Operação Lava Jato

"Sem provas, não faríamos acusação a Lula", diz Dallagnol

Rafael Moro Martins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

  • Rodolfo Buhrer/Reuters

    O procurador Deltan Dallagnol, que lança livro nesta quarta em Curitiba

    O procurador Deltan Dallagnol, que lança livro nesta quarta em Curitiba

O coordenador da operação Lava Jato no MPF (Ministério Público Federal), Deltan Dallagnol, disse nesta quarta-feira (26) que a força-tarefa não teria oferecido denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se não tivesse "provas consistentes" contra o petista.

"Aliás, mais de uma [denúncia]", afirmou. "Só foram oferecidas acusações criminais porque entendemos que havia provas suficientes para realizá-las." 

Dallagnol deu entrevista ao UOL em um hotel do Batel, bairro nobre de Curitiba, para falar do lançamento de seu livro "A Luta contra a Corrupção" (Sextante, 2017, 320 págs., R$ 39,90), marcado para esta noite, na capital paranaense.

"Senti falta de uma discussão sobre os rumos pelos quais podemos seguir com o país", disse, ao justificar a decisão de escrever um livro. "[Mas] Não penso nisso hoje", respondeu sobre uma possível carreira política. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

UOL - Por que fazer um livro sobre a Lava Jato agora? Ele é um relato definitivo? Haverá outro adiante?

Deltan Dallagnol - O livro tem uma proposta muito clara, que é dizer que é preciso ir além da Lava Jato. É dizer que são necessárias reformas e que elas precisam ser feitas agora, quando temos uma janela de oportunidade aberta. Talvez no final da Lava Jato seja muito tarde para fazer as reformas que são necessárias, que possam nos conduzir para um país com menos corrupção. O livro surgiu quando li o do Vladimir Neto [sobre Sergio Moro], que é muito bom, que retrata a Lava Jato e os bastidores, e senti falta de algo mais. Senti falta de uma discussão sobre os rumos pelos quais podemos seguir com o país. Meu objetivo foi contribuir com essa reflexão.

"Houve quem não conseguisse dormir" na noite que se seguiu à notícia de que o ministro Teori Zavascki ("que já tinha sofrido ameaças") morrera num acidente aéreo, o senhor escreve no livro. Por quê? A Lava Jato teme por sua segurança? Já houve ameaças?

A referência a não conseguir dormir se deveu ao impacto emocional da morte dele. Teori era uma pessoa que se fez respeitar pelas decisões que proferiu, de conteúdo técnico, de caráter apartidário. Isso causou um impacto muito grande em muitos de nós. Não falamos de questões de segurança por razões de segurança. 

O senhor menciona, no livro, o processo a que está respondendo, movido pelo ex-presidente Lula. Como se sente com relação ao processo? O senhor já foi eleitor do ex-presidente?

Não me manifesto quanto a meus votos, porque isso não tem relevância para minha atuação pública como procurador. Em relação à ação, encaramos como uma reação às investigações. De modo geral, e não especificamente sobre este caso, quando fatos são graves, provas são consistentes, a pessoa investigada busca atacar credibilidade dos investigadores. Sofremos ataques de inúmeros investigados. Eu encaro essa ação dentro desse contexto.

Em geral, a defesa e os apoiadores do ex-presidente dizem que não há provas contra ele, mas só afirmações de delatores. Há provas contra Lula?

Sem provas consistentes, nós não teríamos feito a acusação criminal oferecida contra ele. Aliás, mais de uma. Só foram oferecidas acusações criminais porque entendemos que havia provas suficientes para realizá-las. Nossa expectativa [sobre o Power Point] é que pessoas possam olhar pelos nossos olhos como aquilo aconteceu.

O senhor cita o humorista Gregório Duvivier, considerado um ícone da esquerda nas redes sociais. É fã dele?

Assisti especificamente a um vídeo em que ele tratava com bastante humor a mudança de governo. Me parece que é um excelente humorista. Ri bastante com o vídeo. O quanto ele é bom não tem a ver, na minha perspectiva, com ele ser de esquerda ou de direita. Assim como a nossa visão, a nossa linha de atuação, na Lava Jato, não tem nada a ver com esquerda e direita. É técnica, imparcial e apartidária.

No livro, o senhor se refere, muitas vezes, ao apoio de manifestações nas ruas à Lava Jato. Mas parte delas foi formada por apoiadores de uma "intervenção militar constitucional". Parece haver um crescente sentimento antipolítico na sociedade, o que pode levar algumas pessoas a achar que a solução pode estar fora da democracia. O que o senhor pensa disso?

Não existe solução fora da democracia. Todas as soluções que defendemos são por canais pacíficos e dentro do sistema democrático. Ainda que exista um certo desgosto quanto à atuação de determinados políticos, precisamos honrar as instituições, pois dependemos delas para o bom funcionamento do país. Não vejo maior repercussão de grupos antidemocráticos. Se houvesse, seria algo que nos preocuparia, certamente.

A leitura do livro deixa a impressão de que a aprovação das dez medidas é um ponto de honra para o senhor. É mesmo? 

Não. O que me move é o que move todos os brasileiros, que é o desejo de um país melhor. O que busco é aquilo que me parece que é a solução de que o país precisa. Dez medidas são uma contribuição à reflexão e possível solução a problemas existentes e inegáveis. Aceitamos soluções melhores, ou até um pouco piores. O funcionamento do sistema de Justiça, independentemente de cor, bolso ou cargo só vai acontecer se mudarmos a lei.

O senhor considera a possibilidade de deixar a carreira no MPF e abraçar a política para levá-las adiante?

Não penso nisso hoje. 

Pode vir a pensar amanhã?

[Após uma pausa] Eu não saberia dizer o que vou pensar no futuro. Hoje, o melhor modo que tenho de contribuir é por meio da função pública que exerço.

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