Operação Lava Jato

Questionado sobre aluguéis não-pagos, Lula diz que d. Marisa cuidava das finanças

Do UOL, em São Paulo

Ao juiz Sergio Moro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atribuiu à ex-primeira-dama Marisa Letícia a responsabilidade pelo pagamento do aluguel do apartamento vizinho ao dele, no Edifício Green Hill, em São Bernardo do Campo (SP), objeto da ação pela qual ele foi interrogado nesta quarta-feira (13). O imóvel foi comprado em nome do sobrinho do pecuarista e amigo de Lula José Carlos Bumlai, mas foi utilizado por seguranças da Presidência da República e, posteriormente, pela família do ex-presidente.

Lula disse que ficava a cargo da mulher as finanças da casa. "Nunca tive medo de deixar um cartão de crédito com ela (...) Dona Marisa ficou com a responsabilidade de fazer o contrato e de acertar aluguel, condomínio, IPTU e outras coisas da casa, era tudo ela que fazia", argumentou.

Além de negar irregularidades em relação ao imóvel em São Bernardo, Lula apresentou no depoimento desta quarta-feira (13) uma série de justificativas para rebater a acusação de ter recebido propinas da Odebrecht com a compra de um terreno em São Paulo que serviria de sede para o Instituto Lula.

Assim como no processo do tríplex do Guarujá, em que ele foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão, por ter recebido no imóvel propinas da OAS, Lula disse que a ex-primeira-dama, que morreu em fevereiro, era quem cuidava do apartamento que era usado pelos seguranças da Presidência, quando ele ocupava o Planalto, e depois foi comprado por Glauco Costamarques Bumlai e passou a ser usado por sua família.

A acusação do Ministério Público Federal diz que o imóvel, no prédio onde Lula mora desde 1998, foi pago pela Odebrecht e colocado em nome de sobrinho de Bumlai. Os aluguéis não teriam sido pagos entre 2011 e 2015. Há um contrato de locação entregue à Lava Jato entre o sobrinho de Bumlai em nome de Dona Marisa.

Lula explica sobre pagamentos de aluguel

Moro pediu ao réu para explicar como o aluguel passou a ser pago no período questionado. Lula ficou irritado com as perguntas de Moro sobre a falta de entrega pela defesa do ex-presidente dos comprovantes de pagamento de aluguel do apartamento.

"Vou repetir para o senhor. Nunca houve qualquer denúncia que o apartamento não estava sendo pago, seu Glauco nunca levantou... seu Glauco nunca cobrou, seu Glauco nunca me telefonou. Nem ele, nem ninguém. Pois bem, estou dizendo para o senhor que tinha uma relação da dona Marisa no contrato do aluguel, que a dona Marisa cuidava de forma responsável das coisas da casa. Só fiquei sabendo agora quando Glauco prestou depoimento."

Lula ressaltou que foi comunicado que a situação do aluguel estava normal antes da morte de Maria Letícia, em janeiro deste ano. "Quando [a ex-primeira-dama] Marisa já estava doente, chegou uma carta pedindo que o pagamento fosse efetuado no Banco do Brasil. Não se fala nada de atraso. Então para mim estava tudo normal", disse.

Moro rebateu a fala do ex-presidente e apontou se seria possível o réu apresentar os comprovantes de pagamento do aluguel. "Eu compreendo que o senhor seja um homem bastante ocupado, mas, depois de formulada a acusação, não foi possível formular isso com as pessoas ao seu redor?", questionou o magistrado.

Lula justificou que, por ter uma conta conjunta com Marisa Letícia, não precisava se preocupar com qualquer transação financeira.

"Eu penso que eu fiquei próximo de 30 anos sem assinar um cheque na minha vida, porque a dona Marisa, primeiro, era muito séria no trato de dinheiro, era muito econômica — eu nunca tive medo de deixar um cartão de crédito com ela, porque eu tinha a consciência que a dona Marisa não gastaria nada que não fosse essencial —, e a dona Marisa ficou com a responsabilidade de fazer o contrato e de acertar aluguel, condomínio, IPTU e outras coisas da casa, era tudo ela que fazia", disse.

Instituto Lula

Em relação à acusação sobre o Instituto Lula, o ex-presidente negou conhecer um contrato de opção de compra e venda do imóvel em São Paulo encontrado em sua casa em buscas e apreensões da Polícia Federal. Trata-se de um termo de opção de compra e venda em nome do pecuarista José Carlos Bumlai de terreno onde supostamente seria sediado o Instituto Lula, segundo o MPF, delatores da Odebrecht e o ex-ministro Antonio Palocci. 

O ex-presidente negou saber que a Odebrecht teria envolvimento na compra do terreno e que o imóvel teria sido comprado também em nome de Glaucos da Costamarques, primo de seu amigo José Carlos Bumlai.

Em meio ao interrogatório, Moro expôs a Lula um documento. "Um documento que eu vou lhe mostrar, senhor presidente, evento 1, anexo 234 desse processo. Um contrato de opção de compra entre a ASA agência sul-americana e do outro lado Jose Carlos Bumlai representado por Roberto Teixeira e diz respeito a este imóvel na rua Haberbeck Brandão. Vou mostrar esse documento".

Lula respondeu dizendo que "queria até fazer uma sugestão": "Essas coisas feitas entre o Bumlai e qualquer outra pessoa que eu não participei, é melhor o senhor perguntar para eles. Porque eu não sou obrigado e nem Jose Carlos Bumlai tinha qualquer obrigação de apresentar qualquer projeto a mim ou Roberto Teixeira, como eu não tinha que prestar contas do que eu fazia".

O ex-presidente também rebateu quando Moro disse que o documento foi apreendido na casa do político.

"Eu não sei o que eles encontraram na minha residência, doutor. Eles entraram seis horas da manhã. Entraram no escritório na minha casa, que faz exatamente 20 anos que eu moro naquela casa e 20 anos que eu não entro naquele escritório. Diria que era quase um lugar de jogar tranqueira, de jogar papéis e mais papéis. O fato de ter encontrado isso num escritório da minha casa não significa que eu tenha conhecimento ou que eu tenha visto. Até porque eu não sou obrigado a acreditar que encontraram na minha casa", disse.

Petista nega que falou de terreno com Emilio Odebrecht

O petista também contestou as informações oferecidas pelo ex-ministro Antonio Palocci, em interrogatório na semana passada, de que Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente da Odebrecht, Emilio Odebrecht, teriam tratado de valores escusos e de uma relação de interesses entre o PT e a empresa em um encontro realizado no dia 30 de dezembro de 2010. A pauta da reunião incluiria a compra do terreno para o Instituto Lula.

O ex-presidente confirmou a reunião, mas disse que não passou de uma conversa de 10 minutos e que nenhum valor foi tratado. Segundo o petista, o encontro foi uma solicitação de Emilio para falar que passaria o comando de sua empresa para o filho, Marcelo.

O ex-presidente ainda chamou de "desfaçatez" as declarações dadas por Palocci no interrogatório da semana passada. Na ocasião, o ex-ministro disse que o PT e a Odebrecht firmaram um "pacto de sangue" naquele encontro, e que Emilio Odebrecht ofereceu R$ 300 milhões a Lula, além de um terreno para sediar o Instituto Lula e reformas em um sítio em Atibaia (SP).

Glaucos: suposto laranja nos dois imóveis

A procuradora Isabel Vieira perguntou a Lula para explicar a coincidência de Glauco da CostaMarques de ter intermediado a compra tanto do imóvel em São Bernardo como para o terreno no Instituto Lula. "Eu não tenho [como explicar], querida. Coincidência não é comigo", respondeu.

Lula disse que não se lembrar de ter conhecido Glaucos, e negou manter relacionamento com o empresário.

A procuradora questionou a afirmação do político e argumentou que o filho do ex-presidente Luís Cláudio Lula da Silva teria sido sócio de Glaucos na empresa Bilmaker 600 Serviços em Importação e Exportação.

Perguntado mais de uma vez se poderia explicar a relação de Glaucos com o filho, o ex-presidente disse nem ter conhecimento que eles foram sócios ou se já tiveram relacionamento de amizade. "Não. Na época, eu estava na Presidência da República desse país, tendo preocupação com 204 milhões de pessoas", disse. 

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