Alan Marques/Folhapress

Processo de impeachment

Na internet, imagem de Dilma foi da desconfiança ao #nãovaitergolpe

Marcelle Souza

Do UOL, em São Paulo

  • Arte UOL

Nos últimos meses, a internet ajudou a ampliar uma imagem de desconfiança em relação à Dilma Rousseff, segundo especialistas ouvidos pelo UOL. As redes deram eco às gafes e contradições da presidente e reforçaram o seu aspecto sisudo, situação bem diferente da "Dilma Bolada", perfil de humor que ajudava a suavizar a imagem da presidente na internet.

Por outro lado, os professores afirmam que a internet também deu visibilidade a um forte movimento de defesa do mandato da presidente, representado pela hashtag #nãovaitergolpe. Para eles, no conturbado cenário político, ninguém se salva dos ataques na internet.

"O que podemos dizer com mais segurança, sem dados, é que as redes pelo menos reforçaram bastante alguns estereótipos já existentes sobre Dilma: os discursos desconexos (alvo favorito de memes), gafes, aspecto sisudo e contradições entre realidade e discurso oficial (que pode contribuir para aumento da desconfiança)", afirma Malena Rehbein, professora do mestrado profissional em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados.

Rehbein declara que no primeiro mandato a imagem da presidente nas redes sociais era bem diferente. "O perfil da Dilma Bolada, por exemplo, ajudava a suavizar a imagem da presidente, dando humor ao seu aspecto mais sisudo. Isso contribuiu para a sua popularização", diz.

Para Fabio Malini, professor e coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), a crise política em si prejudicou a imagem da presidente. "Existe uma dinâmica concreta de um governo paralisado, uma base rachada, uma relação de desconfiança tanto com a esquerda quanto com a oposição, e dessa imagem ela não conseguiu se desvincular", diz.

Internet também teve apoio

Se por um lado os memes e o compartilhamento de links com as gafes da presidente podem ter ajudado a reforçar uma imagem de desconfiança, também foi nas redes que se fortaleceu o movimento de apoio à presidente.

"Eu acho que o #nãovaitergolpe é muito forte. Esse tipo de símbolo incorpora e une facilmente pessoas com diferentes graus de instrução, comunica muito mais e tem um impacto poderoso", disse o professor Pedro Waengertner, coordenador do núcleo de estudos em negócios digitais da pós-graduação da ESPM, em São Paulo.

"Depois do 18 de março [quando foram realizados atos em apoio à presidente], é impressionante como a coisa ganhou fôlego. O volume de tuítes relacionados ao #nãovaitergolpe é três vezes maior na última semana do que #impeachmentjá, #tchauquerida, #foradilma e #foralula", diz Malini, que estudou a movimentação desses grupos no Twitter.

"Na internet, o ativismo só ganha força com a viralização de atos de rua", explica. "Dilma tem uma proteção, uma rede que cresceu nos últimos dias, mas isso não tem um impacto necessariamente na popularidade", afirma o professor.

Na internet, a rede de apoio também se mobiliza para dar visibilidade ao posicionamento da presidente, como no vídeo divulgado por ela na última sexta-feira (15).

"Talvez um pronunciamento na TV causasse mais reação do que nas redes sociais, mas nas redes ela [a presidente Dilma] tem uma capilarização. É como se na TV ela falasse sozinha, enquanto na internet há uma rede de apoio que fala com ela, é mais fácil penetrar, ela atinge milhões de pessoas, gente que compartilha e comenta. Por outro lado, tem gente contra também, que posta ridicularizando", diz Rehbein.

Nas redes, ninguém sai ileso

Diferentemente de Dilma, que recebe muitas críticas, mas tem uma rede de apoio, Michel Temer tem uma fragilidade na internet, segundo Malini.

"Ele não tem uma rede, ele vai ser atropelado se o governo cair na sua mão por uma rede absurdamente grande de oposição, que pode ganhar força com o apoio de outros grupos, como o Fora Cunha", afirma.

Para os professores ouvidos pelo UOL, o cenário nas redes sociais não é favorável a nenhum dos envolvidos no processo de impeachment.

"Eu acho que ninguém se salva, não vejo ninguém saindo com uma imagem positiva. No geral, tenho a sensação de que todo mundo que representa o status quo, seja para um lado seja para o outro, está sendo bombardeado", afirma Waengertner, da ESPM. "O cenário é muito volátil. É um processo de desgaste tamanho que talvez alguém que vá despontar no cenário político ainda não esteja em evidência", diz.

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