Operação Lava Jato

Cinco momentos em que Cabral fez do banco dos réus um palanque eleitoral

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

Desde que decidiu romper o silêncio no banco dos réus da 7ª Vara Federal Criminal, no Rio, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), preso e condenado em ações penais da Operação Lava Jato, tem demonstrado empenho ao exaltar fatos e números relacionados à sua gestão --ele esteve à frente do Estado entre 2007 e 2014.

E não foram poucas as vezes em que os discursos longos do ex-chefe do Executivo, em tom de campanha eleitoral, irritaram o juiz Marcelo Bretas. Em um dos interrogatórios, o magistrado afirmou: "Não podemos transformar isso aqui em algum tipo de palanque, como o senhor fez algumas vezes e eu deixei passar."

O réu rebateu: "Estou contextualizando. Não quero palanque. Já tive muitos palanques eleitorais e, graças a Deus, muito bem-sucedidos aqui no Rio."

Em outra audiência, com bom humor, Bretas pediu ao ex-governador para que não desviasse tanto das acusações narradas na denúncia pelo MPF (Ministério Público Federal). "Daqui a pouco vai ter uma reclamação da Justiça Eleitoral dizendo que eu estou deixando o senhor fazer campanha antecipada. A gente não pode entrar por esses assuntos, não", disse ele, arrancando risos do réu.

Confira abaixo cinco momentos em que Cabral relembrou a época de candidato durante as audiências na Justiça.

ERBS JR./Frame

'Hoje se reclama do frio do trem'

Ao discorrer sobre mudanças no transporte de massa do Rio, o ex-governador afirmou a Bretas ter renovado 100% da frota de trens. Disse ainda que atualmente as pessoas "reclamam" do frio no interior das composições (em referência ao modelo importado da China, com ar-condicionado).

"Muita gente fica desagradada porque hoje o povo pode pegar um trem de qualidade lá de Duque de Caxias, baldear na Central do Brasil, trem que eu trouxe. Renovei 100% da frota de trens."

Ele vem de trem gelado. Hoje se reclama do frio do trem... Antigamente se reclamava do calor do trem.

Sérgio Cabral

Na mesma audiência, em outro momento, Cabral declarou sentir orgulho porque, durante a gestão dele, foram iniciadas as obras de construção da linha 4 do metrô fluminense --expansão até a Barra da Tijuca, na zona oeste. O projeto, que fez parte do pacote de intervenções dos Jogos Olímpicos de 2016, é objeto de investigação da Lava Jato. Segundo a acusação, houve pagamento de propina por parte das empreiteiras que assumiram as obras.

"As grandes metrópoles do mundo não param de expandir metrô. Não param de fazer metrô. E por isso eu falo com muito orgulho que eu fiz mais do que os outros governadores que me antecederam."

Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo

Maracanã: 'Um estádio digno'

Ao se defender da acusação de fraude na licitação da reforma do Maracanã, Cabral disse que o estádio não "sofria uma reforma digna" desde 1950, ano da primeira Copa do Mundo no Brasil, e que a gestão dele foi responsável por entregar um equipamento esportivo "modernizado" e "digno".

"O Maracanã, desde 1950, não sofria uma reforma digna. Um restauro decente. Fizemos uma cobertura, excelência, que não é essa cobertura do Velódromo que pega fogo toda hora com balão de festa junina... O que é um crime. Uma cobertura que, mesmo enfrentando os fogos lá das aberturas dos Jogos, está lá firme e forte", disse, em referência ao episódio do segundo incêndio no Velódromo do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca.

Nós entregamos o Maracanã. Entregamos um estádio retrofitado, um estádio modernizado, um estádio digno.

Sérgio Cabral

O político também negou a acusação de que houve superfaturamento na reforma do palco da abertura e da final da Copa do Mundo de 2014. "Posso garantir ao senhor que não houve superfaturamento e não houve inconclusão da obra."

Rosane Marinho/Folhapress
Então candidato a deputado, Cabral é fotografado ao lado da ex-mulher, Susana Neves, em 1996

Currículo no Legislativo

Em um dos interrogatórios, o ex-governador lembrou alguns dos projetos apresentados por ele no período em que exerceu mandatos no Legislativo:

"A motivação que eu tive como legislador, de fazer leis para a terceira idade, o Estatuto do Idoso, a prioridade na Justiça para o idoso, a cota nas universidades para os negros e oriundos das escolas públicas, foi a mesma motivação que me fez realizar."

O réu explicava a Bretas que não tinha como "motivação" o recebimento de vantagens ilícitas, e sim "realizações". "A minha motivação não era propina."

Cezar Loureiro/Agência O Globo

Grau de investimento em agências de risco

Ao defender aliados e integrantes da equipe econômica do Estado entre 2007 e 2014, Cabral disse a Bretas que, durante a gestão dele, o RJ conseguiu alcançar grau de investimento em duas agências de classificação de risco de crédito --ele não especificou quais.

O meu governo alcançou o grau de investimento em duas agências de risco. Foi o primeiro governo da América do Sul.

Sérgio Cabral

Na ocasião, o ex-governador respondia a uma pergunta do Ministério Público Federal sobre o acesso facilitado de empreiteiros e agentes da iniciativa privada a secretários de Estado e personagens da cúpula do governo. "Nenhum governo alcança o grau de investimento, se ele não tiver responsabilidade fiscal", completou o réu.

Pablo Jacob/Ag. O Globo

Ações na saúde pública

Na audiência referente à ação penal derivada da Operação Fatura Exposta, que tem como réus Cabral e seu ex-secretário de Saúde, Sérgio Côrtes, além de outros acusados, o ex-governador fez um longo discurso em defesa de sua gestão. Na versão dele, a rede estadual teve um aumento de mais de 450% no número de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

"Não tem uma cidade das 92 [do Estado do RJ] sem um leito de UTI. Para o senhor ter uma ideia, só para ter números, porque eu acho que isso é uma tragédia humana, tinham menos de 180 leitos de UTI no Rio de Janeiro quando nós assumimos, na rede estadual. Nós colocamos para mil leitos de UTI."

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O ex-chefe do Executivo também explicou que Côrtes, hoje preso na mesma cadeia, chegou a ser cotado para assumir a vaga de ministro da Saúde no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Para Cabral, o ex-subordinado e aliado fiel é um dos maiores gestores de saúde no país.

"O Alberto Torres, em São Gonçalo [na região metropolitana do Estado], que era um hospital caindo aos pedaços, virou centro de referência de trauma no Brasil. As pessoas começaram a ir a São Gonçalo para se tratar."

Eu não estou aqui fazendo proselitismo nem demagogia. A gente vibrava com esses números da saúde do Estado.

Sérgio Cabral

Acusações contra Cabral

Cabral já foi alvo, no total, de 20 denúncias oferecidas à Justiça pelos procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato. Descrito como chefe de um grandioso esquema de cobrança e pagamento de propina em contratos do Estado, ele responde pelos crimes de corrupção, lavagem de ativos e organização criminosa.

O ex-governador nega a autoria dos crimes apontados pelo MPF, mas diz reconhecer ter feito uso pessoal de recursos de campanha (caixa dois).

Considerando as penas já aplicadas --três em ações da 7ª Vara e uma em processo da 13ª Vara Federal Criminal (Curitiba), do juiz Sérgio Moro--, o político soma 87 anos de prisão. Preso desde novembro de 2016, atualmente ele ocupa uma cela da Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na zona norte carioca.

Cornetadas de Cabral vão de "bêbado" a "primo canalha"

 

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