapress

    O senador Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder do governo no Senado

    O senador Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder do governo no Senado

O senador Delcídio Amaral (PT-MS) divulgou uma nota nesta quinta-feira (3) na qual não confirma o conteúdo da reportagem da revista "IstoÉ" segundo a qual ele teria feito um acordo de delação premiada e citado a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do PT. A revista mantém as informações publicadas.

Segundo a reportagem, Delcídio teria feito um acordo de delação premiada com a Operação Lava Jato no qual ele apontava Lula como o mandante dos pagamentos feitos ao ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró e no qual a presidente Dilma teria interferido ao menos três vezes nos processos contra executivos de empreiteiras presos pela Lava Jato.

A nota divulgada por Delcídio diz que nem ele e "nem sua defesa confirmam o conteúdo da matéria assinada pela jornalista Débora Bergamasco".

Não conhecemos a origem, tão pouco reconhecemos a autenticidade dos documentos que vão acostados ao texto

Delcídio Amaral e Antônio Figueiredo Basto, advogado do petista

A diretora da sucursal da revista "IstoÉ" em Brasília e autora da reportagem que cita a suposta delação de Delcídio, Débora Bergamasco, reafirmou a autenticidade das informações divulgadas pela revista e disse que a publicação iria divulgar uma nota sobre o assunto ainda nesta quinta-feira. "A gente reafirma, sim, o que publicamos. Temos a comprovação de que esse acordo tramitou pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Está tudo registrado", afirmou.

No início da noite desta quinta-feira, a revista "IstoÉ" publicou uma nota em seu site contestando as declarações de Delcídio e de seu advogado. Segundo a nota, o suposto depoimento citado pela revista "foi colhido por integrantes da Operação Lava Jato" e que "a deleção de Delcídio aguarda a homologação no STF".

Sobre a hesitação de Delcídio em confirmar o acordo, a revista disse que "antes que as delações premiadas sejam homologadas pela Justiça, é procedimento padrão que os delatores neguem seus depoimentos, sob pena de terem a acordo negado posteriormente". A nota termina dizendo que o acordo citado pela revista "foi firmado com os procuradores e as declarações foram prestadas, mas o processo aguarda a aprovação do ministro Teori Zavaski". 

A nota de Delcídio, assinada por ele e por um de seus advogados, Antônio Augusto Figueiredo Basto, prossegue dizendo que, "em momento algum, nem antes, nem depois da matéria, fomos contatados pela referida jornalista para nos manifestarmos sobre a fidedignidade dos fatos relatados".

Apesar de não confirmar o conteúdo da reportagem, a nota também não contesta o teor do que foi relatado.

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Segundo a revista, além de apontar Lula como mandante dos pagamentos feitos à família de Nestor Cerveró, preso pela Operação Lava Jato e já condenado por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, Delcídio teria apontado em seu acordo de delação premiada que a presidente Dilma indicou o desembargador Marcelo Navarro para o STJ (Superior Tribunal de Justiça) como parte de uma estratégia para interferir no julgamento de executivos presos pela Lava Jato.

Delcídio teria contado aos procuradores que a estratégia foi discutida com Dilma no Palácio da Alvorada. Ainda segundo a reportagem, Delcídio ficaria responsável por conversar com Navarro para que ele confirmasse o compromisso de soltar o presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e o ex-presidente da Andrade Gutierrez Otávio Marques de Azevedo.

"Por fim, o senador Delcídio Amaral reitera o seu respeito e o seu comprometimento com o Senado da República", encerra a nota oficial enviada pelo senador.

Mais cedo, um dos advogados do senador já havia demonstrado surpresa com o conteúdo da reportagem. O advogado responsável pela defesa no seu processo de cassação no Senado, Gilson Dipp, afirmou não saber da existência de uma delação e se demonstrou incomodado com a notícia. "É novidade para mim, senão eu não estaria brigando tanto na defesa. Como que eu ia perder tempo assim no Senado?", indagou.

Outro lado dos citados e das instituições responsáveis

Os políticos citados na suposta delação de Delcídio também desmentiram as informações divulgadas pela revista.

O ministro José Eduardo Cardozo (Advocacia-Geral da União) disse que Delcídio "não tem credibilidade" nem "prima por dizer a verdade" e, caso tenha feito uma delação premiada para colaborar com a Operação Lava Jato, é possível que seja uma "retaliação" ao governo Dilma por não tê-lo ajudado a sair da prisão.

O ex-presidente Lula também disse, em nota, que nunca cometeu irregularidades. "O ex-presidente Lula jamais participou, direta ou indiretamente, de qualquer ilegalidade, seja nos fatos investigados pela operação Lava Jato, ou em qualquer outro, antes, durante ou depois de seu governo", diz o texto divulgado pelo Instituto Lula na tarde desta quinta-feira (3).

Segundo a "Folha de S.Paulo", o presidente do STJ, Francisco Falcão, disse que "não existiu" articulação entre a corte e o governo para libertar réus presos na Operação Lava Jato.

De acordo com o blog do jornalista Fernando Rodrigues, do UOL, a presidente Dilma Rousseff disse que rebaterá os conteúdos "ponto a ponto".

A reportagem do UOL entrou em contato por telefone com a assessoria de imprensa da Polícia Federal, que informou que a instituição "não comenta delações". A assessoria de imprensa da PGR (Procuradoria-Geral da República) não confirmou a existência do suposto acordo feito por Delcídio e a Lava Jato e disse que o órgão também "não se manifesta sobre delações".

A assessoria de imprensa do STF disse, por telefone, que o tribunal não iria se manifestar sobre o caso. A resposta foi semelhante à dada pela assessoria do ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF. Por telefone, a assessoria informou que o ministro não se manifestaria sobre o assunto. 

Impactos da delação

As informações sobre a suposta delação de Delcídio causaram reações no Congresso Nacional. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse que se os dados citados pela reportagem forem confirmados, o governo Dilma terá atingido o "fundo do poço". "Se confirmadas, (as acusações) merecerão por parte dos brasileiros indignação e repúdio. E teremos chegado ao fundo do poço", disse Aécio por meio de redes sociais. 

Enquanto oposicionistas pediam a renúncia da presidente Dilma, o deputado petista Wadih Damous (RJ), por sua vez, desqualificou a reportagem que cita a delação de Delcídio e a classificou como um "panfleto" para atrair manifestantes para os protestos antigoverno convocados para o dia 13 de março. "É um panfleto para convocação de uma manifestação fascista e golpista em 13 de março", disse. 

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