Operação Lava Jato

Cornetadas de Cabral contra delatores e ex-aliados vão de "bêbado" a "primo canalha"

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

Acostumado com os embates das campanhas eleitorais desde que ingressou na vida pública, em 1987, o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB), hoje preso e condenado na Operação Lava Jato, tem mostrado que não perdeu o jeito ao atacar delatores e ex-aliados durante os interrogatórios na 7ª Vara Federal Criminal (RJ), do juiz Marcelo Bretas.

Os principais alvos são os também réus Luiz Carlos Bezerra e Carlos Miranda, apontados nas denúncias do MPF (Ministério Público Federal) como operadores financeiros do ex-governador. O ex-chefe do Executivo fluminense é acusado de comandar um grandioso esquema de corrupção em contratos do Estado. Somadas as penas já aplicadas, ele acumula 87 anos de prisão.

Miranda, ex-funcionário de Cabral e tido pelos procuradores da força-tarefa da Lava Jato como "gerente da propina", já foi chamado de "sujeito sem graça", "traidor", "introvertido" e "amarra-cachorro" (pessoa que executa tarefas de pouca importância).

"Eu não achava a menor graça nele. Aliás, eu não acho a menor graça. Passei a achar menos graça agora", afirmou o ex-governador, depois que Miranda aceitou fazer delação premiada.

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"Certamente o Ministério Público, nas reuniões que teve com ele para arrancar essa delação, deve ter tido muita dificuldade para ele falar. Porque ele é ruim de falar, né? Ele tem uma trava pessoal. Ele é difícil. É um sujeito introvertido, mal resolvido do ponto de vista psicológico."

Em outro depoimento, Cabral se inspirou em uma frase do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues para taxar o ex-funcionário --que é marido de uma prima dele-- como "primo canalha".

O Nelson Rodrigues tem a figura do cunhado canalha. E ele é o primo canalha. Porque é casado com a minha prima e está mentindo para mim.

Sérgio Cabral

Já Bezerra foi adjetivado pelo réu como uma "pessoa engraçadíssima", mas que "bebia e muito". "Chegava às vezes antes do meio-dia de pileque", disse Cabral, na tentativa de desqualificar como provas as anotações de contabilidade paralela apreendidas pela Polícia Federal na casa do investigado. "Aquelas planilhas são verdadeiras peças de bêbado."

Assim como Miranda, explicou o ex-governador, Bezerra era um funcionário que recebia uma remuneração mensal e executava ordens dadas pelo peemedebista, tais como recolhimento de recursos de campanha (caixa dois) e pagamento de contas pessoais. Para a Lava Jato, no entanto, Bezerra era o "homem da mala" e tinha função fundamental na organização criminosa. Seria ele o responsável por recolher e transportar o dinheiro da propina, a mando de Cabral.

Os embates entre Bretas e Cabral

Em um dos interrogatórios, Cabral afirmou ter dado a Bezerra "todos os empregos que ele teve na vida". E questionou a inteligência do ex-funcionário: "era uma pessoa com limitações intelectuais, formação acadêmica... E amigo. Amigo é amigo".

O ex-chefe do Executivo estadual também atacou o empreiteiro Fernando Cavendish, que era seu amigo íntimo até 2012, quando eles romperam relações. À Justiça, o ex-dono da Delta Construções afirmou ter dado um anel de cerca de R$ 840 mil (valores atualizados) de presente para a mulher de Cabral, Adriana Ancelmo (também condenada na Lava Jato), como parte de propina para que a empresa entrasse no consórcio da obra do Maracanã.

Ao ser questionado sobre o fato, o ex-governador afirmou a Bretas:

Ele dizer que um presente de puxa-saco, querendo me agradar, dando um presente para a minha mulher... O senhor acha que eu vou entrar numa loja e pedir para ele comprar um presente para a minha mulher? Chega a ser risível

Sérgio Cabral

"Risível e covarde da parte dele", completou o peemedebista, sempre a fazer uso das adjetivações.

A fúria de Cabral também rendeu comentários pouco elogiosos a César Romero, réu na Lava Jato e ex-subsecretário de Saúde na gestão dele.

Romero é um dos principais delatores no âmbito da Operação Fatura Exposta, desdobramento da Lava Jato que levou à cadeia o ex-secretário Sérgio Côrtes, um dos homens de confiança de Cabral. Os três respondem criminalmente na mesma ação.

"Ele era um sujeito assim, sinceramente, muito esquisito. Eu achava ele pessoalmente muito esquisito", disse.

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