Entre os sem-teto, Caetano diz ser a 1ª vez em que tem um show proibido desde a ditadura

Daniela Garcia

Do UOL, em São Paulo

Após ter tido o show cancelado por decisão judicial na Ocupação Povo Sem Medo em São Bernardo do Campo (SP), o cantor Caetano Veloso disse nesta segunda-feira (30) ser esta a primeira vez em que tem um show cancelado no Brasil desde a ditadura (desde 1985).

Perguntado se era a primeira vez em que tinha um show cancelado durante o período democrático, Caetano respondeu: "Sim, é a primeira vez". "Eu vim ver [o acampamento] e cantar. Eu vivi o período oficialmente não democrático. Não é bom para mim", afirmou. "Não sei dizer se foi censura, não sou um técnico. Mas dá impressão de que não é um ambiente democrático ", disse o cantor. "Pode ser um modo de reprimir uma ação que seria legítima."

A Justiça Estadual de São Paulo emitiu uma liminar (decisão provisória) cancelando o show previsto para a noite desta segunda para membros da ocupação, que está há 45 dias acampada em um terreno na região central da cidade paulista.

O cantor defendeu a legitimidade do movimento social. "Uma área urbana não pode ficar sem função social. [...] A invasão tem o sentido de exigir que a lei se cumpra", disse.

Além do show de Caetano, havia a previsão das apresentações dos cantores Criolo e Emicida. Também acompanharam o ato as atrizes Letícia Sabatella, Sônia Braga, Alinne Morais, a cineasta Marina Person e produtora cultural e mulher de Caetano, Paula Lavigne.

Como convidado do evento, Caetano alegou não poder comentar os aspectos jurídicos da decisão. Ele afirmou, contudo, que parecia haver uma "má vontade" para a permissão do show. "E, mais do que nunca, é preciso cantar porque há muitas dificuldades ".

A multa imposta pela Justiça foi de R$ 500 mil. A decisão partiu da juíza Ida Inês Del Cid da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo após o Ministério Público entrar com uma ação civil pedindo a não realização do show na tentativa de manter a integridade de todos os envolvidos.

A apresentação ocorreria em solidariedade às 8.000 famílias sem-teto que ocupam uma área de 70 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo (SP) há 45 dias. O terreno fica na região central e vizinhas a prédios de classe média alta. Segundo o MTST, o terreno está abandonado há mais de 30 anos e com uma dívida de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) de aproximadamente R$ 500 mil.

Perguntado sobre qual música dedicaria ao público do acampamento, Caetano afirmou que seria "Gente". A canção é famosa pelo verso "Gente é para brilhar, não para morrer de fome".

Na decisão, a juíza destacou que a figura de Caetano Veloso atrairia um público que o local não suporta. "Seu brilhantismo atrairá muitas pessoas para o local, o que certamente colocaria em risco estas mesmas, porque, como ressaltado, não há estrutura para shows, ainda mais, de artista tão querido pelo público, por interpretar canções lindíssimas, com voz inigualável", diz o texto.

Reprodução/Twitter
Decisão que proibiu show de Caetano Veloso

Cumprindo a decisão do Ministério Público, a Prefeitura de São Bernardo do Campo afirmou ainda que Caetano Veloso pode se apresentar no município quando desejar, "desde que cumpra a legislação municipal com base na lei 5468 de 15/03/2007 como todos outros artistas sempre seguiram".

Paula Lavigne, mulher e empresária do cantor, tentava desde o início da tarde a liberação dos equipamentos para a realização da apresentação. "Eu não estou aqui para descumprir decisão judicial", afirmou a produtora cultural, confirmando o cancelamento. Ela disse que ainda vai tentar agendar a apresentação em outra data seguindo os critérios legais.

Acompanhada de artistas que apoiam o movimento, Paula Lavigne chegou a ser recebida na prefeitura da cidade pela chefe de gabinete e secretários e, depois, seguiu para o Fórum de São Bernardo. A produtora cultural também fez questão de elogiar a ação da Guarda Municipal quando os equipamentos foram barrados, já que não houve conflito em nenhum momento.

Para Marina Person, mesmo sem a apresentação de Caetano, a presença dos artistas no local já chama a atenção da causa social. "É importante que nós viemos e conhecemos como esse é um movimento pacífico. A nossa presença já diz que estamos juntos na mesma luta", disse a cineasta ao deixar o fórum e seguir para o terreno onde acontece a ocupação.

Daniela Garcia/UOL
Sonia Braga, Paula Lavigne, Marina Person e Alinne Moraes deixam o Fórum de São Bernardo do Campo após decisão da Justiça que impediu show de Caetano Veloso

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Artistas realizam ato

Nelson Almeida/AFP
Marina Person, Sonia Braga, Caetano Veloso e Leticia Sabatella participam de ato em ocupação dos sem-teto

Mesmo com o cancelamento do show, Caetano Veloso seguiu para a ocupação do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). O cantor particip de um ato no local junto com outros artistas e lideranças políticas. As atrizes Sonia Braga, Leticia Sabatella, Alinne Moraes, a cineasta Marina Person, os cantores Criolo e Emicida, o vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) e o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) conversam com os sem-teto em um palco improvisado.

"Manobras legais foram feitas para que o show não pudesse acontecer", disse Caetano Veloso ao público, que respondia com gritos de "amanhã, amanhã". O coro se refere a uma marcha dos sem-teto marcada para esta terça-feira (31) que seguirá por mais de 20 km do local da ocupação até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo, no Morumbi, zona sul de São Paulo.

Guilherme Boulos, líder do MTST, afirmou que a Constituição foi rasgada com a proibição do show. "Se eles queriam nos provocar para uma reação violenta, eles não conseguiram", disse. Segundo o lider, o movimento "se fortalece" com a decisão judicial. 

Alinne Moraes foi ovacionada ao subir no palco. A atriz disse que, assim como entra de cabeça em seus personagens, estava dedicada à luta da ocupação sem medo. "Cada coisa que o personagem passou eu lutei e sofri na alma. (...) Quando eu saí do Ministério [Publico] eu não tive vontade de desistir, mas de lutar", afirmou ela, que acompanhou Paula Lavigne em toda a negociação. A plateia respondeu com o grito de guerra do MTST. "Aqui está o povo sem medo, sem medo, de lutar".

O rapper Emicida também participou do ato e prestou solidariedade aos sem-teto que ocupam o terreno. "Hoje é um caso clássico de piores problemas e melhores pessoas", disse. "Não tem coisa mais bizarra de que a casa ser um sonho, a casa é básico", afirmou sobre a reivindicação do movimento por moradia.

Às 20h, os artistas encerraram o ato e se reuniram em um barracão que é utilizado como escola e brinquedoteca no acampamento. Lá, eles receberam crianças da ocupação para tirar fotos. Eles deixaram a ocupação cerca de uma hora depois e prometem voltar para participar da marcha, que deve sair do acampamento às 5h desta terça-feira (31).

WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Artistas se reúnem em palco improvisado dentro da ocupação Povo Sem Medo

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