CUT prepara 'escracho' contra parlamentares que defenderem reformas

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Antonio Cruz/Agência Brasil

    O presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Vagner Freitas

    O presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Vagner Freitas

Um escracho com direito a panfletagem com a imagem do "traidor", malhação do Judas e visitas-surpresa em agendas públicas ou aeroportos: esse conjunto de ações é o que entidades sindicais lideradas pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) prometem a parlamentares –senadores ou deputados –que se manifestarem favoráveis às reformas trabalhista e previdenciária defendidas pelo governo de Michel Temer (PMDB). A reação foi discutida esta semana, em São Paulo, e deve ser implementada a partir do mês que vem no chamado "Abril vermelho" prometido pela central sindical, a maior do país.

O nome é uma alusão ao "Abril Vermelho" do MST (Movimento dos Sem Terra), período em que a organização intensificava o calendário de mobilizações pelo país em defesa da reforma agrária. "Queremos interferir na opinião de deputados e senadores no sentido de que eles saibam que quaisquer deles que defenderem essas reformas estarão de mãos dadas com a 'morte' –no sentido de que todos esses que votaram por essas propostas não se elegerão em 2018", afirmou ao UOL, o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas. 

As reformas em discussão no Congresso, na avaliação da CUT, ajudam a precarizar as relações de trabalho, por meio da terceirização irrestrita aprovada semana passada pela Câmara, e comprometem o direito de aposentadoria por meio da idade mínima, entre outros pontos. Para o governo federal, as medidas são fundamentais para equilibrar as contas públicas.

Freitas, afirmou que o dia nacional de mobilização, marcado para esta sexta (31) em todo o país será uma espécie de "aquecimento" para a "greve geral" organizada para 28 de abril –nos moldes do que foi realizado em 15 de março deste ano.

Conforme o dirigente, entretanto, durante todo o mês que vem, ações diretas sobre parlamentares servirão como pressão para que eles barrem as mudanças trabalhista e previdenciária, sob ameaça de sofrer o ônus eleitoral dessas medidas. "A sociedade é contra essas reformas, pois elas afetam diretamente os direitos trabalhistas e transformam a carteira assinada em bico. Nosso alvo é o deputado, a deputada, o senador e a senadora que insistirem nisso –mas já começamos a observar uma debandada, já que ninguém quer abraçar cachorro morto", disse.

Avener Prado/Folhapress
Manifestantes protestam na Paulista contra reforma da Previdência proposta pelo governo Temer

Central prepara malhação dos 'Judas' e ação virtual

Indagado sobre que ações são planejadas para pressionar os parlamentares, o presidente da CUT citou ações virtuais e físicas. "Vamos encher a caixa postal e o WhatsApp deles e visitá-los nos aeroportos, além de malharmos os 'Judas'. Também iremos em suas bases eleitorais para dizer que esses parlamentares são traidores da classe trabalhadora e colocaremos cartazes com as carinhas deles, pelo Brasil inteiro, no sentido de esclarecer a eles que não votaremos nesse tipo de candidato em 2018", completou.

Outras ações do "Abril Vermelho", de acordo com Freitas, serão implementadas não apenas com os sindicatos, mas com outras entidades da sociedade civil, como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), no sentido de chamar a greve geral programada para dia 28.

O projeto que estende a terceirização para as atividades-fim ainda não foi sancionado por Temer. Já a reforma previdenciária deve entrar na pauta da Câmara, segundo já afirmou o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), entre o fim de abril e começo de maio. E se a terceirização for sancionada antes da greve programada para dia 28? "Se porventura esse governo tiver a desfaçatez de sancionar, daremos a resposta sindical necessária – chamando a greve imediatamente", definiu Freitas.

Alex Silva/ Estadão Conteúdo
Lula discursou na avenida Paulista durante protesto contra a reforma da Previdência, em SP, em 15 de março

Dirigente diz que não negocia com Temer

O presidente da CUT negou que a entidade cogite qualquer abertura de negociação com o governo federal em troca de ajuda para retomar a cobrança da contribuição assistencial --taxa paga por trabalhadores para financiar a atividade dos sindicatos.

"É absolutamente infeliz e irresponsável se cogitar isso em relação à CUT. Não vamos vender os direitos dos trabalhadores por conta de financiamento sindical; nunca negociamos isso, muito menos com o governo Temer", afirmou.

O ato do último dia 15 foi encerrado em São Paulo com discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um trio elétrico na avenida Paulista. Mesmo o petista tendo se declarado pré-candidato à Presidência em 2018, em mais de uma oportunidade, Freitas negou que o gesto na Paulista tenha tido conotação eleitoreira, mas não confirmou se vetará Lula ou outros pré-candidatos ligados à esquerda que queiram usar novos eventos do tipo como palanque.

"A CUT não tem posicionamento partidário; pessoas da CUT, sim. Sou dirigente, sou militante petista e vou contribuir para a candidatura de Lula em 2018, só que a central representa os trabalhadores", relatou. "Mas a ida de Lula à Paulista não teve nada a ver com a candidatura dele, e sim, o convidamos para que, como ex-presidente da República, explicasse por que não aplicou as medidas que o atual governo está adotando."

Haverá espaço a outros políticos interessados em 2018? "Não fazemos atos isolados; estamos, por exemplo, com as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, mas não é o nosso objetivo fazer campanha para candidato nenhum, e sim, ganhar força para impedir essas reformas. Não convidaremos ninguém interessado em fazer campanha, mas, se aparecerem espontaneamente, analisaremos."

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RAIO-X DA CUT

- Maior central sindical do Brasil, da América Latina e a 5ª maior do mundo
- 3.806 entidades filiadas
- 7.847.077 trabalhadoras e trabalhadores associados
- 23.981.044 trabalhadoras e trabalhadores na base
- Fundação: 28 de agosto de 1983, em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo)

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