Operação Lava Jato

Cabral reclama de acusação 'kafkiana': 'basta apontar dedo para mim que ganha prêmio da delação'

Hanrrikson de Andrade e Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

À vontade na sala de audiência da 7ª Vara Criminal do Rio de Janeiro onde presta depoimento sobre boa parte dos processos a que responde --a outra opção é o auditório da Justiça Federal, costumeiramente reservado para solenidades do tribunal--, o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) começou o depoimento desta quinta-feira (14) cumprimentando o juiz Marcelo Bretas, responsável pelos casos da Lava Jato no Rio, os advogados e a imprensa.

De camiseta polo branca e calça jeans, que se tornou seu uniforme no lugar do terno que usava nas primeiras sessões de interrogatório --o ex-governador está preso preventivamente há um ano--, Cabral se sentou, serviu-se de água e fez sinal ao magistrado de que estava pronto para começar.

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Assim que Bretas fez o primeiro questionamento do dia, em que se debate a suposta propina relacionada a obras da Carioca Engenharia com o Estado, colocou os óculos de grau e abriu o processo, indicando um a um os pontos em que, segundo ele, os delatores mentiram, a começar pela data de uma reunião que teria acontecido em seu escritório no Leblon para acertar valores em abril de 2014.

"Em abril eu nem tinha escritório no Leblon", disse Cabral que passou boa parte do depoimento reclamando do que definiu como "acusações kafkianas", uma referência à obra do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). No livro "O Processo", o personagem Josef K. responde a longo e incompreensível processo por um crime não especificado.

O ex-governador citou como exemplo o economista Carlos Miranda, tido como o principal operador do esquema de propina, também preso desde novembro de 2016, que se tornou delator no fim de novembro, após passar um ano em silêncio.

"Basta apontar o dedo para mim e dizer que foi propina que ganha o prêmio da delação", afirmou Cabral, lembrando que Miranda havia sido condenado a 40 anos de prisão e já estava preso há 13 meses.

Na semana passada, também foi revelado que o ex-subsecretário estadual de Transportes Luiz Carlos Velloso fechou acordo de colaboração. Em audiência com Bretas na última segunda-feira (11), Velloso disse ter recolhido R$ 4,5 milhões em propinas com empreiteiras que faziam parte do consórcio da linha 4 do metrô.

Segundo o ex-governador, as acusações estão todas sendo feitas sem provas e, citá-lo, tem sido uma forma das pessoas conseguirem se livrarem ou ao menos diminuírem suas penas. "Falou de mim, se dá bem."

Cabral admitiu, mais uma vez, ter usado recursos de caixa dois para campanha eleitoral. "Eu peço desculpas por ter feito uso pessoal de caixa dois para uso pessoal, o que era uma prática comum", disse. "Fiz consumo pessoal desses valores, fiz muito uso nas campanhas eleitorais minhas e de outros."

Derrota do Flamengo

Já ao fim do interrogatório, Bretas fez graça quando Cabral voltou a citar que seu único interesse era ver a concretização das obras em seu mandato e descreveu a ampliação do metrô como um dos seus maiores legados como governador. "Daqui a pouco o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] vai reclamar que eu estou deixando o senhor fazer campanha antecipada", disse o magistrado.

Após o interrogatório, Bretas e Cabral ainda comentaram a final da Copa Sul Americana na noite de quarta-feira (13), na qual o Flamengo, time do juiz, foi derrotado pelo argentino Independiente.

Vascaíno, Cabral disse ao rubro-negro Bretas que torceu para o Flamengo. "Eu juro, sou pragmático. Assim o Vasco entraria direto na Libertadores", afirmou o ex-governador, ao que o juiz retrucou que não acreditava na afirmação.

Cabral emendou mais um elogio à sua gestão. "Foi uma pena. Ia ser o primeiro título internacional de vocês no Maracanã, com o estádio novo, reformado."

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