Planalto busca desassociar intervenção no Rio de assassinato de Marielle Franco

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

  • Reprodução/Twitter

    O presidente da República, Michel Temer (MDB), cumprimenta o ministro Extraordinário da Segurança Nacional, Raul Jungmann, no Palácio do Planalto, em Brasília

    O presidente da República, Michel Temer (MDB), cumprimenta o ministro Extraordinário da Segurança Nacional, Raul Jungmann, no Palácio do Planalto, em Brasília

O presidente da República, Michel Temer (MDB), principais ministros e auxiliares buscam desassociar a intervenção federal na área de segurança pública no Rio de Janeiro, que completa 30 dias corridos neste domingo (18), do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL).

Marielle foi assassinada com quatro tiros na cabeça, em homicídio doloso (com intenção de matar), na noite de quarta-feira (14). O motorista do carro em que estava, Anderson Gomes, também morreu no local atingido por tiros nas costas. Uma assessora foi atingida por estilhaços de balas. Ainda não se sabe quem praticou o crime nem o porquê. A investigação é conduzida pela Polícia Civil do Rio.

Após a morte de Marielle, políticos, personalidades e parte da opinião pública voltaram a criticar a intervenção federal no Rio. Gritos de "Fora, Temer" também foram ouvidos nos atos em memória da vereadora, que não apoiava o presidente nem suas políticas governamentais.

A avaliação do Planalto é que o crime premeditado contra a vereadora aconteceria independentemente da intervenção federal – tanto que a presença das Forças Armadas no Rio não coibiu os criminosos. Portanto, não se pode relacionar as duas questões de forma direta, afirmam.

Por outro lado, assessores reconhecem que a intervenção está atrapalhando as atividades de milícias com policiais corruptos e demais organizações criminosas. Assim, estas podem ter enxergado uma maneira de retaliar o governo com um crime violento contra pessoa pública com a qual já tinham divergências. As motivações, porém, só serão conhecidas após o término das investigações policiais.

Uma viagem pré-marcada de Temer ao Rio para encontro com o interventor, general Walter Braga Netto, e militares neste domingo foi cancelada. Se antes a reunião serviria para mostrar o progresso da intervenção, agora teria de ter uma fala que remetesse ao assassinato de Marielle. A percepção no Planalto é de que ainda falta fazer a população fluminense sentir de maneira efetiva uma sensação de maior segurança, principalmente depois de quarta.

Enquanto isso, o Planalto buscará separar os fatos, intensificar a necessidade da intervenção no Rio e cobrar resultados rápidos na apuração do crime contra Marielle. Segundo um assessor de Temer, não há intenção de recuar da presença das Forças Armadas no Estado. Pelo contrário, o governo agora deve reforçar os trabalhos da intervenção para demonstrar força e poder – e evitar uma desmoralização.

Para Michel Temer, que testa seu nome para as eleições de outubro deste ano, o assassinato de Marielle foi um balde de água fria no capital político que buscava junto à intervenção e ao combate do crime organizado. O presidente e equipe sabem que qualquer notícia negativa, em especial no Rio, resvala na intervenção.

Ministros defendem acontecimentos independentes

Nesta quinta (15) e sexta (16), em entrevistas, ministros e auxiliares do governo reforçaram a impossibilidade de se relacionar o crime com a intervenção. O discurso é de que são acontecimentos separados.

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, afirmou "não tem nada a ver uma coisa com a outra" e disse ser o papel da oposição contestar o governo. O ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, afirmou "imbecil é quem imaginou que em 30 dias nós teríamos solucionado a questão da violência no Rio de Janeiro. Essa nunca foi a nossa pretensão, nós temos um trabalho de longo curso, ele será realizado".

"E, se esse assassinato tinha o objetivo de nos assustar, de nos retirar do nosso rumo, esses bandidos se enganaram", disse também.

O ministro Extraordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse que "a intervenção nunca se propôs a fazer mágica", mas a fortalecer e reestruturar as polícias no Estado do Rio. O secretário-executivo da pasta e secretário nacional de Segurança Pública, general Carlos Alberto Santos Cruz, declarou o assassinato e a intervenção serem "dois pontos não ligados um ao outro".

"Se essa intervenção iria impedir um assassinato desse tipo? Eu acho que não tem ligação. Uma intervenção adota certas medidas, está planejando certas ações, e temos de ver, nesse tipo de assassinato, qual a motivação do crime. [...] É mais um crime com uma ousadia inadmissível dos criminosos, entre outras tantas que temos no Rio", falou.

"Vejo que mostra que a ousadia criminosa precisa ser contida de maneira contundente, muito forte, aberta e que as forças policiais, o Judiciário e o Ministério Público não deem chance para que os criminosos continuem com esse tipo de atitude. A reação tem de ser enérgica", completou.

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