Ex-delegado da Lava Jato critica PGR e diz que delação sem prova não vale nada

Do UOL, em São Paulo

  • Ernani Ogata/Código19/Folhapress

    Marcio Anselmo (foto) afirmou que Rodrigo Janot trata a Polícia Federal como inimiga

    Marcio Anselmo (foto) afirmou que Rodrigo Janot trata a Polícia Federal como inimiga

O delegado da Polícia Federal Márcio Anselmo, que até o começo do ano integrava a equipe de investigação da Operação Lava Jato, disse que uma delação premiada sem provas "não serve para nada" e criticou a atuação da PGR (Procuradoria-Geral da República) em acordos de colaboração. As declarações foram dadas nesta quinta-feira (29) durante o 12º Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

"Você não vai buscar uma condenação só com aquilo que ele [delator] está falando", afirmou Anselmo.

Para ele, que agora trabalha na Corregedoria da Superintendência da PF no Espírito Santo, uma delação bem feita deveria ser baseada nas investigações, que eram de responsabilidade da polícia. "A PGR não buscou as informações da PF", disse, referindo-se à homologação das delações de executivos da Odebrecht. Anselmo argumentou que a partir das provas colhidas, a qualidade dos depoimentos seria melhor.

"Parece que o interessante é a colaboração e esquecer o resto. Ninguém vai chegar de bonzinho e vai colaborar", disse, lembrando que a JBS já era investigada pela PF em diversas operações antes de seus executivos fecharem acordo com a PGR.

Sem se referir especificamente ao caso de Joesley Batista, delator e dono da JBS, Anselmo também disse ser "juridicamente contrário" à concessão de imunidade em casos em que a pessoa já é investigada. 

"Tem que ser uma colaboração muito boa para dar isso. E na atual conjuntura eu acho difícil aparecer alguma coisa tão boa para merecer isso", afirmou.

Anselmo reservou palavras duras ao trabalho do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, junto à PF.

"Parece que o Janot acorda de manhã e pensa: 'como eu vou diminuir o trabalho da polícia hoje?'", disse. "De longe, ele [Janot] foi o melhor procurador-geral. Mas ele poderia não encarar a polícia como inimiga."

As declarações do delegado vêm a público dois dias após a absolvição do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto pela 8ª Turma do TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), que derrubou a condenação do juiz Sergio Moro, da Justiça Federal do Paraná, ao entender que não havia provas que corroborassem as delações usadas no processo. Vaccari já foi condenado por Moro em outras quatro ações da Lava Jato e é réu em mais três. Ele continua preso preventivamente em Curitiba.

"Investigação custa dinheiro"

Anselmo também defendeu a necessidade de a PF ter autonomia em relação ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Segundo ele, o que mais atrapalha o trabalho da polícia é a subordinação do orçamento, citando a suspensão da emissão de passaportes desde a última terça-feira (27).

Anselmo disse ainda que "investigação custa dinheiro" e defendeu que a Polícia Federal deveria ter uma autonomia orçamentária como têm as universidades federais. Na avaliação dele, a PF deveria ficar sob a chancela do Judiciário, por não ter as mesmas "amarras políticas do Executivo". 

"Não tem condições de fazer tudo com esse orçamento. Hoje o efetivo é mínimo. Temos cada vez mais aposentadorias e um déficit enorme de pessoal. O efetivo de hoje é o mesmo de dez anos atrás", afirmou sem, contudo, dar detalhes sobre valores e números. 

Segundo ele, o "tempo áureo da polícia" foi o de "MTB", em referência ao ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Anselmo disse que houve um fortalecimento das atividades da PF, novos concursos públicos, entrada de profissionais cada vez mais qualificados, "com mestrado e doutorado", o que ampliou a capacidade de investigação da polícia.

O UOL entrou em contato com a Procuradoria-Geral da República para repercutir as opiniões de Marcio Anselmo, mas ainda não obteve resposta.

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