"Temer não pode governar", diz antropólogo italiano que devolveu condecoração

Patrícia Araújo

Colaboração para o UOL, em Palermo (Itália)

  • Caio Guatelli - 12.nov.2007/Folhapress

    Para Massimo Canevacci, Brasil sofre com um governo de "tendência autoritária"

    Para Massimo Canevacci, Brasil sofre com um governo de "tendência autoritária"

O renomado antropólogo italiano Massimo Canevacci, que devolveu na semana passada a condecoração Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul ao governo brasileiro, afirmou em entrevista ao UOL que o atual presidente Michel Temer "não pode governar" porque é visto pelo povo como "um traidor".

"Temer não pode governar. Saiu nos jornais: 70% da população recusa Temer. É claríssimo que ele é visto como um traidor. Ele é um aliado do governo que, em italiano, seria chamado de 'voltagabbana' [vira-casaca, em português]. Não dá para gostar desse tipo de comportamento do Temer."

Canevacci classifica o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como "golpe parlamentar" e diz que o problema do atual governo é ainda maior porque tem se mostrado "tendencialmente autoritário" e que "poderia virar também ditatorial".

"Golpe parlamentar significa que as regras do país, do Parlamento, mais ou menos são aplicadas, mas a regra substancial é muito mais profunda e complexa. Eu queria sublinhar que está nascendo uma tendência, que para mim é muito perigosa, de se criar uma equivalência entre o que é o Estado brasileiro e o que é o governo brasileiro. Em uma democracia republicana, a diferença entre os dois é fundamental."

Procurada, a assessoria de imprensa da Presidência da República disse que não iria comentar o assunto.

Quem é Canevacci?

Com 14 livros e dezenas de estudos publicados no Brasil e no exterior, Canevacci é considerado uma referência nas pesquisas sobre metrópoles e mídias digitais.

Nascido em Roma em 1942, o italiano é professor aposentado de Antropologia Cultural da Universidade La Sapienza, em Roma, e pesquisador convidado do IEA (Instituto de Estudos Avançados da USP).

Em 1994, ele foi condecorado com a Ordem Nacional Cruzeiro do Sul, a mais alta homenagem feita pelo governo brasileiro a um estrangeiro, por seu livro sobre São Paulo intitulado "A Cidade Polifônica". Há sete anos, o estudioso mora na capital paulista.

Colar roubado

Sobre a devolução da condecoração da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, o antropólogo disse que, infelizmente, restituiu ao governo somente a carta oficial que acompanhava o colar. A joia lhe foi roubada quatro anos após receber o título, quando morava em Roma.

"Enviei, quatro dias atrás, a carta junto com o comunicado da minha decisão. Não sei se vai chegar à mão dele [Temer], mas, o ato formal, eu fiz."

"Profunda crise"

Embora apoie os movimentos que pedem eleições imediatas para presidente, o antropólogo se diz descrente sobre a capacidade de um novo governo de resolver a "profunda crise" que vive o Brasil.

"Eu falo como observador. Eu não vejo atualmente um partido ou um líder político que possa resolver os problemas do Brasil. Esse é o lado mais dramático e mais perigoso, digamos assim, da situação brasileira. Não tem uma alternativa republicana, para mim credível, para resolver os atuais problemas."

E continua: "seria necessário que se colocasse [na Presidência] uma personalidade fora da configuração parlamentar atual, que fosse limpa, com uma dimensão ética, para que pudesse aglutinar as forças mais progressistas do parlamento e do povo brasileiro. Mas para isso, os representantes políticos tradicionais deveriam fazer um passo para trás. [O ex-presidente] Lula, por exemplo, não deveria ser candidato, e também outros, como Neves [o senador Aécio Neves (PSDB-MG)], não deveriam ser candidatos. Seria preciso individuar uma pessoa além dos partidos atuais".

Além disso, para o pesquisador, a solução para a crise também teria que passar por uma reforma política.

"Esse tipo de proliferação de pequenos partidos, a pulverização dos partidos na política do Brasil, é uma questão muito grave porque se conectada com a corrupção. Esse favoritismo que se cria quando se fazem alianças [partidárias]", avalia

"Se o parlamento conseguisse fazer uma reforma e indicar novas eleições, aí, sim, eu acho que se poderia frear a coisa mais dramática que está acontecendo nos últimos anos no país, que é a fratura dentro do povo brasileiro, não somente dentro das instituições. Se está criando uma contraposição violenta entre dois mundos."

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