Operação Lava Jato

Embates entre Cabral e Bretas vão de piada sobre futebol a "você não acredita em mim"

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

A relação entre eles já teve discussões ríspidas, reconciliação, momentos de descontração e de cordialidade. Desde que estiveram frente a frente pela primeira vez, em maio deste ano, os encontros entre o juiz federal Marcelo Bretas e o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB), que já soma 87 anos de prisão em penas na Lava Jato, tornaram-se imprevisíveis, tanto pela personalidade impetuosa do réu quanto pelo estilo irônico do magistrado.

O auge dos embates ocorreu há exatamente dois meses, quando um destemido Cabral afirmou a Bretas: "Vossa excelência não acredita em mim". Na sequência, ao se defender da acusação de que teria comprado joias e pedras preciosas para lavar dinheiro de propina, o político mencionou a família do juiz:

"Vossa excelência tem relativo conhecimento sobre o assunto porque sua família mexe com bijuterias. Se eu não me engano, é a maior empresa de bijuterias do Estado."

"Eu discordo da sua...", respondeu Bretas. "São as informações que me chegaram", retrucou o interrogado.

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A insinuação de que teria recebido, dentro da cadeia, dados sobre a vida pessoal do magistrado levou o MPF (Ministério Público Federal) a pedir o deslocamento do ex-governador para uma penitenciária federal. Bretas, que já havia dito durante a audiência que a declaração do réu poderia ser entendida "subliminarmente" como uma ameaça, autorizou a transferência, mas essa decisão foi derrubada posteriormente pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes.

Cabral ainda acusou o juiz da 7ª Vara Federal Criminal, responsável em primeira instância pelas dezenas de ações penais derivadas da Operação Lava Jato, de buscar "projeção pessoal". "Eu estou sendo injustiçado. É o meu direito de dizer que estou sendo injustiçado. O senhor está encontrando em mim uma possibilidade de gerar uma projeção pessoal, me fazendo um calvário... Claramente."

Na sessão seguinte, mais calmo, o ex-governador se desculpou pelo comportamento "infeliz", segundo o próprio, e disse não ter "nada pessoal" contra Bretas. "O senhor nunca faltou ao respeito comigo. (...) Eu estava exaltado e cometi uma indelicadeza com o senhor", declarou. O magistrado afirmou então que o assunto estava "superado". "Estamos de bem", finalizou.

O primeiro interrogatório no qual Cabral decidiu responder aos questionamentos de Bretas se deu em 10 de julho deste ano --na audiência anterior, o réu ouviu apenas perguntas de seu advogado. Ao quebrar o silêncio, o ex-governador já se mostrou indignado e disposto a contestar com veemência as acusações do MPF.

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"Nunca houve propina. Houve apoios. Eu vejo que o Ministério Público, na acusação, se refere sempre a delatores que falam em 5%. (...) Que história é essa de 5%, que 5% era uma coisa que vigia no governo Sérgio Cabral? Que maluquice é essa?"

Depois de ter elevado o tom, o político foi advertido pelo magistrado, que chegou a recomendar uma eventual pausa nos interrogatórios se Cabral estivesse "chateado".

"O senhor chegou a qualificar de maluquice a peça, a acusação. Não me parece que seja um bom caminho para os nossos trabalhos. Eu vou entender se o senhor quiser descansar um pouco, parar, se tiver chateado com alguma situação, eu vou entender. A gente pode até parar um pouco a audiência. Mas vamos procurar manter um ambiente saudável de relacionamento."

Brincadeiras e comentários sarcásticos também são comuns na relação entre Bretas e Cabral. Em uma dessas situações, o ex-governador afirmou que "até para a Madonna pediu recursos" destinados ao empresário Eike Batista, réu em uma das ações penais da Lava Jato e acusado de ter pago propina ao peemedebista. Bretas não perdoou.

"Eu vi em uma gravação o senhor tentando falar inglês... Estava sofrível", disse, em referência a uma entrevista em que Cabral, visivelmente alcoolizado, escorrega no idioma durante evento no Sambódromo, templo do Carnaval carioca.

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"Aquele dia eu estava animado. (...) Vossa excelência voltou agora do Caribe, de férias. Toma um drinkzinho, uma festa, o Carnaval carioca... Eu estava recebendo a Madonna e passei um pouco do... Imagina, né", respondeu o ex-chefe do Executivo fluminense.

Bretas e Cabral rivalizam não só na sala de audiências da 7ª Vara Federal Criminal, mas também no futebol. O juiz é flamenguista e, em entrevista ao jornalista Pedro Bial, da "TV Globo", disse ser do tipo de torcedor que fica tão nervoso a ponto de não acompanhar os jogos. O ex-governador, por sua vez, é vascaíno e nunca escondeu seu amor pelo clube.

Ao fim do interrogatório do dia 12 de dezembro, o réu brincou com o magistrado e se queixou da derrota do Flamengo no primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, contra o Independiente, na Argentina. "Doutor Bretas, o Flamengo não pode perder para o Independiente. Tem que ganhar para o meu Vascão ganhar a vaga direta para a Libertadores", declarou. O magistrado reagiu com ironia.

"Se o Flamengo ganhar, a turma lá do lado de Benfica vai fazer barulho e incomodar o senhor", disse, referindo-se à comunidade do Arará, vizinha à Cadeia Pública José Frederico Marques, onde Cabral está preso. Políticos presos na Lava Jato têm reclamado do excesso de barulho na região por conta de bailes funks na favela.

Na audiência posterior, em 18 de dezembro, depois do empate no jogo decisivo, no Maracanã, e a confirmação do título do Independiente, Cabral lembrou que estava na torcida pelo clube do juiz. "Eu juro, sou pragmático. Assim o Vasco entraria direto na Libertadores", disse, em referência à principal competição sul-americana. "Foi uma pena. Ia ser o primeiro título internacional de vocês no Maracanã, com o estádio novo, reformadinho."

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