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Ronan pode não saber de crime, mas sabe de esquema do PT em Santo André

Joedson Alves/Estadão Conteúdo
Ronan tem provas sobre pagamentos de propina ao PT, mas não sabe sobre morte Imagem: Joedson Alves/Estadão Conteúdo

Ricardo Feltrin

Colunista do UOL, em São Paulo

2016-04-01T11:30:19

01/04/2016 11h30

Ronan Maria Pinto, dono do jornal “Diário do Grande ABC”, foi preso na manhã desta sexta (1º) na 27ª fase da Operação Lava Jato.

Ronan é apontado como ciente de muito mais informações do que a Lava Jato e a própria polícia têm a respeito do assassinato de Celso Daniel (PT), ex-prefeito de Santo André, em 2002.

Celso Daniel foi sequestrado no dia 18 de janeiro, uma sexta-feira, ao sair de um restaurante na zona sul de São Paulo. Seu corpo foi encontrado dois dias depois em uma estrada de Juquitiba, na região metropolitana.

O empresário é suspeito de "chantagear" o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2004, quando supostamente teria recebido R$ 6 milhões do pecuarista José Carlos Bumlai como "cala-boca" para não revelar o que sabe sobre o crime.

Desde então o "boato" de que uma conspiração petista mandou "eliminar" Daniel só fez crescer. Porém, esse rumor é muito menos crível que outra tese nunca divulgada.

A saber: O que o empresário Ronan Maria Pinto sabe sobre Celso Daniel não é que o PT tramou a morte do ex-prefeito, mas, sim, que Daniel era o "cabeça" de um grande esquema de arrecadação de propina (para o PT) feito junto a empresas de ônibus que prestam serviço à Prefeitura de Santo André. Esse esquema durou até o fim de 2001.

As provas que Ronan Pinto teria se devem à lógica que ele próprio também pagou propina ao esquema petista.

O empresário, portanto, pode ter provas materiais de pagamentos feitos a emissários de Celso Daniel (e do PT, por tanto). Ou pagava ou não continuaria prestando serviço ao município.

Segundo essa teoria, quando Celso Daniel descobriu que o esquema petista estava sendo roubado por outro "esquema" (o de Sergio Sombra, que até então era um amigo íntimo e operário de confiança do ex-prefeito), teria decidido tirar Sombra e outros personagens da engrenagem.

Essa, sim, teria sido sua sentença de morte.

Sombra até hoje nega participação na morte do ex-prefeito petista.

Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo
PF realiza operação no prédio do "Diário do Grande ABC" Imagem: Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo

Lava Jato diz que não investiga caso Celso Daniel

Em entrevista coletiva, os promotores que investigam a Lava Jato disseram que essa fase da operação visa apenas o crime federal de lavagem de dinheiro, sem qualquer relação com o assassinato de Celso Daniel.

"Os demais desdobramentos referentes a Santo André, cabe ao Ministério Público de Estadual [de São Paulo]. Em princípio, nosso objetivo é esclarecer a lavagem de dinheiro".

Apesar das declarações, o delegado da Polícia Federal Igor Romário de Paula disse que “a investigação de hoje, embora atual, remete a fatos que ainda estão no imaginário popular em tese como não esclarecidos”.

Outro lado

Em nota, a assessoria de imprensa do Ronan disse que o empresário reafirma não ter "relação com os fatos mencionados" e que está "sendo vítima de uma situação que com certeza agora poderá ser esclarecida de uma vez por todas".

O texto diz ainda que "há meses reafirmamos que o empresário Ronan Maria Pinto sempre esteve à disposição das autoridades de forma a esclarecer com total tranquilidade e isenção as dúvidas e as investigações do âmbito da Operação Lava Jato".

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