Operação Carne Fraca

A carne brasileira não é fraca, é "forte" e a melhor do mundo, diz Temer

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

Em meio à desconfiança internacional sobre a qualidade da carne brasileira após a operação da Polícia Federal que investiga um esquema de corrupção na fiscalização de frigoríficos, o presidente Michel Temer (PMDB) voltou a defender o produto nacional nesta sexta-feira (24).

Em discurso durante evento de entrega de residências do "Minha Casa, Minha Vida" em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Temer disse que "a carne brasileira é a melhor do mundo" e "forte".

Temer fez o comentário em referência a Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), novo ministro das Relações Exteriores, presente no evento. "O Aloysio vem prestando enormes serviços ao Estado e ao país", declarou.

"Ele [Aloysio Nunes] logo pegou um problema de saída. Mas a carne não é fraca, Aloysio. A carne brasileira é a melhor carne do mundo. Por isso, quero dizer que ele pegou a chamada Operação Carne Fraca sabendo que a nossa carne é forte e logo começou a trabalhar ao nosso lado, ao lado do Blairo Maggi [ministro da Agricultura, filiado ao PP] para imediatamente estancar esta possibilidade de uma eventual restrição à compra da carne brasileira", disse Temer.

Licenciado do cargo de senador, o ministro Aloysio Nunes está à frente do Itamaraty desde 7 de março. A operação "Carne Fraca" foi realizada no último dia 17.

Restrições

Até o momento, ao menos 18 mercados apresentaram algum grau de restrição à entrada da carne brasileira após a ação da Polícia Federal. Outros quatro mantiveram o mercado aberto, mas intensificaram a fiscalização e três enviaram pedidos de informação.

As investigações atingem ao menos 21 empresas por suspeitas de venda de carne adulterada e de corrupção de fiscais. Seis delas são suspeitas de vender carne deteriorada, vencida ou alterada. A maioria das 21 citadas não tem relação com carne estragada, mas com problemas administrativos, segundo o Ministério da Agricultura.

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Corrupção e fraudes

Fora os problemas de qualidade das carnes, há investigação sobre corrupção e outras fraudes administrativas, como dificultar ações de fiscalização, irregularidades no procedimento de certificação sanitária, tentativa de evitar a suspensão de exportações, poluição ambiental, uso de senha de servidor do Ministério da Agricultura e falta de controle no recebimento da matéria-prima. Confira a lista das empresas com essas acusações:

  • Seara (da JBS) – Lapa (PR): Irregularidades no procedimento de Certificação Sanitária
  • BRF - Mineiros (GO): Corrupção, embaraço da fiscalização internacional e nacional e tentativa de evitar a suspensão de exportação
  • Frigorífico Oregon - Apucarana (PR): Corrupção e tornar difícil as ações de fiscalização
  • Frango D M Indústria e Comércio de Alimentos – Arapongas (PR): Corrupção
  • Frigorífico Argus - São José dos Pinhais (PR): Uso de senha do servidor do Ministério da Agricultura pelo funcionário da empresa
  • Frigomax Frigorífico e Comércio de Carnes - Arapongas (PR): Poluição ambiental e corrupção
  • JJZ Alimentos - Goianira (GO): Embaraço da atividade de fiscalização e corrupção
  • Frigorífico Rainha da Paz - Ibiporã (PR): Corrupção
  • Indústria de Laticínios S.S.P.M.A. - Sapopema (PR): Dificultar as ações de fiscalização
  • Central de Carnes Paranaense - Colombo (PR): Corrupção
  • Breyer & CIA - União da Vitória  (PR): Corrupção
  • E.H. Constantino & Constantino - Londrina (PR): Corrupção
  • Fábrica de Farinha de Carnes Castro - Castro (PR): Não controle de recebimento de matéria-prima
  • Transmeat Logística, Transportes e Serviços - Balsa Nova (PR): Corrupção

Respostas das empresas

A JBS disse, em nota, que "o ministro da Agricultura, Blairo Maggi esteve na única instalação da JBS citada na investigação e constatou o rigor nos processos industriais".  A empresa afirma que "nenhuma das unidades da companhia foi interditada e não foi identificado nenhum problema em seus produtos. A JBS segue os mais rígidos padrões e protocolos nacionais e internacionais de qualidade e de segurança alimentar".

"A companhia reafirma seu compromisso de respeito e transparência com o governo, colaboradores e consumidores. A JBS ressalta que não compactua com qualquer desvio de conduta de seus funcionários e tomará todas as medidas cabíveis", registra a nota.

A BRF informou que "não compactua com práticas ilícitas" e que, ao ser informada da operação da PF, tomou imediatamente as medidas necessárias para a apuração dos fatos. "Essa apuração será realizada de maneira independente e caso seja verificado qualquer ato incompatível com a legislação vigente, a BRF tomará as medidas cabíveis e com o rigor necessário".

Em nota em seu site, a Peccin Agro industrial informou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e "lamenta a divulgação precipitada de inverdades sobre o seu sistema de produção".

A Frigorífico Larissa disse que o Ministério da Agricultura faria uma inspeção no estabelecimento nesta terça-feira (21) e que após a conclusão do laudo poderia dar um posicionamento.

O advogado da Indústria e Comércio de Carnes Frigosantos, João Francisco Monteiro Sampaio, afirmou que a empresa ainda não sabe o motivo pelo qual está sendo investigada.

Em nota em seu site, o Frigorífico Rainha da Paz informou que "mantém rigoroso controle de qualidade e de higiene em seu processo produtivo, com cumprimento das normas sanitárias pertinentes".

A Breyer & Cia informou que é uma empresa de mel e cera de abelhas e não tem relação comercial com frigoríficos. "Quanto ao pagamento de contraprestações apontadas na investigação dos frigoríficos, a empresa Breyer não necessita de favorecimentos considerando seu comprometimento com a qualidade". A empresa se diz contra esse tipo de ação.

A Frango D M Indústria e Comércio de Alimentos disse que a empresa foi mencionada devido à doação de duas caixas de carne de frango. O proprietário da empresa, Domingos Martins, informou, por meio de nota, que o fato realmente aconteceu e foi autorizado como uma contribuição a um evento sem fins lucrativos. "Após vistoria na indústria, realizada na sexta-feira (17), nenhuma irregularidade foi verificada e a produção segue normalmente".

O presidente do Madero, Junior Durski, informou, por meio de nota, que colaborou com a Polícia Federal e fará o mesmo com o Ministério da Agricultura. "Estou muito tranquilo, pois sei que os controles na nossa fábrica são irretocáveis e ainda espero que no desenrolar das investigações tudo fique esclarecido". Ele disse ainda que a cadeia produtiva não pode ser prejudicada por "poucos frigoríficos irregulares".

O Grupo Argus informou não solicitou a qualquer servidor do Ministério da Agricultura senhas para acessar ambientes restritos e promover liberações indevidas. A empresa afirma ainda que espera que os fatos sejam urgentemente apurados para que se constate sua idoneidade.

A JJZ Alimentos informou que está dentro das normas e exigências legais, com habilitação para comercialização de seus produtos no mercado interno e externo. A empresa diz ter certeza de que nenhuma irregularidade foi ou será encontrada.

A reportagem também entrou em contato com JBS, responsável pela Seara, mas não teve resposta nesta terça-feira (21).

O UOL não conseguiu contato por telefone com as empresas Oregon, Frigomax Frigorífico e Comércio de Carnes, Indústria de Laticínios S.S.P.M.A, Central de Carnes Paranaense, Frigorífico Souza Ramos, E.H. Constantino & Constantino, Fábrica de Farinha de Carnes Castro e Transmeat Logística.

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